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Jesus reza por nós na Missa

Jesus reza por nós na Missa

Capítulo III

Diz São João, o discípulo amado, que:

«Temos por advogado para com o Pai a Jesus Cristo, o Justo por excelência. E Ele mesmo é a Vítima de propiciação pelos nossos pecados»

Preciosa garantia da nossa salvação é esta de termos o filho de Deus, o próprio assessor do Pai, a intervir a nosso favor e a patrocinar a nossa causa.

Mas onde e quando é que Nosso Senhor desempenha esta função? Ensina a Igreja, que não é apenas no Céu, mas também na terra.

«Cada vez que se oferece o Santo Sacrifício, diz o sábio Suarez, Nosso Senhor reza por aquele que o oferece e por aqueles por intenção de quem é oferecido»

Primeiro que tudo reza pelo Padre, pelos assistentes e por todos aqueles que o Padre e os assistentes têm em vista.

«Cristo sacrificado chama por Seu Pai e mostra-Lhe as Suas sagradas chagas a fim de comover o Seu coração e nos livrar das penas eternas»

Assim descreve São Lourenço Justiniano aquela oração; e não há forma melhor de mostrar o zelo que o Salvador tem pelos nossos interesses. Já indiretamente São Lucas no-lo tinha revelado quando disse:

«E aconteceu naqueles dias, que Jesus saiu para o monte a orar e esteve toda a noite em oração a Deus»

O mesmo Santo mostra que não foi isso um fato isolado, quando escreve em outro lugar que «de dia ensinava no templo; e de noite, saindo, ficava no monte que se chama das Oliveiras». Mais adiante diz:

«E tendo saído, ia, como costumava, para o Monte das Oliveiras»

Por estes testemunhos fica evidentemente demonstrado que o Salvador tinha por hábito passar as noites em oração nessa montanha.

Jesus reza por nós

Santo Ambrósio ensina-nos por quem é que o Salvador rezava:

«Não por Sua, mas por nossa intenção, rezava o Senhor»

Foi, pois, por vós, cristãos, por mim, por todos os homens, que Cristo se submeteu a tanta vigília. Apesar da morte cruel a que tinha resolvido submeter-Se, previa a perda de muitas almas, espetáculo que Lhe arrancava lágrimas dos olhos e suspiros do Coração, condoído. E essas fervorosas orações, repete-as o Salvador em cada Missa. Faz delas como que um resumo e ao mesmo tempo mostra a Seu Pai as lágrimas ardentes que chorou; enumera os suspiros que saíram do Seu Coração; recorda o número de noites que passou de vigília. Tudo isso oferece, por certo, pela salvação do mundo inteiro, mas particularmente por quem assiste à Missa. Qual não será a eficácia de uma tal intercessão saída dos lábios do Santo dos Santos! Quanto devem esperar dela as almas, a favor das quais sobe até Deus.

E o que aumenta ainda o poder da oração de Jesus é, como já referimos, que a Sua virtude está unida à virtude do Sacrifício. Vamos explicá-lo.

Lê-se nas Revelações de Santa Gertrudes, que, à elevação da Hóstia, a Santa viu Nosso Senhor elevar por Suas próprias mãos e sob a forma de um cálice de ouro o Seu Sagrado Coração, e oferecê-lo a Deus. Viu-O imolar-Se Ele próprio pela Igreja, por forma que sobrepuja todo o entendimento. E, querendo confirmar esta revelação, Nosso Senhor disse, como já referimos, a Santa Mathilde, irmã de Santa Gertrudes:

«Sou só Eu que sei e que perfeitamente compreendo como é que Me sacrifico sobre o altar pela salvação dos fiéis. Nem os Querubins, nem os Serafins, nem nenhuma potestade celeste o podem compreender completamente»

A Humildade de Jesus

Além disso, note-se que sobre o altar Nosso Senhor não Se oferece com a majestade que tem no Céu, mas com incomparável humildade. Está presente, não apenas na Hóstia inteira, mas nas suas mínimas parcelas, e sob esses véus parece tão pouco digno de atenção e respeito, que é caso de Lhe aplicar as palavras de Davi:

«Não sou um homem, mas um verme da terra, um objeto de troça para os homens»

E infelizmente, para eterna vergonha dos cristãos, com frequência se cumpre à letra a profecia: Jesus Cristo é desprezado entre nós; recusamos as honras devidas à Sua Divindade e não é senão desatentamente reconhecido e adorado no Sacramento do Seu amor.

Sob essa forma, assim despido de grandeza, clama no entanto ao Céu com voz tão potente, que penetra as nuvens, rasga o firmamento e triunfa da justiça divina.

Tendo Jonas anunciado ao rei de Nínive que dentro de quarenta dias a sua capital seria destruída, despiu o monarca o seu trajo real, cobriu-se com um saco e ordenou ao povo que pedisse misericórdia ao Senhor. Pela sua humildade e penitência, obteve a revogação da temível sentença, e a cidade criminosa foi poupada. Se por aquele seu procedimento mereceu, este rei pagão, o indulto de uma cidade inteira, não há de então Jesus Cristo, que à Missa se humilha muito mais ainda, obter também mais? Despojado da Sua majestade, revestido como que de um saco grosseiro, sob as aparências sacramentais, permanece em frente do trono do Todo-Poderoso e pede clemência para todo o Seu povo, dizendo:

«Pai, vê como estou rebaixado! Eu próprio me reduzi, mais ainda que à condição de um homem, à de um verme da terra. Os pecadores ergueram-se contra Ti; Eu abato-Me na Tua presença. Irritaram-Te com o seu orgulho; Eu quero desarmar-Te à força de humildade. Eles incorreram na Tua justa vingança; deixa-Te aplacar pelas Minhas orações. Pai, pelo amor que Me tens, perdoa-lhes; não os castigues na proporção da culpa; não os abandones ao inimigo, não permitas que caminhem para a perdição. Não posso conformar-me com a ideia de os ver cair no abismo, visto que eles são Meus, tendo sido resgatados com o preço dos Meus sofrimentos. Peço-Te sobretudo, Pai, pelos pecadores aqui presentes, por eles ofereço neste momento o Meu sangue e a Minha vida. Ah! Por virtude deste sangue, desta morte, salva-os da condenação eterna»

O fervor com que Jesus reza na Missa

Não há a menor dúvida de que, durante a Sua suspensão na Cruz, o Salvador recomendou a Seu Pai, os fiéis que estavam ao pé dessa árvore sagrada e de que muito especialmente a eles aplicou os frutos da Sua Paixão. Pois não é menos certo, que à Santa Missa reza pelos assistentes, sobretudo pelos que imploram a Sua mediação. Reza por eles tão fervorosamente como do alto do patíbulo da Cruz pedia pelos inimigos que nele O tinham pregado. Que é então que não produzirá essa oração? Que de graças não colheremos dela? Que segura esperança de eterna felicidade não fará ela nascer nos nossos corações?

Se a bem-aventurada Virgem Maria descesse do Céu e vos dissesse:

— Filho querido, nada temas; sou Eu quem vai tomar conta dos teus interesses, intercederei por ti com toda a instância junto do meu Filho e só cessarei de o fazer quando me tiver dado a certeza da tua eterna felicidade.

Se a Bem-aventurada Virgem Maria, digo, assim vos falasse, vós, cheio de alegria, exclamaríeis do fundo da alma:

— Já  não me resta agora dúvida alguma. Está garantida a minha salvação.

Não serei eu que deixe de louvar essa confiança na Santa Virgem Maria; mas será possível que não tenhais confiança semelhante, ou antes muito maior ainda, na intercessão toda poderosa do Glorioso Filho de Deus, que não só vos promete a Sua assistência, mas realmente reza por nós em cada Missa que ouvis, e quer, contrabalançando a severidade da justiça, salvar-nos do castigo que mereceram os nossos pecados? À voz da Sua prece, junta a das Suas lágrimas, das Suas chagas, do Seu sangue e dos Seus suspiros: outras tantas fontes inesgotáveis de onde promanam rios de graças e de bênçãos.

Tirai, pois, proveito de uma doutrina tão animadora; quero dizer: sede fiéis em assistir ao Santo Sacrifício. Queixais-vos muitas vezes de falta de fervor. Nosso Senhor, porém, rezando em vosso lugar, suprirá as vossas omissões. É Ele quem vos convida afetuosamente:

«Vinde a Mim todos os que trabalhais, e estais carregados, e eu vos aliviarei»

Quer dizer: Vinde todos a Mim, vós que não podeis rezar devotamente, e Eu rezarei em vosso lugar. Estas palavras, vindas do altar, devem fazer sobre vós ainda mais pressão do que se Lhas ouvísseis nos dias da Sua passagem por este mundo. Porque é então, alma indigente, que não pondes em execução esse desejo do Salvador? Porque não acorreis à Santa Missa? Quando vos sentis necessitada, implorais as pessoas que podem ajudar-vos, a elas vos queixais da vossa miséria, pedis as suas orações, tendes confiança na sua intercessão. Como então não haveríeis de confiar na mediação Todo-Poderosa de Jesus Cristo? Tão falha de tudo estais, que mal podeis expôr o Vosso estado: mas o que nele há de mais terrível, é o perigo sempre ameaçador da eterna perdição.

«Senhor, perguntais então ao Divino Mestre, — quem poderá salvar-me?»

E Jesus responde-vos:

«O que aos homens é impossível, possível é a Deus»

E agora que compreendeis o poder, a eficácia da oração de Jesus no altar, juntai-Lhe as vossas próprias súplicas, que assim adquirirão uma imensa força.

«As orações proferidas em união com o Santo Sacrifício, diz um piedoso autor, deixam a perder de vista todas as outras, mesmo as orações que duram longas horas, mesmo as orações mais elevadas, por causa dos merecimentos da paixão de Jesus Cristo, que, na celebração deste augusto Sacrifício, se comunicam por admirável efusão»

Fornerio, o autor que assim se expressa, confirma a sua opinião com a seguinte comparação:

«Assim como a cabeça excede em dignidade todas as outras partes do corpo, da mesma forma a oração do Salvador, que é a nossa cabeça, tem um valor que a coloca infinitamente acima das orações de todos os Cristãos, que não são senão os membros do Seu corpo místico»

Tal como a moeda de cobre, que, ao cair dentro de ouro em fusão, sobe de preço, assim também a miserável oração de um homem, unida à oração de Jesus Cristo, toma o caráter da mais nobre dádiva. Digamos ainda melhor: uma oração frouxa proferida à Missa, vale mais que uma oração fervorosa rezada em casa.

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(E.D.M, Padre Paul Henry O’Sullivan. As Maravilhas da Santa Missa. Lisboa, 1925, p. 17-22)

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