Meditação para a Décima Nona Terça-feira depois de Pentecostes. A Presença de Deus

Meditação para a Décima Nona Terça-feira depois de Pentecostes

SUMARIO

Meditaremos, durante toda esta semana, sobre o quarto efeito do amor divino, que é andar na presença de Deus; e consideraremos:

1.° O que é o exercício da presença de Deus;

2.° Quanto um cristão deve prezar este exercício.

— Tomaremos depois a resolução:

1.° De nos entregarmos seriamente à vida contemplativa e de união com Deus;

2.° De nos conservarmos nessa pureza do coração e de consciência sem a qual a união com Deus é impossível.

O nosso ramalhete espiritual será a sexta bem-aventurança:

“Bem-aventurados os limpos de coração, porque eles verão a Deus” – Beati mundo corde, quoniam ipsi Deum videbunt (Mt 5, 8)

Meditação para o Dia

Adoremos o Espírito Santo convidando-nos a estarmos atentos na presença de Deus, e a diligenciarmos conservar-nos constantemente nesta augusta presença (1).

PRIMEIRO PONTO

Que é o exercício da Presença de Deus?

É:

1.° Uma fé viva e habitual nesta verdade, que Deus enche o céu e a terra (2); que nos vê nas trevas como em plena luz; que conhece não só as nossas obras, mas também os nossos mais secretos pensamentos (3); que nos envolve na sua essência, nos penetra como a água penetra a esponja no meio do mar, de sorte que é nEle que vivemos, nos movemos e existimos (4);

2.° Esta fé viva deve ser acompanhada de um profundo sentimento de veneração para com as grandezas e perfeições infinitas de Deus, de uma amorosa aquiescência à sua adorável vontade, aos seus desejos, quaisquer que sejam, a todas as suas graças, que somente exigem para nos salvar um coração agradecido; e daí nasce entre Deus e a alma um santo comércio de amor e de confiança, um santo desejo de Lhe agradar em todas as coisas, fazendo a cada momento o que Lhe apraz e da maneira que mais Lhe apraz.

3.° Esta fé viva e esta religiosa veneração para com a presença de Deus deve ser acompanhada de um completo desapego de todos os prazeres sensuais, de todas as coisas exteriores, até das que Deus destina para nosso uso; do contrário, a presença de Deus não nos infundiria senão um sentimento secundário; só as coisas criadas tem o privilégio de excitar o nosso interesse, com detrimento de Deus, que nem mesmo as melhores coisas devem expulsar do nosso pensamento e coração. Santa Madalena, no sepulcro, não se importa com a formosura dos anjos que lhe aparecem; vê-os sem se deixar distrair do pensamento de Jesus; continua a buscá-lo, e não descansa enquanto o não acha. Eis aqui o nosso modelo.

SEGUNDO PONTO

Quanto um cristão deve prezar o exercício da presença de Deus

Quando, alumiados por uma viva fé, vemos em toda a parte e principalmente em nós mesmo as três Pessoas divinas, com toda a sua glória, as Suas perfeições infinitas, os Seus atributos inefáveis, sentimos um delicioso prazer em Lhes fazer companhia, em contemplá-las, louvá-las, amá-las; e parece-nos uma monstruosidade vivermos esquecidos de tantas maravilhas que possuímos em nós.

Se, na sociedade, não deixamos um amigo que veio visitar-nos, sem que conversemos com ele e lhe façamos companhia, como não gostaríamos nós, que amamos a Deus, que O vemos em toda a parte conosco e em nós, de Lhe fazer companhia?

Se as coisas extraordinariamente belas nos ocupam o pensamento a ponto que nos custa a separá-lo delas, com mais razão nos devem atrair o pensamento as infinitas perfeições de Deus, presentes no meio de nós; e quanto mais nelas o empregamos, tanto mais as prezamos e amamos, pela razão, que dá o autor da Imitação, que não podemos estar ao pé de um incêndio, sem sentir algum calor; ou antes pela razão, que não podemos viver no meio das chamas sem arder, estar imerso no amor sem amar, e que Deus é um fogo consumidor, é o mesmo amor (5): não escapamos à sua chama senão esquecendo-o.

Feliz aquele que, compreendendo estas santas verdades, não se contenta com um ato de presença de Deus, feito de manhã e em breve esquecido por causa das distrações do dia, mas que se aplica a amar a Deus unicamente, constantemente, no uso das criaturas, nas suas ações e tribulações, na vida e na morte, e solta muitas vezes do fundo do coração este brado de uma alma santa:

Ao amor de Deus trino em Pessoas: tudo por amor da Santíssima Trindade, que vive em mim!

Resoluções e ramalhete espiritual como acima

Referências:

(1) Quaerite Dominum et confirmamini; quae faciem ejus semper (Sl 104, 4)

(2) Caelum et terram ego impleo (Jr 28, 24)

(3) Oculi Domini contemplantur universam terram (2Cr 16, 9). Omnia nuda et aperta sunt oculis ejus (Hb 4, 13)

(4) In ipso vivimus, et movemur, et sumus (At 17, 28)

(5) Deus noster ignis consumens est  (Hb 12, 29). Deus caritas est (1Jo 4, 16)

Voltar para o Índice das Meditações Diárias de Mons. Hamon

(HAMON, Monsenhor André Jean Marie. Meditações para todos os dias do ano: Para uso dos Sacerdotes, Religiosos e dos Fiéis. Livraria Chardron, de Lélo & Irmão – Porto, 1904, Tomo V, p. 71-74)