Meditação para a Vigésima Sexta-feira depois de Pentecostes. Jesus Amável

Meditação para a Vigésima Sexta-feira depois de Pentecostes

SUMARIO

Depois de termos meditado sobre o amor de Deus e seus efeitos, é justo que meditemos agora sobre o amor de Jesus Cristo, seu adorável Filho. Consideraremos:

1.° Quanto Jesus Cristo é amável;

2.° O que os nossos corações lhe devem.

— Tomaremos a resolução:

1.º De considerarmos muitas vezes tudo o que oferece de amável a pessoa de Jesus Cristo, e de pensarmos nisto com alegria;

2.° De fazermos durante o dia frequentes atos de amor deste divino Salvador.

O nosso ramalhete espiritual será a palavra de São Paulo:

“Se algum não ama a Nosso Senhor Jesus Cristo, seja anátema” – Si quis non amat Dominum nostrum Jesus Christum, sit anathema (1Cor 16, 22)

Meditação para o Dia

Adoremos o grande amor que o Pai eterno tem a seu Filho. Ele põe neste prezado Filho toda a sua complacência; dá-Lhe tudo o que possui e tudo o que é; em atenção a Ele, suporta os nossos defeitos; perdoa os nossos pecados; ouve as nossas orações; previne-nos com as suas graças. Que acatamento não devemos tributar a um Pai tão cheio de amor para com o mais amável de todos os Filhos! É o modelo mais perfeito do amor que devemos a Jesus Cristo.

PRIMEIRO PONTO

Quanto Jesus é amável

Evidentemente Jesus Cristo, considerado como Deus, é infinitamente amável, pois encerra toda a perfeição e santidade, tudo o que extasia os anjos e os santos no céu. Cheio de graça e de verdade, princípio e fim de todas as coisas, centro de todo o bem, é o amor eterno do Pai, a sua alegria, as suas delícias.

Considerado como homem-Déus, é amável em todos os estados, porque passou a sua humanidade santa: amável no seio de sua Mãe ali pensa em nós; ora por nós; cuida na nossa reconciliação com seu Pai, e dispõe os seus olhos a fitar-nos com bondade, os seus ouvidos a escutar-nos, a sua língua a instruir-nos, os seus pés a buscar as ovelhas desgarradas, as suas mãos a socorrer-nos, os seus braços a abraçar-nos, o seu sangue a correr por nós, o seu corpo a ser crucificado por nós, o seu coração a entregar-se-nos pedindo o nosso.

Amável no presépio, ali sofre, chora, se humilha por nós. Amável na sua Epifania, ali nos aparece como nosso Deus e Rei. Amável na sua apresentação ali se oferece a seu Pai como nossa vítima. Amável na sua vida oculta, ali nos ensina o trabalho, a humildade, a obediência. Amável na sua vida pública, passa-a fazendo bem (1). Amável na última ceia, ali institui a Eucaristia, o maior milagre de seu amor, e pede o seu próprio trono para nós a seu Pai (2). Amável em Getsemani, ali derrama por nós as suas lágrimas com o seu sangue. Amável perante os seus juízes, é esbofeteado como blasfemo; açoitado como ímpio; coroado como insensato; condenado como facínora, e tudo isto para nos salvar. Amável no Calvário, ali se deixa crucificar por nosso amor, ora pelos seus algozes, dá-nos a sua própria Mãe, assim como nos dera seu próprio Pai a fim de que sejamos seus irmãos paternos e matemos; finalmente, morre de amor, com os braços estendidos para nos dar o ósculo de paz, o peito e o lado abertos para nos receberem. Amável na sua Ressurreição, ali nos dá o penhor da nossa ressurreição futura. Amável na sua Ascensão, vai preparar-nos um lugar no céu, e como a águia que incita os seus filhinhos a imitar o seu voo, convida-nos a segui-lO. Amável no mistério do Pentecostes, ali nos envia o seu Espírito Santo, o amor substancial que consola, que conforta, que ampara a fragilidade humana, e nos inspira as boas orações e as boas obras. Amável à mão direita de seu Pai, ali é nosso medianeiro, nosso advogado, nosso pontífice, nosso tudo. Amável, finalmente, nos tabernáculos, ali é para nós o céu na terra, o alimento da nossa alma, o resumo de todos os seus mistérios de amor. Ó meu Deus, Vós encantais o meu coração; não ter eu o dos serafins para amar tanto amor!

SEGUNDO PONTO

O que os nossos corações devem a Jesus Cristo

Devemos:

1.° Amá-lO como nosso Deus e supremo Senhor. Como nosso Deus devemos amá-lO sobre todas as coisas, mais que a todas as criaturas, mais que a nós mesmos, e regozijar-nos de todas as grandezas e perfeições que possui nesta qualidade. Como supremo Senhor, devemos obedecer-Lhe como servos, ser-Lhe fiéis como súditos, submissos como escravos, e alegrar-nos com o seu absoluto domínio, que Lhe dá direito de vida e de morte sobre todo o nosso ser.

2.° Amá-lO como nosso Salvador e Mestre: como nosso Salvador, devemos oferecer-nos a Ele para fazer e sofrer tudo em reconhecimento do que se dignou fazer e sofrer para nossa salvação. Como nosso Mestre, temos obrigação de conformar e nossa vida com os seus ensinos, suas santas máximas, e de desejar de todo o coração, que tão excelente doutrina se espalhe por todo o mundo.

3.° Amá-lO como nossa Cabeça e nosso Pastor. Como nossa Cabeça devemos receber dEle o Espírito, os princípios e a norma de nossa conduta; e arriscar tudo o que somos para defender a sua glória, assim como os membros se arriscam para conservar a sua cabeça. Como nosso Pastor, que nos alimenta com o seu próprio sangue, devemos ouvir a sua voz, segui-lO, e estar prontos a derramar o nosso sangue por seu amor.

4.° Amá-lO como nosso Pai, esposo das nossas almas e nosso tudo. Como nosso Pai, devemos-Lhe um amor terno, respeitoso, reconhecido, e temer desagradar-Lhe. Como Esposo das nossas almas, devemos tomar a peito tudo o que interessa, desejar somente o que Ele quer, e pôr a nossa felicidade em Lhe sermos inseparavelmente unidos no tempo e na eternidade. Finalmente, como nosso tudo, devemos entregar-Lhe o nosso coração, e amar a Ele só (3).

Entremos aqui em nós mesmos; lastimemos tê-lO amado tão pouco até ao presente; e decidamo-nos a amá-lO melhor para o futuro e a provar-Lhe o nosso amor com as nossas obras.

Resoluções e ramalhete espiritual como acima

Referências:

(1) Pertransit benefaciendo et sanando omnes (At 10, 36)

(2) Pater,… volo ut ubi sum ego, et illi sint mecum (Jo 17, 24)

(3) Qui se nobis totum dedit, a nobis cor nostrum totum petit

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(HAMON, Monsenhor André Jean Marie. Meditações para todos os dias do ano: Para uso dos Sacerdotes, Religiosos e dos Fiéis. Livraria Chardron, de Lélo & Irmão – Porto, 1904, Tomo V, p. 103-106)