Meditação para a Quinta-feira. A Ascensão

Meditação para a Quinta-feira

SUMARIO

Na solenidade de hoje, tomaremos para os dois pontos da nossa meditação dois artigos do Símbolo:

1.º Jesus Cristo subiu ao céu;

2.° Está sentado na mão direita de Deus Pai Todo-Poderoso;

E veremos, que em um e outro mistério Jesus Cristo é, como sempre, todo amor por nós.

— Tomaremos depois a resolução:

1.° De elevarmos os nossos pensamentos e afetos ao céu, onde está Jesus Cristo, nosso advogado, nosso pontífice, nosso chefe; de não termos apego à terra e de só vivermos para o céu;

2.° De pormos toda a confiança no nosso medianeiro, que está nos céus.

O nosso ramalhete espiritual será a palavra da Igreja:

“Os corações para o alto!” – Sursum corda!

E estas outras palavras do Apóstolo:

“Desejo ser desatado da carne e estar com Jesus Cristo” – Disiderium habens dissolvi, et esse cum Christo (Fl 1, 23)

Meditação para o Dia

Transportemo-nos pelo pensamento ao monte Olivete, para ali assistirmos mentalmente à Ascensão do Salvador. Adoremo-lO, não subindo ao céu, como Elias, em um carro de fogo, mas elevando-Se ao céu por Sua só virtude, seguido de todos os justos da antiga lei, que Ele tirou da sua prisão. Admiremos como Ele é recebido por toda a côrte celestial no meio de mil cânticos de adoração, de admiração, de louvor e de amor. Unamos os nossos respeitos aos de todos estes príncipes do céu.

PRIMEIRO PONTO

Jesus Cristo subiu ao Céu

Jesus Cristo subiu ao céu pelo mesmo princípio que dEle o fizera descer: havia descido dele por amor de nós, subiu a ele por amor. Quis ir:

1.º Abrir-nos as Suas portas;

2.° Preparar-nos nele um lugar;

3.º Derramar de lá sobre nós as Suas bênçãos.

Até esse dia, a porta do céu estava fechada a todos os filhos de Adão; e nem a inocência de Abel, nem a fé de Abraão, nem o zelo de Moisés, nem a santidade dos patriarcas e dos profetas tinham podido patentear-lhes a sua entrada. Todos, depois da sua morte, estavam no limbo, sem outra consolação senão a esperança; mas hoje, ó dia de felicidade! Jesus fá-los sair da sua prisão e leva-os consigo para o céu; abre-lhes a Sua porta, nele entra primeiro pelo mérito do Seu sangue derramado; e assim se cumprem as figuras da antiga lei. Já não existe esse misterioso santuário, que permanecia fechado todo o ano, esse Santo dos Santos, onde só o sumo pontífice podia entrar uma única vez no ano, levando nas suas mãos o sangue das vítimas. Jesus Cristo, o único verdadeiro pontífice, entrou hoje, não nesse santuário feito por mão do homem, que não era mais que a figura do verdadeiro, mas no mesmo céu, verdadeiro santuário onde Deus habita; entrou nele, não com sangue alheio, mas com o Seu próprio sangue; rasgou e fez desaparecer o véu, que ocultava ao povo o Santo dos Santos e representava a porta do céu fechada até então aos homens pelo pecado. Ó Jesus mil vezes amável! É  assim, que nos abris hoje o céu; só depende de nós entrar nele. Que reconhecimento Vos não devemos!

Todavia não Vos limitais a isto. Como um bom Pai, que se ocupa em dar uma boa colocação a seu filho, Vós mesmo nos dizeis: Vou preparar-vos o lugar (1); a minha vontade é que onde eu estou, estejais também, e que vos senteis no meu trono (2). Ó adorável Salvador! Que grande honra nos fazeis! Que! Eu ei-de estar sentado no Vosso próprio trono! A minha natureza tão pobre e tão desprezível de si será elevada aos céus acima dos mesmos anjos, até ao trono de um Deus! Oh! Que belo lugar nos fostes preparar, e quão preciosa me é a Vossa ascensão! Como excita a minha admiração, o meu reconhecimento e o meu amor!

Não é ainda tudo: do alto dos céus, Vós abençoais-nos, diz o Evangelho (3). Ó deliciosa benção, que ajuda a nossa fraqueza a elevar-se aonde nos chamais! Ó Senhor, abençoai-nos sempre, e atrai a Vós os nossos corações, para que nós vivamos para o céu (4).

SEGUNDO PONTO

Jesus, no dia da Sua ascensão, senta-se à mão direita do Pai

Que quer isto dizer, Senhor? Quer dizer, que entrais hoje no repouso divino e eterno, que vos era devido depois de tantos trabalhos; quer dizer, que tomais posse do Vosso trono como Rei dos reis, do Vosso tribunal como Juiz dos vivos e dos mortos: quer dizer, que no céu sois igual a Deus, sendo Vós mesmo Deus. E, coisa admirável nessa alta posição, não esqueceis os homens, cuja natureza revestistes. Receando que a nossa fragilidade nos faça perder o lugar, que o Vosso amor nos preparou, constituis-Vos para com o Vosso Pai nosso advogado, nosso pontífice, nosso chefe. Como nosso advogado, defendeis incessantemente a nossa causa com a voz de todas as Vossas chagas, com todas as palpitações do Vosso coração (5); apresentais-Vos continuamente por nós diante da face do Senhor (6). Quando a fragilidade nos arrastou ao pecado, interviestes para tornar a nossa defesa: da nossa causa fizestes a Vossa, e provais com o Vosso sangue derramado, que fala melhor que o de Abel, que nos deve ser feita misericórdia (7). Como nosso pontífice, ofereceis-Vos incessantemente por nós em sacrifício (Hb 4, 14). Finalmente como nosso chefe, como nossa cabeça, atrais-nos a Vós: porque convém, que os membros sigam a cabeça. Sois o nosso percursor (8) e sê-lo-íeis Vós se não houvéssemos de seguir-Vos? Vós sois essa águia misteriosa, que voa por cima dos seus filhinhos para os excitar com o seu exemplo a tomar o seu voo para o sol (9).

Senhor, atrai-me a Vós pelas Vossas graças, pelos Vossos encantos, pelas Vossas belezas, Vossas perfeições, que enlevam os anjos. Oh! Quanto me tarda ver-Vos no esplendor da Vossa glória e entrar nesse formoso céu, onde não se pode já ofender-Vos, onde Sois amado para todo o sempre!

Resoluções e ramalhete espiritual como acima

Referências:

(1) Vado parare vobis locum (Jo 14, 2)

(2) Volo ut ubi sum ego, et illi sint mecum (Jo 17, 24). Dabo ei sedere mecum in throno meo (Ap 3, 21)

(3) Et elevatis manibus suis benedixit eis (Lc 24, 50)

(4) Trahe me post te (Ct 1, 3). Trahe torpentem, ut reddas currentem

(5) Semper vivens ad interpellandum pro nobis (Hb 7, 25)

(6) Ut appareat nunc vultui Dei pro nobis (Hb 9, 24)

(7) Si quis peccaverit, et ipse est propitiatio pro peccatis (1Jo 1, 1)

(8) Praecursor pro nobis introivit Jesus (Hb 6, 20)

(9) Sicut aquila provocans ad volandum pullos uos, et super eos volitans (Dt 32, 11)

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(HAMON, Monsenhor André Jean Marie. Meditações para todos os dias do ano: Para uso dos Sacerdotes, Religiosos e dos Fiéis. Livraria Chardron, de Lélo & Irmão – Porto, 1904, Tomo III, p. 80-83)