Meditação para o Sábado da Sexagésima. A leitura Espiritual

Meditação para o Sábado da Sexagésima

SUMARIO

Meditaremos sobre a leitura espiritual, e veremos:

1.° Qual é a sua excelência;

2.° Como a devemos fazer.

— Tomaremos depois a resolução:

1.° De sermos exatos em fazer cada dia a leitura espiritual, e para isto, de fixarmos bem o momento no nosso regulamento de vida;

2.° Daí tirarmos desta leitura, como da oração, resoluções práticas próprias para nos tomarmos melhores.

O nosso ramalhete espiritual será a palavra que a história refere de São Efrem:

“Ele retratava nos seus atos a pagina que tinha lido” – Actibus pingebat paginam quam legerat (Ennodius, in vita S. Ephrem)

Meditação para o Dia

Adoremos a Providência de Deus que, por meio dos livros espirituais, nos faz gozar da conversação dos santos, dos seus conselhos, da sua experiência, e nos dá assim parte nas luzes e nos bons sentimentos com que o Espírito Santo os favoreceu durante a sua vida. Demos graças à Sua bondade pelas grandes vantagens que nos oferece nesta leitura.

PRIMEIRO PONTO

Excelência da Leitura Espiritual

Todos os santos têm considerado este exercício como um dos mais importantes da vida espiritual.
São Paulo a isso exorta Timóteo:

“Aplica-te à leitura dos bons livros” – Attente lectioni (1Tm 6, 13)

São Jerônimo recomenda a sua prática quotidiana a Nepotiano:

“Cada dia, lhe diz ele, sê exato em ler algum bom livro” – Sit quotidiana lectio pro exercitio

Para compreender a importância deste conselho, representai-vos um grande monarca que, querendo introduzir na sua côrte um dos seus súditos, estranho aos usos desta nova residência, lhe deputasse para o instruir alguns dos seus principais cortesões. Com que zelo esse súdito tão favorecido não deveria ouvir os conselhos dos enviados do rei? Ora, os autores dos livros espirituais são precisamente esses enviados que Deus nos deputa para corrigir em nós o que é incompatível com a vida do céu e nos tornar dignos de ser admitidos entre os anjos e os santos. A leitura dos seus escritos faz reviver, para nos instruir, esses homens de Deus, tão merecedores do nosso respeito. Nós não temos que invejar a boa fortuna dos seus contemporâneos; pelos seus escritos, falam-nos como se vivessem conosco, e por um feliz atrativo, por um divino encanto, gozamos deles e das suas preciosas conversações, com a diferença que, debaixo de certos pontos de vista, lucramos mais em ler os seus escritos do que em ouvir os seus discursos. Porque:

1.° A pregação esquece-se e não se pode mais achar, enquanto que a leitura se acha sempre nos livro que a contém;

2.° A pregação passa com o rapidez do relâmpago, e é difícil meditá-la; a leitura permanece debaixo dos nossos olhos enquanto queremos e temos toda a ocasião para a meditar em todas as suas partes, para no-la anexar, para a converter na nossa própria substância;

3.° Na pregação não fazemos mais do que passar depressa diante do fogo sagrado, e não temos tempo para nos excitarmos; na leitura, demoramo-nos quanto tempo queremos diante do fogo divino; deixamo-nos excitar a seu sabor;

4.° Na pregação, apropriamos muitas vezes aos outros o que ouvimos, sem pensar em apropriar-no-lo; ao contrário, na leitura, a sós com o nosso livro, apropriamo-nos muito melhor as verdades santas;

5.° Um livro desce a particularidades práticas, que não comporta sempre o estilo mais elevado do sermão.

Daí vem, que a leitura espiritual tem mudado tantos pecadores em santos; comprovam-o esses dois cortesões do Imperador Teodosio, a quem converteu a leitura da Vida de Santo Antão, e Santo Inácio, a quem converteu a leitura da Vida dos Santos; comprova-o finalmente a experiência de cada dia.

Uma boa leitura bem feita reanima a alma abatida, consola a alma aflita, conforta a alma desfalecida, fortalece os fracos, faz recolher-se com Deus os distraídos, aquenta os frios o os tíbios, aperfeiçoa os justos, a ponto de que todo aquele que é fiel à sua leitura quotidiana, persevera e progride na piedade, e todo aquele que não se ocupa nela, afrouxa.

É este o apreço que fazemos da leitura espiritual? Somos-lhe fiéis cada dia? Temos um tempo prefixo para este exercício?

SEGUNDO PONTO

Maneira de fazer bem a Leitura Espiritual

Para que esta leitura produza na alma todo o seu fruto, convém:

1.° Que o livro seja bem escolhido. Não deve ser nem um livro científico, nem um livro difícil de entender, nem um livro moderno e recreativo: isto distrairia o espírito e endureceria o coração. Deve ser um livro de piedade, de uma doutrina exata e sólida, próprio para nos mostrar, como em um espelho, os nossos deveres e as nossas omissões. Tais são:

  • A Perfeição Cristã, de Rodrigues
  • A Imitação de Jesus Cristo, de Tomás de Kempis
  • O Combate espiritual, de Lorenzo Scupolli
  • As diversas obras de Padre São-Jure e de Granada
  • O Filotéia ou Introdução à Vida Devota, de São Francisco de Sales,  ou os seus Entretenimentos Espirituais e a sua Verdadeira e sólida piedade
  • A Paz interior, do Padre Lombez

Tais são ainda as Vidas dos Santos:

  • De São Vicente de Paulo
  • De São Francisco de Sales
  • De Santo Inácio
  • De São Francisco Xavier
  • De São Luiz de Gonzaga

E outros livros, semelhantes. São estes os nossos livros de leitura espiritual?

2.° Escolhido assim o livro, não devemos lê-lo nem por curiosidade, porque seria faltar ao fim da leitura e fechar o coração às operações da graça, nem para averiguar a beleza da dicção: porque seria imitar o louco que come as folhas da árvore e despreza o seu fruto. Devemos ler com o intuito, o desejo de nos tornarmos melhores, de amarmos e servirmos a Deus mais perfeitamente, e de cumprirmos melhor todos os nossos deveres. É este o fim das nossas leituras?

3.° Assim fixada a instrução, convém, antes de começar a leitura, recolhermo-nos com Deus para nos dispormos a ouvir a Sua voz, e rogar-Lhe que nos fale ao coração (1). Depois devemos ler com pausa, saboreando e ponderando o que lemos, detendo-nos onde nos comovemos enquanto estamos comovidos, apropriando-no-lo e deduzindo resoluções de reformar algum ponto particular da nossa vida, segundo a leitura. Lendo deste modo, leremos pouco, mas leremos bem, porque refletiremos muito. É assim que fazemos as nossas leituras espirituais?

Resoluções e ramalhete espiritual como acima

Referências:

(1) Loquere, Domine, quia audit servus tuus (1Sm 9, 10)

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(HAMON, Monsenhor André Jean Marie. Meditações para todos os dias do ano: Para uso dos Sacerdotes, Religiosos e dos Fiéis. Livraria Chardron, de Lélo & Irmão – Porto, 1904, Tomo II, p. 64-67)