Meditação para a Quarta Quarta-feira depois de Pentecostes. Comunhão Sacramental e Espiritual

Meditação para a Quarta Quarta-feira depois de Pentecostes

SUMARIO

Meditaremos:

1.° Sobre a Comunhão Sacramental;

2.° Sobre a Comunhão Espiritual.

— Tomaremos depois a resolução:

1.° De nos renovarmos no amor da Sagrada Comunhão;

2.° De comungarmos espiritualmente todos os dias e até várias vezes no dia.

O nosso ramalhete espiritual será a palavra do Salmista:

“Preparaste-me uma mesa diante de mim contra aqueles que me atribulam” – Parasti in conspectu meo mensam adversus eos qui tribulant me (Sl 12, 5)

Meditação para o Dia

Adoremos a infinita bondade de Nosso Senhor confundindo o Seu ser com o nosso pela comunhão, e fazendo do nosso coração um paraíso terrestre, em que se apraz de habitar (1). Poderemos nós reconhecer jamais como convém tão grande amor?

PRIMEIRO PONTO

Da Comunhão Sacramental

A comunhão exerce a sua ação benéfica sobre as nossas almas e os nossos corpos. Em primeiro lugar sobre as nossas almas. Por ela, unimo-nos tão estreitamente a Jesus Cristo, que Ele permanece em nós, e nós permanecemos nEle (2), o vimos a ser de alguma sorte uma mesma carne o um mesmo sangue com Ele (3), até como outros cristos (4); não porque Jesus Cristo se mude em nós, mas porque somos mudados nEle. Com efeito, quanto mais dignamente nos chegamos à mesa da comunhão, melhores nos tornamos; e à medida que nos afastamos dela, nos afastamos da virtude. Quando se comunga com fé sente-se que não é justo que a língua sobre que esteve o corpo de um Deus, se suje com palavras imprudentes ou maldizentes; que o corpo que foi o cibório vivo da sagrada hóstia, se manche com a menor indecência; que o coração, que foi o santuário da divindade, se abra ao que não é santo e puro. Daí provém, que a comunhão corrige os vícios, doma as paixões, extingue o fogo da concupiscência, cura a nossa frouxidão espiritual. Aflitos, consola-nos; desanimados, reanima-nos; abatidos, excita-nos; frios, aquenta-nos. A hemorroíssa estava certa da sua cura, se tocasse a orla das vestes do Salvador. Que é, pois, receber o Seu corpo, o Seu sangue, a Sua divindade? Seria impossível dizer os bens, que nos traz a comunhão bem feita. É o pão dos escolhidos; é o vinho que gera as virgens, e faz que a alma goste da pureza e inocência. A presença de Jesus Cristo firma a vontade na caridade e em todas as virtudes. O que me come a mim, diz Jesus Cristo, esse mesmo também viverá por mim (5); isto é, que terá uma vida, não já terrestre e animal, mas como a de Jesus Cristo, cheia de humildade, de pureza, de obediência, de mansidão, de paciência, e poderá dizer:

“Não sou eu já o que vivo mas Jesus Cristo é o que vive em mim” – Vivo jam non ego, vivit vero in me Christus (Gl 2, 20)

— A estes efeitos da comunhão, convém juntar a sua ação benéfica sobre os nossos corpos.

1.º Ela santifica-os consagrando-os como cibórios do corpo de Jesus Cristo, e ensinando-nos com isso a conservá-los puros como outros tantos vasos sagrados.

2.° Resfria em nós o fogo da concupiscência.

“Se já não sentis tantas vezes, diz São Bernardo, os acessos da ira, da inveja, da luxúria, ou de outros vícios, agradecei-o ao corpo de Jesus Cristo” (Sermão 19, in Cant.)

Finalmente ela deposita nos nossos corpos o gérmen da ressurreição gloriosa. O que come a minha carne e bebe o meu sangue, diz Jesus Cristo, tem a vida eterna, e eu o ressuscitarei no último dia (Jo 6, 55). Agradeçamos a Jesus Cristo tantas graças anexas a uma boa comunhão.

SEGUNDO PONTO

A Comunhão Espiritual

A Comunhão Espiritual consiste no ardente desejo de um coração cheio de amor, que tem sede e como que fome de Jesus Cristo (6).

«Ó meu Deus, quanto quisera receber-Vos em mim, trazer-Vos no meu seio, unir-me a Vós de coração com coração e só ser um conVosco! Desejoso de tão grande felicidade, procurarei ter uma vida melhor para poder comungar mais vezes»

Esta comunhão por desejo, ou esta comunhão espiritual, é infinitamente útil à alma. Dá-lhe o gosto das coisas divinas; incita-a à vida perfeita; fortifica-a na prática das virtudes, e produz até algumas vezes mais fruto que a Comunhão Sacramental feita com menos amor. Tem, além disto, a vantagem de que pode fazer-se todos os dias, a todos os instantes do dia e da noite, e em todos os lugares, quer profanos, quer sagrados.

Fazemos nós esta Comunhão Espiritual ao menos a cada Missa, que ouvimos, e a cada visita ao Santíssimo Sacramento?

Resoluções e ramalhete espiritual como acima

Referências:

(1) Deliciae meae esse cum filiis hominum (Pr 8, 31)

(2) In me manet et ego in illo (Jo 6, 57)

(3) Concorporei et consanguinei Christi (Cyr. Cat. myst. 4)

(4) Christi factus sumus

(5) Qui manducat me, et ipse vivet proter me (Jo 6, 58)

(6) Sitivit in te anima mea; quam multipliciter tibi caro mea! (Sl 62, 2)

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(HAMON, Monsenhor André Jean Marie. Meditações para todos os dias do ano: Para uso dos Sacerdotes, Religiosos e dos Fiéis. Livraria Chardron, de Lélo & Irmão – Porto, 1904, Tomo III, p. 220-223)