Jesus vive de novo na Missa

Capítulo II

Na Santa Missa, temos ante os olhos o Divino Menino, que os pastores encontraram num presépio desabrigado, que os Magos adoraram, que o velho Simeão teve nos seus braços trémulos de gozo. É Ele que por intermédio do padre, nos prega o Evangelho; e a graça que recebemos não é menor que se da própria boca de Jesus ouvíssemos a Boa Nova.

Mudando o vinho no Seu próprio Sangue, opera maior prodígio que o das bodas de Caná. Transformando o pão no Seu próprio Corpo, renova o mistério inefável da última Ceia.

É imolado mais uma vez sobre o altar, não pela mão dos algozes, mas realmente entre as mãos do sacerdote, que O oferece como Vítima expiatória ao Deus onipotente.

Por isso diz o grande teólogo Sanchez que «aquele que souber aproveitar a Santa Missa, pode receber por ela o perdão dos seus pecados e a efusão das graças celestes, tão bem como se houvesse vivido no tempo do Salvador e assistido a todos os seus Mistérios».

Não menos claro é o grande escritor eclesiástico Dionísio Cartusiano :

 «Toda a vida de Cristo não foi mais que uma celebração da Santa Missa, na qual Ele próprio era o altar, o templo, o padre e a vítima»

Jesus revestiu os hábitos sacerdotais no seio de Maria, tomando a nossa carne, vestindo o manto da nossa mortalidade.

Deste tabernáculo sacratíssimo saiu na ditosa noite de Natal e começou o Introito, ao entrar no mundo. Rezou o Kirie eleison, quando no berço agitou as mãozinhas, como que a pedir socorro.

O Gloria in excelsis foi cantado pelos Anjos, que pairavam nas nuvens, enquanto o Salvador recém-nascido pousava nas palhas de uma pobre manjedoura. É em memória desta circunstância que o celebrante, nas Missa Solenes, está sentado enquanto o coro canta o Gloria. A Coleta são as orações que Jesus rezava nas Suas vigílias, para invocar em nosso favor a misericórdia divina. A Epístola são os Seus comentários de Moisés e dos profetas. O Evangelho pregou-o percorrendo a Judéia para espalhar a Boa Nova. Rezou o Ofertório quando Se ofereceu a Deus Pai pela salvação dos homens, aceitando todos os Seus sofrimentos. Cantou o Prefacio louvando a Deus sem cessar em nosso lugar e agradecendo os Seus benefícios. O povo de Jerusalém fez retumbar o Sanctus pelas ruas da velha cidade judaica, quando aclamou o Salvador no dia de Ramos:

 «Hosana ao Filho de Davi! Bendito seja o que vem em nome do Senhor»

A Consagração foi feita por Jesus na Última Ceia, transubstanciando o pão e o vinho no Seu Corpo e no Seu Sangue. A Elevação realizou-se quando Jesus, levantado no patíbulo, foi oferecido em espetáculo a todo o mundo. O Pater são as sete palavras de Jesus sobre a Cruz e a fração da Hóstia efetuou-Se no momento em que a Sua alma Se separou do Seu corpo martirizado. Enfim, o Agnus Dei são as palavras do centurião, batendo no peito e dizendo: — «Na verdade este era o Filho de Deus»; e a Comunhão é a embalsamação e sepultura de Cristo. Antes de deixar o mundo, Jesus quis dar a benção aos Seus discípulos, estendendo as mãos sobre eles no Monte das Oliveiras.

Como é bela e grandiosa e solene esta Missa celebrada na terra pela vida inteira do Salvador. Em meia hora passam-nos ante os olhos todos os episódios da Sua existência durante trinta e três anos. O Salvador reúne na Missa todos os mistérios da Sua peregrinação sobre a terra, pondo-os ante os nossos olhos como numa recapitulação. Desta forma, somos tão favorecidos ou talvez mais que todos quantos viveram com Ele no mundo. Eles ouviram uma Missa única, que durou toda a vida de Jesus, ao passo que nós podemos ouvir Missa todos os dias e até muitas no mesmo dia, colhendo todos os méritos da vida do Salvador.

Já dissemos em outra parte, mas nunca se pode repetir demais, não vemos com os olhos carnais o Filho de Deus sobre o altar. Todavia vemo-lO com os olhos da Fé. Desde toda a Eternidade preparou-nos Jesus um meio de assistirmos à Sua vida, à Sua Paixão e à Sua Morte e facultou-nos o oferecer ao Eterno Pai os Seus méritos infinitos em remissão dos nossos pecados. Desde toda a Eternidade preparou-nos um meio de darmos à Santíssima Trindade, glória infinita e a toda a corte celeste uma alegria sem igual. Porque durante a Missa, Deus e os Seus Anjos vêem Jesus como O viram no presépio, na circuncisão, na apresentação no templo, na fuga para o Egito, no jejum no deserto, nas pregações às turbas, nas viagens pela Judeia, vêem-nO perseguido, vendido, arrastado nos tribunais, flagelado, coroado de espinhos, crucificado, morto, sepultado, ressuscitado, enfim subindo ao Céu no fim da Sua carreira de salvação e redenção.

Por isso o Céu sente na celebração da Missa, uma glória e um prazer que nada na terra lhe poderia comunicar. Esta alegria não provém só da renovação da vida de Jesus mas também do amor que sobre o altar Jesus tem para com Seu Pai; porque na Missa Jesus louva, honra e ama a Deus com todas as forças da Sua natureza humana e com todo o poder da Sua natureza divina. Este louvor, este amor são tão altos, que por si só excedem infinitamente todas as homenagens dos Anjos e dos Santos que tem havido sobre a terra.

Durante a Sua vida terrestre, Jesus juntou um tesouro infinito de graças e méritos não para Si, mas para nós. Trabalhou sem cessar, como Ele mesmo diz:

“Meu Pai não cessa de operar e eu opero também incessantemente”

Ora esta vida laboriosa, infinitamente meritória, renova-a Jesus em cada Sacrifício, oferecendo-Se de novo ao Pai para obter o nosso perdão, pagando as nossas dívidas e dando-nos um meio do evitar os enormes castigos que constantemente merecemos.

Sejamos, pois, reconhecidos a um Amigo tão fiel que, à custa de tantas fadigas, nos ganhou tão valioso tesouro.

Estas considerações devem fazer-nos pensar um pouco no valor e eficácia da Missa e nos imensos benefícios que podemos conseguir mandando-a celebrar e ouvindo-a.

Oferece-nos Jesus com infinita liberalidade um tesouro acima de todo o preço; recusá-lo-emos? Ah! Se na ordem temporal pudéssemos enriquecer tão facilmente como na ordem espiritual, não perderíamos um momento, não pouparíamos um esforço! Só para os bens eternos, que os ladrões não roubam, nem a traça rói, nem o fogo consome, é que somos tão negligentes e preguiçosos!

O que conta Tomás de Catimbre

Tomás de Catimbre, bispo holandês, da Ordem de São Domingos, conta que em 1267, pela Páscoa, um padre deixou cair uma Hóstia, quando na Igreja de Saint-Amand, em Douai, distribuía a comunhão durante a Missa. Aterrado com este acidente, para si inexplicável, ajoelha para o reparar. Mas, no momento de tomar a Hóstia, viu que ela se elevava do chão e pairava nos ares. Não tendo mais que um corporal sobre o qual estava o cibório, tomou do purificatório e estendeu-o por baixo da Hóstia, que veio pousar sobre ele. Depois de a receber, levou-a para o altar e, humildemente prosternado, pediu a Nosso Senhor o perdão da sua irreverência. Ora, neste mesmo instante, como tinha os olhos fixos nas sagradas Espécies, que acabava de recolher, notou com surpresa enorme, que se transformavam em uma criança cheia de graça. Comovido até ao fundo do coração, na presença de um milagre tão grande, não pôde conter-se que não gritasse. Correram os cantores em auxílio do sacerdote e observaram também a presença da criança celeste. A alegria manifestasse então neles, e por sua vez o povo precipita-se a contemplar a maravilha.

Mas, novo prodígio: onde os coristas viam Jesus Cristo sob a forma de uma criança, os outros fiéis viam-nO sob a forma de um homem e no esplendor da Majestade divina; e ora baixavam os olhos com respeito, ora os levantavam para de novo olharem. O milagre durou uma hora. Quem dirá que doçuras neles espalhou tamanho favor? A multidão tornara-se muito considerável e, depois que o Padre fechou o Santo Sacramento no Tabernáculo, espalhou por toda a parte a notícia do fato de que tinha sido testemunha. O bispo, que o narra, foi um dos primeiros a sabê-lo. Indo a Douai procurar o deão de Saint-Amand, preguntou-lhe se o que contava da aparição de Nosso Senhor era exato. O padre respondeu:

«É verdade que Jesus Cristo foi visto por grande número de pessoas sob forma humana. A estas palavras, continua Tomás, nasceu em mim desejo vivo de gozar a mesma graça, e pedi ao deão que me mostrasse a Hóstia. Ele acompanhou-me à igreja, aonde uma enorme multidão nos seguiu, na esperança de que o prodígio se repetisse.

O deão abriu o tabernáculo, não sem receio, e tirou o Santo Sacramento com que deu a benção. Imediatamente o povo, soltando gritos, exclama entre soluços: Oh! Jesus! Preguntei que significavam aqueles gritos, aquelas lágrimas, e responderam-me: nós vemos com os nossos olhos o nosso divino Salvador! No entanto, eu não via mais que a forma ordinária da Hóstia Sagrada, o que me afligia deveras porque temi que a recusa do meu Redentor em Se mostrar a mim, fosse o castigo dos meus pecados. Sondei escrupulosamente a consciência e, não tendo encontrado nada de especial, conjurei com lágrimas Jesus Cristo, que me deixasse ver o Seu rosto com os meus olhos corporais. Após suplicas insistentes, os meus votos foram satisfeitos, e então contemplei, não a figura de uma criança, conforme tinha acontecido a muitos fiéis, mas a forma de um adulto.

Vi o Salvador, face a face; os olhos eram límpidos e agradáveis; a cabeleira flutuava-Lhe sobre os ombros; a barba, bastante comprida, enquadrava o mento; a fronte larga e lisa, as faces pálidas, a cabeça um tanto inclinada. Vi Nosso Senhor, disse eu, e estava tão comovido com a visão, que o coração quase me estalava desse excesso de alegria e amor. Depois de muito tempo, a face de Jesus transformou-se; tornou-se tão triste como o devia ter sido na Sua paixão dolorosa. Apareceu-me coroada de espinhos, inundada de sangue. Eu senti uma compaixão tão grande que vertia lágrimas amargas pelo estado do meu Salvador; e acreditei que sentia na minha cabeça a ponta dos espinhos que rasgavam a de Jesus.

A assistência soltava grandes gritos, e manifestava de mil modos a sua aflição. Como da primeira aparição, cada um via da sua maneira; enquanto uns contemplavam Jesus na forma de uma criança recém-nascida, outros avistavam-nO como um adolescente, outros com o aspecto de homem adulto, outros no meio dos horrores da Paixão. Renuncio a pintar as emoções, que experimentaram estes fiéis cristãos, e deixo às almas piedosas o cuidado de as imaginar»

Se bem que eu não tivesse como eles a alegria de Vos ver, ó Jesus, sob a forma corporal, não creio menos firmemente por isso a Vossa presença real, e ofereço-Vos a Vosso Pai com tanto fervor como se Vos tivesse contemplado com os meus olhos. Sei que estas manifestações, que de Vós mesmos nos fazeis, são fáceis ao Vosso poder de Todo-Poderoso; sei também que não são necessárias e que, se for viva a minha fé, ver-Vos-ei na Vossa glória ou na Vossa Paixão, consoante me associar às Vossas alegrias ou às Vossas dores. Não Vos revelais aos meus olhos mortais, mas preparastes-me de toda a eternidade um meio de assistir em espírito ao espetáculo da Vossa vida e dos Vossos sofrimentos, e de os oferecer ao Pai e ao Espírito Santo, para maior glória de Vossa bem-aventurada Mãe de todos os coros angélicos e do exército dos eleitos. Sim, durante a Santa Missa, Deus e os Seus Anjos tornam a ver Jesus Cristo sob a foma com que repousava no presépio; reveem a Sua circuncisão, a Sua apresentação no Templo, a Sua fuga para o Egito, o Seu jejum no deserto, as Suas pregações, as Suas viagens; voltam a vê-lO perseguido, vendido, arrastado aos tribunais, flagelado, coroado de espinhos, crucificado, morto, sepultado; ressuscitado, enfim revem-nO a subir ao Céu e a por termo, assim, aos Seus trabalhos.

Esta representação viva, esta renovação dos anos terrestres do Salvador causa ao Pai, ao Espírito Santo, aos Anjos, alegria tão grande como a que lhes causaram outrora os mistérios cumpridos na Judéia. Em outros termos, o Céu inteiro sente em cada Missa delícias tais que nada neste mundo se lhes pode comparar. Esta alegria não provêm somente da reprodução da vida e da Paixão de Jesus, mas também do amor que a Sua pessoa testemunha à Divindade; porque no Santo Sacrifício, Nosso Senhor honra, louva, ama, serve e glorifica a Trindade, com todas as forças da Sua natureza humana, como com todo o poder da Sua natureza divina. E fá-lo de forma tão incompreensível, tão alta, que este louvor e essa caridade só por si ultrapassam infinitamente as homenagens dos Anjos e as obras de todos os Santos. À luz destas considerações, julgai a excelência do culto que os vossos padres prestam a Deus; fazei uma ideia da eficácia de uma Missa, direi mesmo da simples audição de uma Missa.

Voltar para o Índice de As Maravilhas da Santa Missa de Pe. Paul Henry O’Sullivan E.D.M

(E.D.M, Padre Paul Henry O’Sullivan. As Maravilhas da Santa Missa. Lisboa, 1925, p. 10-16)