Meditação para o Nona Sábado depois de Pentecostes. Do Deitar na Cama

Meditação para o Nono Sábado depois de Pentecostes

SUMARIO

Meditaremos sobre a última ação do dia, que é deitar-nos na cama, o veremos:

1.° O modo exterior de fazer esta ação;

2.º As disposições interiores com que devemos fazê-la.

— Tomaremos depois a resolução:

1.° De nos deitarmos santamente pensando na morte, que o sono representa, e com este pensamento desprendendo-nos de tudo o que não é Deus;

2.° De adormecermos como nos braços de Jesus Cristo, unindo o nosso sono ao seu sono.

O nosso ramalhete espiritual será a palavra do Salmista:

“Dormirei e descansarei em paz nos seus braços” – In pace in idipsum dormiam, et requiescam (Sl 4, 9)

Meditação para o Dia

Adoremos Nosso Senhor deitando-se na cama como nós, descansando como nós, dormindo como nós. Eu dormi e estive sepultado no sono (1), diz Ele pelo seu profeta. Admiremos e louvemos este divino Salvador, que se dignou, ainda que Deus que é, sujeitar-se ao sono para o santificar na sua pessoa, e nos alcançar a graça de santificar o nosso (2).

PRIMEIRO PONTO

Modo exterior de fazer santamente a ação de deitar-se na cama

1.º A prudência requer que nos deitemos na hora marcada no nosso regulamento de vida, sem a antecipar por preguiça ou demasiado amor do descanso; assim como sem a retardar, a pretexto de que se não tem desejo nem precisão de dormir, e de que se quer ler, orar ou fazer alguma outra coisa.

2.º A modéstia exige que nos dispamos com decência, evitando quanto possível toda a nudez, pelo respeito para com Deus, que tem os olhos fixos sobre nós; que nos deitemos do mesmo modo, e que estejamos na cama em uma posição que ateste igualmente o respeito para com Deus e o anjo da guarda, que nos vêm.

3.º A religião requer, do seu lado, que nunca nos deitemos sem ter recitado a oração da tarde com o exame de consciência, seguido de um ato de contrição; que tomemos água benta, e que a lancemos sobre a cama para afugentar o demônio durante a noite; que depois de deitados, laçamos o sinal da cruz, pronunciemos os nomes de Jesus, Maria e José; e em seguida durmamos e descansemos em paz nos braços de Jesus (3).

Temos observado estas regras?

SEGUNDO PONTO

Disposições interiores com que detemos deitar-nos

1.° Ao despirmo-nos, devemos desejar vivamente despojar-nos do homem velho com todas as suas obras (4), e olhar-nos como um pecador indigno de ter um vestido depois de haver perdido o da inocência.

2.° Ao deitarmo nos na cama, devemos:

a) Adorar Nosso Senhor, que fez esta mesma ação, e honrar o mistério da sua morte e sepultura;

b) Considerar a nossa cama como nossa sepultura, a nossa roupa como nossa mortalha, o sono como a imagem da morte, e entrar por conseguinte nos sentimentos que quereríamos ter ao expiar, aceitar a morte com o estado de podridão que a há de seguir, e desejar que toda a gente se afaste de nós como se afasta de um cadáver, e nos esqueça como esquece os mortos.

c) Estando na cama, devemos oferecer o nosso descanso a Deus em honra do descanso de Jesus Cristo, enquanto estava sobre a terra, e ainda mais era honra do descanso eterno, que o Pai celestial goza em si mesmo, em seu Filho, na Santíssima Virgem, e em todos os santos; depois, ao adormecer, dizer o que Nosso Senhor disse a seu Pai ao adormecer: Pai, nas nossas mãos encomendo o meu espírito (5); por último, devemos fazer diligências por adormecer com algum bom pensamento a fim de que só os tenhamos bons quando acordarmos, e de que o nosso mesmo sono seja uma oração a Deus (6).

Cumprimos estas práticas?

Resoluções e ramalhete espiritual como acima

Referências:

(1) Ego dormivi, et soporatus sum (Sl 3, 8)

(2) Somnum caepit, ut somnum benedicat (São Gregório Nazianzeno, Orat. 31)

(3) In pace in idipsum dormiam, et requiescam (Sl 4, 9)

(4) Expoliantes vos veterem hominem cum actibus suis (Col 3, 9)

(5) Pater, in manus tuos commendo spiritum meum (Lc 23, 46)

(6) Sanctis ipse somnus oratio (São Jerônimo, ep. 22 ad Eustáquio)

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(HAMON, Monsenhor André Jean Marie. Meditações para todos os dias do ano: Para uso dos Sacerdotes, Religiosos e dos Fiéis. Livraria Chardron, de Lélo & Irmão – Porto, 1904, Tomo VI, p. 60-63)