Meditação para a Segunda-feira na oitava do Santíssimo Sacramento. A Eucaristia, Glória e Tesouro do Cristão

Meditação para a Segunda-feira na oitava do Santíssimo Sacramento

SUMARIO

Consideraremos a Eucaristia:

1.° Como a glória do cristão;

2.° Como um tesouro.

— Tomaremos depois a resolução:

1.° De nos afeiçoarmos cada vez mais à sagrada Eucaristia, como ao mais precioso objeto que possamos amar cá na terra;

2.º De Lhe mostrarmos este amor, visitando-A muitas vezes com grande devoção, pensando com frequência nEla até no meio das nossas ocupações.

Conservaremos como ramalhete espiritual as palavras do Apóstolo:

“Cheguemo-nos confiadamente ao trono da graça, a fim de alcançar misericórdia e de achar graça para sermos socorridos em tempo oportuno” – Adeamus cum fiducia ad thronum gratiae, ut misericordiam consequamur et gratiam inveniamus in auxilio opportuno (Hb 4, 16)

Meditação para o Dia

Adoremos o imenso amor de Jesus Cristo na instituição da Eucaristia. Este divino Salvador tem-nos amado em todos os momentos da Sua existência: a primeira lágrima que derramou, quando nasceu, foi uma lágrima de amor, assim como o Seu último suspiro, quando morreu, foi um suspiro de amor. De Belém ao Calvário, cada passo foi guiado pelo amor. Porém, em nenhuma parte o Seu amor por nós aparece melhor do que na instituição da Eucaristia. Tributemos-Lhe todo o nosso reconhecimento, louvor e amor; e supliquemos-Lhe que nos ajude a meditar o augusto mistério de Sua caridade.

PRIMEIRO PONTO

A Eucaristia é a Glória do Cristão

Moisés, encantado da honra, que Deus se tinha dignado fazer ao Seu povo, comunicando-Se-lhe por meio de Suas frequentes revelações, exclamava:

“Nenhuma outra nação há, por maior que seja, que tenha deuses tão próximos a si, como nós temos o nosso Deus próximo a nós” – Nec est alia natio tam grandis, quae habeat deos appropinquantes sibi, sicut Deus noster (Dt 4, 7)

Que teria ele então dito, se tivesse visto o que vemos na Eucaristia! Um Deus fazer-nos a honra de vir dos esplendores dos santos visitar-nos e acompanhar-nos na nossa peregrinação! Um Deus renovar cada dia essa descida e essa visita, e isto em todas as igrejas do mundo! Um Deus constituir-Se solitário e cativo em todos os tabernáculos, ficar de dia e de noite conosco para nos dar a todos os momentos um fácil acesso na Sua corte e a honra de nos atender! Um Deus converter as Suas igrejas em outros tantos paraísos, pois que é ali o mesmo Deus, que está no céu, cercado dos Seus anjos, e ali podemos juntar-nos a toda a corte celestial, que forma em redor dEle uma guarda invisível! Que glória para nós! E todavia é esta a menor glória, que recebemos da Eucaristia; uma glória muito maior é alimentar-nos com o corpo e sangue de um Deus, é incorpora-lO conosco e transformarmo-nos nEle! Que prodigiosa honra para o cristão! Um cristão é mais santo e mais excelentemente consagrado que as igrejas e os altares, que os cálices e os vasos sagrados. É elevado a uma grandeza, que excede todas as grandezas humanas, tão alta como o é o céu com relação à terra.

Ó cristão, respeita a tua grandeza, não te rebaixes com ações ou sentimentos vulgares, ainda menos com ações e sentimentos repreensíveis! Ó templo de Deus, ó cibório vivo da Eucaristia, não te manches com o que for impuro ou menos perfeito!

SEGUNDO PONTO

A Eucaristia é o Tesouro do Cristão

É um tesouro infinito de graças, a que podemos sempre recorrer, sem jamais o diminuir; onde achamos sempre com que pagar todas as nossas dívidas para com a justiça divina, com que prover a todas as nossas necessidades, às dos nossos parentes e amigos, às de todo o mundo; com que finalmente nos enriquecer para o céu e para a eternidade. O tesouro, que supre todos os tesouros, segundo a palavra de um concílio! (1). Bastantemente rico possuindo-O, o cristão nada mais tem a desejar nem no céu nem na terra (2): nEle acha a consolação se está aflito, a verdadeira glória se a deseja, a ciência se é ignorante, a fortaleza, se é fraco (3).

Tesouro que o põe nas circunstâncias de manter com o céu um comercio inefável e todo divino: de um lado, dá ao Pai celestial o seu adorável Filho pela oblação do augusto sacrifício; do outro, Deus dá-lhe esse mesmo Filho pela comunhão, com todas as graças, que Lhe apraz pedir-Lhe, com tanto que elas estejam na ordem da Providência.

Tesouro que não só está fora de nós, como os outros bens da terra, mas está em nós até se anexar a nós e ser um conosco.

Tesouro que se acha em toda a parte onde se achar um sacerdote com um pouco de pão e um pouco de vinho, de sorte que não há para o cristão nem exílio nem privações: não há exílio, pois que no Seu tesouro encontra o paraíso, que é a verdadeira pátria dos filhos de Deus; não há privações, pois que a sagrada Eucaristia lhe supre tudo.

Tesouro perdurável, porque até ao fim dos tempos haverá sacerdotes, que farão descer do céu este divino tesouro; gozá-lO-emos e seremos felizes.

Tesouro que é a nossa vida: a vida do nosso corpo, em que Ele deposita os germens da imortalidade; a vida da nossa alma, que Ele ilumina e santifica; a vida do nosso coração, que Ele inflama e abrasa. Jesus é a nossa vida, diz o Apóstolo (4):

“Não sou eu já que vivo, mas Jesus Cristo é que vive em mim” – Vivo jam non ego, vivit vero in me Christus (Gl 2, 20)

Oh! Quanta razão tinha, pois, o profeta para dizer: Em vós está a fonte da vida (5); fonte adorável, em que podemos beber tanto quanto quisermos, e apagar a nossa sede.

Tesouro finalmente, onde devem concentrar-se todos os nossos afetos, porque onde está o nosso tesouro, deve estar o nosso coração; onde está o corpo, devem juntar-se as águias.

É este o apreço que fazemos da sagrada Eucaristia?

Resoluções e ramalhete espiritual como acima

Referências:

(1) Pro omnibus divitiis Christus abundat

(2) Quid mihi est in caelo? Et a te quid volui super terram? (Sl 72, 25)

(3) Omnia habemus in Christo

(4) Christus… vita vestra (Col 3, 4)

(5) Apud te est fons vitae (Sl 35, 10)

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(HAMON, Monsenhor André Jean Marie. Meditações para todos os dias do ano: Para uso dos Sacerdotes, Religiosos e dos Fiéis. Livraria Chardron, de Lélo & Irmão – Porto, 1904, Tomo III, p. 167-170)