Meditação para a Décima Nona Segunda-feira depois de Pentecostes. A Conformidade com a Vontade de Deus

Meditação para a Décima Nona Segunda-feira depois de Pentecostes

SUMARIO

Prosseguiremos as nossas meditações sobre a conformidade com a vontade de Deus; e veremos:

1.° Que esta perfeita conformidade é o segredo da felicidade, até mesmo neste mundo;

2.º Que fora disto não há senão desgraça.

— Tomaremos a resolução:

1.° De seguirmos unicamente a vontade de Deus, tanto na prosperidade como na adversidade, e de nunca nos deixarmos perturbar seja pelo que for;

2.º De pormos a nossa alegria em ser guiados em todas as coisas pela vontade divina, como o menino pela mão de sua mãe.

O nosso ramalhete espiritual será a palavra do Salmista:

“Tomastes-me pela minha mão, Senhor, e me conduzistes segundo a vossa vontade” – Tenuisti manum dexteram meam, (Domine), et in voluntate tua deduxiste me (Sl 72, 24)

Meditação para o Dia

Adoremos o interior de Nosso Senhor, sempre perfeitamente submisso e unido à vontade de Deus, seu eterno Pai. Nunca buscou a sua própria satisfação (1); em todas as coisas e ocasiões, só teve em vista a vontade de seu Pai (2). Quão admiráveis, dignas de todos os nossos louvores e principalmente da nossa imitação, são estas disposições!

PRIMEIRO PONTO

A Perfeita Conformidade com a Vontade de Deus é o segredo da Felicidade, até neste mundo

Quando recebemos todas as coisas como enviadas pela Providência, e vivemos numa completa sujeição a tudo o que quer esta adorável Providência, nunca somos contrariados. Como não temos outra vontade de Deus, e vemos esta amabilíssima vontade em tudo o que acontece, temos sempre tudo o que queremos e desejamos. A exemplo do santo rei Davi, deixamo-nos tomar gostosamente pela mão e conduzir segundo a vontade divina, e deste modo toda a nossa vida decorre suave, alegre e santamente (Sl 72, 24). Nenhum acontecimento nos inquieta nem perturba, porque sabemos que tudo vem de Deus, e que a sua vontade mil vezes amável preside a tudo. Este pensamento muda o sofrimento em alegria, a amargura em doçura, e o que desconsola os outros, consola-nos a nós, quando nos conformamos com a vontade de Deus. Daí provém uma tranquilidade, uma paz interior que nada pode alterar; uma serenidade incessante, um modo de obrar e de falar que mostra quanta razão tinha o Apóstolo em afirmar que aos que amam a Deus todas as coisas lhes contribuem para seu bem (3); e antes dele o sábio em declarar que não entristecerá ao justo coisa; alguma, seja o que for o que lhe acontecer (4). Poderá ser provado por Deus, como o santo Jó; mas como ele, dirá a Deus: Provais-me de um modo que me encanta (5); e nem a sua paz interior será alterada, nem o seu exterior deixará escapar uma palavra ou um gesto de ira ou impaciência, e poderá dizer-se dele como de Tobias:

“Não se entristeceu contra Deus nem contra os homens” – Non est contristatus contra Deum, quod plaga caecitatis evenerit ei (Tb 2, 13)

SEGUNDO PONTO

Não há Felicidade para quem não identifica a sua vontade com a de Deus

“Todo o homem, diz Santo Agostinho, deseja a felicidade; mas nem todos os homens a buscam onde se achá” – Omnis homo gaudere desiderat, sed non omnes ibi quaerunt gaudium, ubi oportet inquiri

Não a buscam na vontade de Deus; e então condenam-se a uma vida desgraçada. Só encontram desenganos nas coisas, pessoas e lugares, a que se afeiçoam, porque tudo muda na terra. Ainda quando tudo não mudasse, mudamos nós mesmos; e o que nos agradava ontem, desagrada-nos hoje. Israel gostava do maná ao principio; pouco depois enfastiou-se dele. Estava contente vendo-se livre da tirania de Faraó; pouco depois desgostou-se da liberdade do deserto, e quis voltar para o Egito. Ora com estas mudanças de gosto, como é possível não ser desgraçado? Quem busca a sua satisfação em si próprio, diz Santo Agostinho, estará triste (6); e será feliz somente aquele que põe a sua alegria em Deus, porque Deus é imutável (7). Compenetrado desta verdade, um santo religioso, testemunha desses acessos de alegria ou de tristeza e dessas mudanças de vontade, a que os homens se entregam, segundo as mudanças das coisas, a que se afeiçoam, exclamava: Enquanto a mim, nada poderá tirar-me a alegria, porque nada poderá arrancar-me Jesus Cristo, que é toda a minha felicidade (8); e Santo Agostinho dirigia a Deus estas belas palavras:

“Fizestes-nos para vós, Senhor, e o nosso coração está irrequieto até que descanse em vós” – Fecisti nos ad te, Domine, et irrequietum est cor nostrum, donec requiescat in te

Resoluções e ramalhete espiritual como acima

Referências:

(1) Christus non sibi placuit (Rm 15, 3)

(2) Quae placita sunt ei, facio semper (Jo 8, 29)

(3) Diligentibus Deum omnia cooperantur in bonum (Rm 8, 28)

(4) Non contristabir justum quidquid ei acciderit (Pr 12, 21)

(5) Mirabiliter me crucis (Jó 10, 16)

(6) Quid vult gaudere de seipso, tristis erit

(7) Qui de Deo vult gaudere, gaudebit semper, quia Deus sempiternus est

(8) Christum a me tollere meno potest

 

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(HAMON, Monsenhor André Jean Marie. Meditações para todos os dias do ano: Para uso dos Sacerdotes, Religiosos e dos Fiéis. Livraria Chardron, de Lélo & Irmão – Porto, 1904, Tomo V, p. 68-71)