Meditação para a Quinta-feira da Segunda Semana da Quaresma. Amor do Sofrimento

Meditação para a Quinta-feira da Segunda Semana da Quaresma

SUMARIO

Consideraremos:

1.° No mistério da transfiguração um grande ensino acerca do amor do sofrimento;

2.° No mesmo sofrimento a fonte dos maiores benefícios.

— Tomaremos depois a resolução:

1.° De sofrermos sem descontentamento ou queixume todas as contrariedades e tribulações que sobrevierem;

2.° De não ouvirmos a delicadeza que, por cuidados excessivos, busca subtrair-se a tudo o que molesta ou incomoda.

O nosso ramalhete espiritual será a palavra de São Paulo aos hebreus:

“Ponhamos os olhos no autor e consumador da fé, Jesus, que, havendo-lhe sido proposto gozo, sofreu a cruz, desprezando a ignominia” – Aspicientes in auctorem fidei et consummatorem Jesum, qui, proposito sibi gaudio, sustinuit crucem, confusione contempta (Hb 12, 31)

Meditação para o Dia

Adoremos Jesus no Tabor falando com Moisés e Elias, não da glória de que resplandecia, mas dos tormentos que devia sofrer no Calvário (1). A boca diz o que sente o coração; e como o Seu coração estava cheio de amor à cruz, a Sua boca falava dela. Agradeçamos-Lhe esta grande lição, que Ele nos dá, e roguemos-Lhe que nos faça tirar bom proveito dela.

PRIMEIRO PONTO

O mistério da Transfiguração ensina-nos a Amar o Sofrimento

Parece que, no seio da glória, Jesus teria devido não pensar por alguns instantes no sofrimento; mas anelava tanto o batismo de sangue que havia de salvar o mundo que, até no meio dos resplendores do Tabor, não podia falar em outra coisa. Jesus, Moisés e Elias falavam, diz o sagrado texto, dos excessivos tormentos e da morte cruel que havia de sofrer no Calvário (2). Oh! Quão própria é esta celeste conversação para nos fazer compreender o que devemos mais amar sobre a terra! Em todas as circunstâncias, em todo o tempo, em todo o lugar, devemos meditar, amar, trazer a cruz, e falar nisto muitas vezes com o nosso coração, como Jesus no Tabor com Moisés e Elias. São Pedro, quando o Espírito Santo o não tinha ainda esclarecido a respeito da excelência da cruz, não pensa senão em gozar da felicidade presente, e exclama:

“Senhor, bom é que nós estejamos aqui; se quereis, façamos aqui três tabernáculos, um para vós, outro para Moisés, e outro para Elias” – Nesciens quiddi diceret (Lc 9, 33)

Mas o Espírito Santo, que narra o fato, observa que São Pedro não sabia o que dizia (3). Esquecia que gozar é a partilha da eternidade, padecer a partilha da vida presente (4); que cada coisa tem seu tempo; que para nos sentarmos um dia sobre o trono, é preciso afeiçoarmo-nos cá na terra à cruz; que, para termos parte na glória da ressurreição, convém antes trazer a semelhança da morte (5); que, finalmente, é preciso passar por muitas tribulações para chegar ao reino dos céus (6). Seriamos inescusáveis se nos esquecêssemos disto, nós, que vemos esta lei de sofrimento escrita em caráter de sangue no próprio corpo de Jesus Cristo; nós, que temos visto este divino Salvador deleitar-se, segundo a palavra de Tertuliano, em sofrer por nós (7); e que temos ouvido declarar pelo seu Apóstolo que faltaria alguma coisa à sua Paixão, se não sofresse em todos os membros do Seu corpo natural; nós, finalmente, que Ele gerou para a vida na dor, que nascemos das Suas chagas, e recebemos sobre nós a graça, que com o sangue mana das Suas veias cruelmente laceradas. Filhos de sangue, filhos de dor, não podemos salvar-nos entre as delícias.

Roguemos a Jesus Cristo que nos faça compreender estas austeras verdades, e nos anime a pô-las em prática.

SEGUNDO PONTO

O Sofrimento é para nós a fonte dos maiores bens

1.° O sofrimento desafeiçoa da terra e força o coração a elevar-se ao céu, pelo mau estar que lhe causa e que lhe prova que é feito para coisa melhor que os bens perecedores deste mundo, para os bens eternos. Sem o sofrimento, o nosso coração se perderia no amor das coisas presentes; só o sofrimento pode destruir o enganoso encanto que nos atrai para a terra, e nos faz reconhecer que só Deus é o leito do nosso repouso, que fora dali tudo é vaidade e aflição de espírito.

2.° O sofrimento acrisola a virtude, separa-a de toda a mistura, de toda a liga, e obriga-a a entrar nesse feliz estado em que só Deus é tudo para o coração. Eis a razão porque, quanto mais Deus ama uma alma, menos tempo a deixa dormir à Sua vontade; perturba-a nos seus vãos gozos, e não deixa o seu coração manchar-se na corrente dos rios de Babilônia, isto é, dos prazeres efêmeros.

3.º O sofrimento fortifica a virtude e dá-lhe esse caráter de solidez que por si só a torna digna de Deus. Enquanto o soldado não entra em fogo, a sua bravura é suspeita. Não se pode já contar com uma alma delirada, que não foi provada no crisol do sofrimento. Um contratempo, uma perda, uma falta de respeito, basta para a fazer murmurar e queixar-se. Piedade ilusória que não é mais do que o simulacro da verdadeira piedade; falso ouro, que brilha ao sol, mas não resiste ao fogo, e desaparece no crisol. Ao contrário, a alma provada pela tentação, acostumada ao sofrimento, à contradição e ao sacrifício permanece tranquila entre as penalidades da vida, beija a mão de Deus que a fere, eleva uma vista submissa para o céu, e goza das suas próprias penalidades, em que vê o penhor da felicidade futura. Por mais que lhe façam sofrer os caprichos dos juízos humanos, as desigualdades dos gênios contrariantes, as ilusões do amor-próprio, os desgostos ou as fadigas do trabalho, está firme, inabalável; e quanto mais ferido pela contradição é o seu coração, mais ela folga de se oferecer a Deus como uma hóstia marcada com o sinal da cruz de seu filho amado.

São estas as nossas disposições?

Resoluções e ramalhete espiritual como acima

Referências:

(1) Et dicebant excessum ejus, quem completurus era in Jerusalem (Lc 9, 31)

(2) Dicebant excessum ejus, quem completurus erat in Jerusalem

(3) Si tamen compatimur, ut et conglorificemur (Rm 8, 17)

(4) Configuratus morti ejus, si quo modo occurram ad resurrectionem (Fl 3, 10-11)

(5) Quoniam per multas tribulationes oportet nos intrare in regnum Dei (At 14, 21)

(6) Christus passus est pro nobis, vobis reliquens exemplum, ut sequamini vestigia ejus (1Pd 2, 21)

(7) Signari voluptate patientiae voluit

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(HAMON, Monsenhor André Jean Marie. Meditações para todos os dias do ano: Para uso dos Sacerdotes, Religiosos e dos Fiéis. Livraria Chardron, de Lélo & Irmão – Porto, 1904, Tomo II, p. 125-128)