Meditação para a Sexta-feira da Sexagésima

SUMARIO

Meditaremos:

1.° As razões que devem levar-nos a ler e a meditar a Sagrada Escritura;

2.° A maneira de fazermos bem esta leitura.

— Tomaremos depois a resolução:

1.° De não deixarmos passar nenhum dia sem ler ao menos um capítulo da Sagrada Escritura;

2.° De lermos de tempos a tempos, ao menos em algum resumo da Bíblia, a tão edificante narração dos fatos históricos do Antigo Testamento.

O nosso ramalhete espiritual será o versículo do Salmo:

“Que doces são ao meu paladar as vossas palavras, ó meu Deus! Elas o são mais do que é o mel à minha boca!” – Quam dulcia fancibus meis eloquia tua, super melori meo! (Sl 118, 103)

Meditação para o Dia

Adoremos o Espírito Santo inspirando os escritores sagrados, guiando a sua mão, e pela sua pena deixando a todos os séculos o depósito das verdades santas, que constituem a riqueza, o tesouro, e a consolação dos cristãos. Rendamos graças a Deus por tão precioso benefício.

PRIMEIRO PONTO

Razões que devem levar-nos a ler e a meditar a Sagrada Escritura

O que é a Santa Escritura?

É uma carta que Deus nos envia, depois de a ter ditado para nós aos escritores sagrados. Ora, se um monarca escrevesse uma carta a um dos seus súditos, e este, depois de a ter recebido, não cuidasse de abri-la e lê-la, não cometeria nisto uma grande falta de respeito? Com maior razão seriamos inescusáveis, se nos descuidássemos da leitura deste divino livro, em que Deus, para se pôr ao alcance do nosso entendimento, ocultando-Se debaixo do exterior da carta, nos fala tão realmente como fala aos anjos e aos santos no céu. Se damos apreço a uma conversação com príncipes ou reis, quanto maior apreço não devemos dar à leitura de um livro em que Deus nos fala? É a Sua palavra menos venerável quando os olhos a leem, do que quando os ouvidos a ouvem? Em um conto em outro caso, não é sempre a Sua palavra? Quando oramos, diz Santo Ambrósio, falamos a Deus, e quando lemos os santos livros, é Deus que nos fala (1). Donde este grande doutor conclui:

“Porque ó que não empregais os vossos momentos livres em ler os livros santos, isto é, em conversar com Jesus Cristo?” – Cur non illia tempora quibus vacas, lectioni impendidas? Cur non Christum revisas, Christum alloquaris, Christum audias (Santo Ambrósio, de Officiis, lib. 3, c. 2)

Nós temos toda a sorte de interesses nesta leitura; porque de todos os livros é, este o mais útil. A Sagrada Escritura é para nós um tesouro preferível a todos os tesouros (2). É ali que a alma infiel se converte (3): a leitura do Evangelho tem convertido milhares de homens; e algumas linhas de uma Epístola de São Paulo bastaram para fixar as irresoluções de Santo Agostinho. É ali que a alma aflita se consola. Os Macabeus, no meio das perseguições, achavam consolação na leitura dos santos livros (4); e São Paulo convidava os romanos a buscar a sua consolação nas Escrituras (5). É ali que a alma tentada encontra uma arma segura contra o pecado (6); a alma provada pelo desgosto, uma deliciosa suavidade (7); a alma nas trevas, uma luz que a dirige (8); a alma fria ou tíbia, um fogo que a aquece (9); a alma aborrecida do mundo, um doce descanso (10). Por isso o Salmista meditava todos os dias com amor os santos livros (11). Procedemos nós da mesma maneira? Condenemo-nos a nós próprios, e emendemo-nos.

SEGUNDO PONTO

Maneira de ler a Sagrada Escritura

Ainda que todos os livros da Bíblia sejam úteis para ler, há alguns cuja leitura é mais proveitosa, e deve, por conseguinte, ser-nos mais familiar, tais são:

No Novo Testamento:

  • Os Evangelhos, e nos Evangelhos o sermão no monte e o sermão depois da ceia
  • Os Atos dos Apóstolos
  • As Epístolas de São Paulo aos fiéis de Corinto, de Éfeso, de Filipe, de Colosso, aos Hebreus
  • As Epístolas de São Tiago e de São Pedro.

No Antigo Testamento, os livros:

  • Da Sabedoria
  • Do Eclesiastes
  • De Rute
  • De Tobias
  • De Ester
  • De Judite
  • Dos Macabeus
  • Certas partes do Pentateuco
  • Dos Juízes
  • Dos Reis

— Para que esta leitura seja proveitosa, convém fazê-la, não por curiosidade, recreio ou desejo de aprender de novo, mas:

1.° Com a intenção puríssima de buscar lições e exemplos de virtude para nos tornarmos melhores;

2.° Com um espírito de obediência à Igreja, que é a única interprete infalível da Sagrada Escritura; e para isto é essencial servirmo-nos de uma tradução correta, acompanhada de breves comentários;

3.° Na presença de Deus, como se o próprio Deus estivesse ali para nos instruir, diz São Basílio (12); e com este intuito convém pedir-Lhe, por frequentes aspirações, que nos faça entender o que lemos (13);

4.° Detendo-nos no que nos comove enquanto estivermos comovidos, a fim de saborear as coisas de Deus e dar ocasião ao Espírito Santo para obrar em nós.

— Feita assim a leitura, devemos deduzir dela resoluções práticas próprias para nos tornarmos melhores.

Seguimos nós estas regras? Se as não temos seguido até ao presente, resolvamo-nos a segui-las.

Resoluções e ramalhete espiritual como acima

Referências:

(1) Illum alloquimur cum oramus, illum audimus cum divina legimus oracula

(2) Bonum mihi lex oris tui super millia auri et argenti (Sl 118, 72). Laetabor ego super eloquia tua, sicut qui invenit spolia multa (Sl 118, 162)

(3) Lex Domini immaculata, convertens animas (Sl 18, 8)

(4) Habentes solatio sanctos libros (1 Mc 12, 9)

(5) Quaecumque enim scripta sunt, ad nostram doctrinam scripta sunt, ut per patientiam et consolationem Scripturarum spen habeamus (Rm 15, 4)

(6) In corde meo abscondi eloquia tua, ut non peccem tibi (Sl 118, 11). Nisi quod lex tua meditatio mea est, tunc forte periissem in humilitate mea (Sl 118, 29)

(7) Testimonia tua… exultatio cordis mei sunt (Sl 118, 111)

(8) Lucerna pedibus meis verbum tuum, et lumen semitis meis (Sl 118, 105)

(9) Ignitum eloquium tuum vehementer (Sl 118, 148)

(10) Narraverunt mihi iniqui fabulationes, sed non ut lex tua (Sl 118, 85)

(11) Quomodo dolexi legem tuam, Domine? Tota die meditatio mea est (Sl 118, 97)

(12) Ita Evangelistas legiums, ut Christum ipsum intuere audireque videamur

(13)  Revela oculos meos, et considerabo mirabilia de lege tua (Sl 118, 18)

Voltar para o Índice do Tomo I das Meditações Diárias de Mons. Hamon

(HAMON, Monsenhor André Jean Marie. Meditações para todos os dias do ano: Para uso dos Sacerdotes, Religiosos e dos Fiéis. Livraria Chardron, de Lélo & Irmão – Porto, 1904, Tomo II, p. 60-64)