Meditação para a Quarta-feira da 1ª Semana do Advento. Exame das Consciências

Meditação para o Quarta-feira da 1ª Semana do Advento

Sumário

Meditaremos hoje sobre o juízo final e veremos:

1.° O rigoroso exame que nele se fará de todas as consciências;

2.° A glória que disso resultará aos bons;

3.° A confusão que disso provirá aos maus.

— Tomaremos depois a resolução:

1.° De nos citarmos a nós mesmos todas as tardes para o tribunal de Jesus Cristo, e de perguntarmos a nós mesmos o que dirá deste dia o supremo Juiz: que dirá ele do uso que dele fiz, das palavras que nele proferi, dos pensamentos a que me entreguei?

2.° De lembrarmo-nos, a cada hora do dia, das palavras de São Paulo:

“Depois disto o juízo” – Post hoc autem, judicium (Hb 9, 27)

Estas palavras nos servirão de ramilhete espiritual.

Meditação do Dia

Representemo-nos, o supremo Juiz sentado no seu trono. Todos os povos estão presentes; os acusados estão citados: suponhamos que somos nós mesmos. Humilhemo-nos e tremamos.

PRIMEIRO PONTO

Exame das Consciências no Último Dia

Comparecerei pois diante desse tremendo tribunal, onde a minha causa será instruída, toda a minha vida patenteada, o mal cometido, o bem omitido, o bem mal feito, as graças recebidas sem fruto, o tempo perdido ou mal empregado, cada ação, cada palavra, o principio que terá induzido a obrar ou a falar, cada pensamento e segunda tenção, as confissões sem emenda, as comunhões sem amor, as orações sem atenção (1). Eras homem, eras cristão; tinhas de cumprir os deveres de teu estado, me dirá o supremo Juiz; dá-me conta de todos estes títulos e ação. Como homem, fiz-te à Minha semelhança: onde estão esses traços divinos, que gravei na tua alma dando-te a vida, essa equidade, essa probidade, essa moderação, essa perfeita decência, que faz o homem bom à Minha imagem? Como cristão, que conformidade há entre a tua vida e o Evangelho, essa lei tão casta, tão severa, tão inflexível, em que nem um til há, que não devas cumprir? Como colocado em um estado que obriga para com a Igreja, a sociedade, a família, de que modo preencheste todos os teus deveres? Não os desprezaste para não te incomodares e constrangeres? Não antepuseste o prazer ao dever, o gozo à consciência? Que imenso objeto de exame! Examinemo-nos a nós mesmos, para não sermos julgados então (2).

SEGUNDO PONTO

Glória que provirá aos bons do Exame de sua Consciência

Nesse dia Deus dará a cada um a glória que lhe for devida (3): revelará à admiração dos povos todos os méritos da alma justa, a sua virtude tão pura, as suas intenções tão retas, os seus sentimentos tão elevados a magnânimos, a sua constante mansidão, a sua paciência tão perseverante, as suas orações tão fervorosas, até os seus menores pensamentos, até as suas menores ações ou palavras de caridade (4). Todos os povos aplaudirão ouvindo tão edificante relação; todos os que houverem presenciado tão bela vida referirão também tudo quanto tiverem notado de piedoso, de benigno e amável. Toda a assembléia dos povos proclamará os seus louvores e celebrará a sua glória. Oh! Que belo dia de triunfo para o justo! Quanta razão tinha São Paulo para dizer, no meio das tribulações e provações:

Sofro, mas não sou confundido! Depositei todas as minhas dores nas mãos do meu Juiz, e delas me indemnizará no grande dia de suas justiças – Reddet mihi Dominus in illa die justus Judex (II Tim 4, 8)

Quão próprio não é este pensamento para nos consolar nas nossas aflições, para nos animar nos nossos infortúnios!

TERCEIRO PONTO

Confusão que provirá aos Réprobos do Exame de sua Consciência

Este exame os encherá de indizível confusão.

— Confusão: 1.° de ver em um prato da balança do supremo Juiz todas as graças recebidas : graças exteriores pelos sacramentos, pelos ensinos e bons exemplos; graças interiores pelos bons pensamentos e piedosos afetos; e no outro prato, onde seria necessário tanta santidade para fazer equilíbrio, nada ou quase nada, nenhuma virtude sólida; muito menos do que nada, muitos pecados.

— Confusão: 2.° de ver a sua consciência patenteada a todos os povos, que ali terão tantos pecados ocultos, tantos pensamentos e desejos ilícitos, tanto amor-próprio e tantas pretensões orgulhosas, tantos mistérios de iniquidade talvez.

— Confusão: 3.° de ouvir os gritos de indignação de tantas almas que, sem mais meios já de salvação, se elevaram a uma alta virtude; de tantas outras que em posição menos favorável, se conservaram puras no meio do contágio do século, recolhidas entre a distração dos negócios, humildes e desinteressadas no meio das grandezas e riquezas. “É réu de morte eterna” – Reus est mortis (Mt 26, 66) gritarão elas; e a estes gritos de reprovação se juntarão os dos povos infiéis anatematizando o contemptor das graças, os dos demônios reclamando-o como sua presa, os principalmente de sua própria consciência que o encherá de remorsos e o forçará a dizer consigo:

“Agora vejo todos os males que fiz, e reconheço que por isso é que eles veem sobre mim” – Nunc reminiscor malorum quae feci (1 Mc 6, 12)

— Ó meu Deus, preservai-me de tão horrível confusão! Traspassai as minhas carnes com o temor de vossos juízos (5). Para me subtrair a isso, estou pronto para tudo, converto-me.

Resoluções e ramalhete espiritual como acima

Referências:

(1) Nihil est opertum quod non revelabitur, et occultum quod non scietur (Mt 10, 26)

(2) Quod si nosxnetipsos dijudicaremus, non utique judicaremur (1 Cor. 9, 31)

(3) Tunc laus erit unicuique a Deo (1 Cor 4, 5)

(4) Educet quasi lumen justitiam tuam, et judicium taum tamquam merediem (Sl 36, 6)

(5) Confige timore tuo carnes meas (Sl 128, 120)

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(HAMON, Monsenhor André Jean Marie. Meditações para todos os dias do ano: Para uso dos Sacerdotes, Religiosos e dos Fiéis. Livraria Chardron, de Lélo & Irmão – Porto, 1904, Tomo I, p. 35-38)