Meditação para a Terça-feira da Segunda Semana da Quaresma

SUMARIO

O mistério da transfiguração, que meditamos esta semana, faz sobressair admiravelmente três belas verdades:

1.° As grandezas de Jesus Cristo;

2.° O poder da Sua mediação;

3.° A autoridade dos Seus ensinos.

— Depois destas considerações, tornaremos a resolução:

1.° De conservarmos em nós um grande respeito para com Jesus Cristo, e uma grande confiança na  Sua mediação;

2.° De imitarmos Jesus Cristo e de obedecermos às Suas inspirações.

O nosso ramalhete espiritual será a palavra do Evangelho:

“Este é aquele meu querido Filho, em quem tenho posto toda a minha complacência; ouvi-o” – Illic est Filius meus dilectus, in quo mihi bene complacui: ipsum audite (Mt 17, 5)

Meditação para o Dia

Transportemo-nos pelo pensamento ao Tabor, e ouçamos, com grande devoção, o magnifico panegírico, que Deus Pai ali faz de seu Filho. Amemos o Pai, que assim louva, e o Filho, que é assim louvado.

PRIMEIRO PONTO

As grandezas de Jesus Cristo reveladas no Tabor

Se vos temos pregado, diz São Pedro aos fiéis na sua segunda Epístola, o poder e a vinda de Nosso Senhor Jesus Cristo, não é seguindo fábulas engenhosas; mas sim depois de termos sido os espectadores da sua grandeza. Porque ele recebeu de Deus Pai honra e glória, quando da magnífica glória lhe foi dirigida uma voz desta maneira: ‘Este é o meu Filho amado, em quem eu me comprazi, ouvi-o’. E nós mesmos ouvimos esta voz, que vinha do céu, quando estávamos com ele no monte santo (1). Oh! Quão grande é aquele que adoramos nos nossos tabernáculos! E com que santo tremor, com que profunda devoção devemos aparecer diante da Sua majestade, não menos real quando a oculta por amor e humildade debaixo das especies eucarísticas, do que quando a apresentava no Tabor aos olhos dos Apóstolos deslumbrados! É o Filho de Deus, não por adoção, por semelhança, por elevação, como os justos; mas por natureza, por identidade de essência, igual em tudo a seu Pai, como Ele onipotente, eterno, imenso, infinitamente perfeito, Santo dos santos, Deus do universo, Criador de todas as coisas.

Prostremo-nos diante de tantas grandezas, e peçamos-Lhe perdão de Lhe termos faltado tantas vezes ao respeito no lugar santo, na oração, na disposição habitual do nosso coração.

SEGUNDO PONTO

O poder da mediação de Jesus Cristo revelado no Tabor

Jesus Cristo havia-se já declarado nosso medianeiro junto de seu Pai com estas doces palavras ditas aos seus Apóstolos: Pedi a meu Pai em meu nome; mas no Tabor, Deus Pai revela-nos o poder desta mediação, proclamando-o seu Filho único, objeto de toda a Sua complacência, por conseguinte não só onipotente sobre o Seu coração, más o único por quem todas as súplicas devem ser apresentadas; o único que obtém infalivelmente que sejam ouvidas. Assim como Deus Pai determinou que fôssemos remidos e santificados por este Filho amado, também determinou que todas as nossas orações sejam apresentadas por Ele (2), e sempre atendidas nEle, em razão do grande respeito que Lhe tem (3).

Que consolação para nós possuir tal medianeiro! Com que plena confiança devemos dirigir por Ele todas as nossas orações ao céu! Não esquecemos nós muitas vezes este meio de assegurar o efeito das nossas orações?

TERCEIRO PONTO

A autoridade dos ensinos de Jesus Cristo revelada no Tabor

Deve ser para nós uma imensa consolação sermos os discípulos de um mestre e de um doutor, cuja divina missão o céu proclama de um modo tão sublime e tão solene. Ouvi-o, diz a voz celeste (4).

Ouvi os seus ensinos, não somente quando nos revela os dogmas da fé, que deveis crer sem ouvir o que os sentidos e a razão parecem dizer-vos em contrário; mas também quando vos prega as verdades morais e práticas, dizendo-vos que a felicidade desta vida consiste na pobreza, no menosprezo e no sofrimento.

Ouvi-o, quando vos ensina com a voz dos Seus exemplos (5). Ele teve uma vida laboriosa e oculta: todos os Seus dias decorreram na dor; pôs-Se abaixo de todos os outros, aos próprios pés dos Seus discípulos; foi manso e humilde de coração, aceitando para Sua partilha a pobreza, o opróbrio, a humilhação, os tormentos.

Ouvi-o, quando vos fala pela voz secreta das Suas inspirações. A Sua graça está sempre à porta do vosso coração, incitando-vos a ter uma vida melhor, e a abandonar essa vida toda natural, toda humana, essa vida leviana e distraída, essa vida habitual, essa vida eternamente a mesma, sem nenhuma reforma dos defeitos, assim como sem o menor progresso nas virtudes. Cedei finalmente às instâncias da graça, que vos constrange. Bem-aventurada a alma que a ouve, e que depois de a ter ouvido, lhe obedece generosamente (6).

É deste modo que obramos?

Resoluções e ramalhete espiritual como acima

Referências:

(1) Non doctas fabuas seculti, notam fecimus vobis Domini nostri Jesus Christi virtutem et praesentiam: sed speculatores facti illius magnitudinis. Accipiens eum a Deo Patre honorem et gloriam, voce delapsa ad eum hujusmodi a magnifica gloria: Hic est Filius meus dilectus, in quo mihi complacui: ipsum audite. Et hanc vocem nos audivimus de caelo allatam, cum essemus cum ipso in monte sancto (2Pd 1, 16-18)

(2) Per Dominum nostrum Jesum Christum

(3) Exanditus est pro sua reverentia (Hb 5, 7)

(4) Ipsum audit (2Pd 1, 17)

(5) Ipsum audit (2Pd 1, 17)

(6) Beata anima quae Dominum is se loquentem audit (II Imitação, 1)

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(HAMON, Monsenhor André Jean Marie. Meditações para todos os dias do ano: Para uso dos Sacerdotes, Religiosos e dos Fiéis. Livraria Chardron, de Lélo & Irmão – Porto, 1904, Tomo II, p. 118-121)