Meditação para a Quarta-feira da Paixão. A Cruz, Força e Glória do Cristão

Meditação para a Quarta-feira da Paixão

SUMARIO

Consideraremos que devemos amar a cruz, porque achamos nela:

1.° A nossa fortaleza;

2.º A nossa glória.

— Tomaremos depois a resolução:

1.º De nos lembrarmos da cruz nas nossas fraquezas ou nos nossos desalentos, para nos animarmos;

2.° De não fazermos caso da vanglória do mundo, e de nos afeiçoarmos unicamente à sólida glória da cruz.

O nosso ramalhete espiritual será a palavra de São Paulo:

“Nunca Deus permitia que eu me glorie senão na cruz de Nosso Senhor Jesus Cristo” – Mihi absit gloriari, nisi in cruce Domini nostri Jesu Christi (Gl 6, 14)

Meditação para o Dia

Prostremo-nos pelo pensamento diante da cruz do Salvador; e manifestemos-Lhe a nossa fervorosa devoção, adorando-O, admirando-O, amando-O, e louvando-O (1).

PRIMEIRO PONTO

Devemos amar a Cruz, porque é a nossa Fortaleza

O homem é tao fraco de si e, por outro lado, há circunstâncias tão críticas, defeitos ou paixões tão difíceis de superar, virtudes de tão custosa prática, que é preciso que uma força sobrenatural venha em auxílio da fraqueza humana. Ora, é na cruz que reside esta força. Com a cruz na mão, vencem-se todas as dificuldades (2). Acha-se nela um exemplo, que confunde toda a covardia e sobre excita o ânimo; uma garantia das nossas imortais esperanças que, elevando o coração ao céu, o torna mais forte que toda a terra, uma graça que ampara um amor que provoca o nosso amor e inspira o sacrifício, finalmente o selo dos escolhidos, que nos convida a segui-los para conseguir o mesmo fim que eles. São Paulo unia-se à cruz (3); e apoiado nela, julga-se mais forte que todas as tentações e provações (4). Os mártires e os confessores nos seus tormentos pensavam na cruz, e achavam nela uma fortaleza que os tornava invencíveis.

«Eu padeço muito, dizia um deles; mas que é isto em comparação do que padeceu Jesus na cruz?»

Imitemos estes belos exemplos. Experimentamos revezes, até ficarmos na miséria? A nudez de Jesus na cruz nos tornará preciosa a penúria, e nos induzirá a dizer animosamente com um santo:

«Seguirei nu a Jesus Cristo» – Nudus nudum sequar (São Jerônimo)

Atormentam-nos o corpo a enfermidade e a dor? As chagas de Jesus Cristo na cruz nos farão prezar o padecimento até nos obrigarem a dizer com São Boaventura:

«Não quero viver sem dor, vendo-Te na dor» – Nolo sine vulnere vivere, quia te video vulneratum

Ou com Santa Tereza:

«Ou padecer ou morrer! Aborreço, dizia esta grande santa, a riqueza e as suas comodidades, a sensualidade e os regalos»

Somos o alvo da calúnia, da desconsideração, do desprezo? As ignomínias de Jesus na cruz nos desenganarão do amor da estima e dos louvores. Não os queremos já; porque como havemos de fazer caso da estima de um mundo que tem tão mal apreciado a sabedoria eterna? Como havemos de querer ser melhor tratados, mais louvados que um Deus?

Finalmente, temos que padecer desgostos, que corrigir o nosso mau gênio, que sujeitar a nossa vontade? A mansidão e a obediência de Jesus Crucificado nos tornarão mansos e dóceis, simples e obedientes. Portanto, em quaisquer circunstâncias em que nos acharmos, quaisquer que sejam as desordens que haja em torno de nós ou em nós, a cruz será a nossa fortaleza, com ela venceremos todas as dificuldades; com ela estaremos contentes no padecimento e na contradição, ricos na pobreza.

SEGUNDO PONTO

Devemos amar a Cruz, porque é a nossa Glória

A cruz e as tribulações são uma tão grande honra, que os nossos pecados mereceriam que não tivéssemos, e que fôssemos condenados às riquezas, às honras e aos prazeres do mundo, contra os quais Nosso Senhor proferiu estes terríveis anátemas :

“Ai de vós os que sois ricos! Ai de vós os que estais fartos! Ai de vós os que agora rides!” – Vae vobis divitibus: quia habetis consolationen vestram… (Lc 6, 24). Vae vobis qui saturatis estis: quia esurietis. Vae vobis ridetis nune: quia lugebitis (Lc 6, 25)

A alma, a quem Deus envia estes falsos bens, deveria humilhar-se, confundir-se, e temer ser condenada um dia. Ao contrário, a alma que Deus favorece com o dom da cruz, deve gloriar-se disso, pois que é tratada como Deus, é assemelhada a Jesus Cristo verdadeiro Deus, como Ele cumulada de dores, de opróbrios e de pobreza. O mundo, que possui tão falsas ideias a respeito da glória, não entende esta linguagem; todavia que haverá que seja mais claro?

Segundo o mundo, a glória consiste na nobreza de um sangue ilustre; mas a cruz dá ao cristão uma nobreza mais elevada que todas as nobrezas da terra: por ela o cristão é filho de Deus, com direito de dizer a Deus: «Pai nosso que estais no Céu»; é irmão de Jesus Cristo e co-herdeiro do reino celestial.

Segundo o mundo, a glória consiste na posse de copiosos bens terrenos; mas a cruz assegura-me o reino dos céus por herança, um trono donde hei de julgar o mundo (5) e bens infinitos em comparação dos quais o mundo inteiro nada é (6).

Segundo o mundo, a glória consiste na superioridade da inteligencia, que ilustrou tantos sábios da antiguidade. Mas em comparação da sabedoria oculta no mistério da cruz, toda a sabedoria do mundo é estultícia (7).

Segundo o mundo, a glória consiste no heroísmo; mas que maiores heróis que esses discípulos da cruz, os Apóstolos, os mártires e tantos outros santos?

Finalmente, segundo o mundo, a glória consiste em ser admitido na intimidade dos grandes e dos monarcas; mas a cruz introduz-me na intimidade de Deus, de Jesus Cristo seu Filho, de todos os anjos e santos. Não é incomparavelmente mais glorioso? Honra pois seja dada à cruz! Seja bem-vinda todas as vezes que se apresentar. Honra seja às almas cruciadas! São as prediletas de Deus, que trazem as divisas de Jesus Cristo.

É assim que apreciamos a cruz? Não formamos nós dela talvez juízos inteiramente opostos, até murmurarmos e nos queixarmos quando se aproxima?

Resoluções e ramalhete espiritual como acima

Referências:

(1) Venite, adoremus et procidamus… ante Dominum (Sl 94, 6)

(2) In hoc signo vinces

(3) Christo confixus sum cruci (Gl 2, 19)

(4) In his omnibus superamus propter eum qui dilexit nos (Rm 8, 37)

(5) Consedere fecit in caelestibus in Christe (Ef 2, 6)

(6) Quam sordet tellus, cum caelo aspicio!

(7) Nonne stultuam fecit Deus sapientiam hujos mundi? (1Cor 1, 20)

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(HAMON, Monsenhor André Jean Marie. Meditações para todos os dias do ano: Para uso dos Sacerdotes, Religiosos e dos Fiéis. Livraria Chardron, de Lélo & Irmão – Porto, 1904, Tomo II, p. 193-196)