Capítulo XIII

Apenas chegou Jesus ao Calvário, consumido de dores e desfalecido, dão-lhe a beber vinho misturado com fel, o que se costumava dar aos condenados à cruz para mitigar-lhes um pouco o sentimento de dor. Jesus, que queria morrer sem alívio, apenas o provou, mas não bebeu:

“E deram-lhe a beber vinho misturado com fel e, tendo ele experimentado, não quis bebê-lo” (Mt 27,34).

Forma-se um círculo em torno de Jesus, os soldados tiram-lhe as vestes, que, estando pegadas a seu corpo todo chagado e retalhado, ao serem arranca¬das levam consigo muitos pedaços de carne, atirando-o em seguida sobre a cruz. Jesus estende suas sagradas mãos e oferece ao eterno Pai o grande sacrifício de si mesmo e suplica-lhe que o aceite por nossa salvação.

Eis que já tomam com fúria os pregos e os martelos e, transpassando as mãos e os pés de nosso Salvador, pregam-no na cruz. O som das marteladas ressoa por todo aquele monte e se faz ouvir também por Maria, que, acompanhando o Filho, já havia também chegado. Ó mãos sagradas, que com vosso contacto sarastes tantos enfermos, por que vos atravessam nessa cruz? Ó pés sacrossantos, que tanto vos cansastes, correndo atrás de nós, ovelhas desgarradas, por que vos encravam com tantas dores? No corpo humano, apenas se atinge um nervo, é tão aguda a dor, que isso ocasiona desmaios e espasmos mortais. Qual, pois, terá sido o tormento de Jesus, ao lhe serem traspassadas com cravos as mãos e os pés, lugares cheios de ossos e nervos? Ó meu doce Salvador, quanto vos custou a minha salvação e o desejo de conquistar o amor de um verme miserável! E eu, ingrato, tantas vezes vos neguei o meu amor e voltei-vos as costas!

A um dado momento, levantam a cruz com o crucificado e fazem- na cair com violência no buraco cavado na rocha. É firmada com pedras e madeira e Jesus nela pregado fica suspenso entre dois ladrões, para aí findar a vida.

“E o crucificaram e com ele dois outros, um de cada lado, e no meio Jesus” (Jo 19,18).

Isaías já o havia predito:

“Ele foi posto no número dos malfeitores” (Is 53,12).

Na cruz estava afixada uma inscrição que dizia:

“Jesus Nazareno, rei dos judeus”.

Queriam os sacerdotes que se mudasse tal inscrição; Pilatos, porém, não quis mudá-la, porque Deus queria que todos soubessem que os hebreus deram a morte a seu verdadeiro rei e Messias por tanto tempo esperado e desejado por eles mesmos.

Jesus na cruz: eis a prova do amor de um Deus. Eis a última aparição que o Verbo encarnado faz nesta terra. A primeira foi num estábulo e esta última é numa cruz: tanto uma como a outra demonstram o amor e a caridade imensa que ele tem pelos homens. São Francisco de Paula, meditando um dia no amor de Jesus Cristo em sua morte, extasiado e levado acima da terra, exclamou três vezes em alta voz: Ó Deus caridade! Ó Deus caridade! Ó Deus caridade! Com isso o Senhor queria ensinar-nos por meio do santo que nós nunca seremos capazes de compreender o amor infinito que nos demonstrou esse Deus, querendo sofrer tanto e morrer por nós. Minha alma, chega-te humilhada e enternecida àquela cruz, beija ao mesmo tempo este altar em que morre o teu amável Senhor.

Coloca-te debaixo de seus pés e faze que escorra sobre ti seu sangue divino e suplica o eterno Pai, mas em sentido diferente do que fizeram os judeus: Seu sangue caia sobre nós (Mt 27,25). Senhor, que esse sangue escorra sobre nós e nos lave de nossos pecados: este sangue não vos pede vingança, como pedia o sangue de Abel, mas vos pede perdão e misericórdia para nós. É o que o vosso Apóstolo me anima a esperar, quando diz: Vós, porém, vos aproximastes do Mediador do Novo Testamento, Jesus, e da aspersão do sangue que fala melhor que o de Abel (Hb 12,24).

Ó Deus, quando padece na cruz nosso Salvador moribundo! Cada membro está sofrendo e um não pode socorrer o outro, estando os pés e as mãos presos pelos cravos. A cada instante ele sofre dores mortais e assim pode-se dizer que naquelas três horas de agonia sofreu Jesus tantas mortes quantos os momentos que esteve pen¬dente da cruz. Sobre esse leito não teve o Senhor um só momento de alívio ou repouso. Ora se apoiava sobre os pés, ora sobre as mãos, mas onde se apoiava crescia a dor. Aquele corpo sagrado estava suspenso sobre suas próprias chagas, pois as mãos e os pés crava¬dos deviam sustentar o peso de todo o corpo.

Ó meu caro Redentor, se eu vos contemplo exteriormente, não vejo senão chagas e sangue; se observo vosso interior, vejo vosso coração todo aflito e desconsolado. Leio sobre essa cruz que vós sois rei, mas que insígnias tendes de realeza? eu não vejo outro trono a não ser esse lenho de opróbrio; não vejo outra púrpura a não ser vossa carne ensangüentada e dilacerada; não vejo outra coroa além desse feixe de espinhos que tanto vos atormenta. Ah, sim, tudo vos proclama rei, não de honra, mas de amor: essa cruz, esse sangue, esses cravos e essa coroa são incontestavelmente insígnias de amor.
Assim Jesus na sua cruz não procura tanto a nossa compaixão, como o nosso afeto. E se pede compaixão, pede-a unicamente para que ela nos induza a amá-lo. Ele merece já por sua bondade todo o nosso amor, mas agora procura ser amado ao menos por compaixão. Ah, meu Jesus, tivestes muita razão de afirmar, antes da vossa paixão, que uma vez levantado na cruz, havíeis de atrair para vós todos os corações.

“Quando eu for exaltado atrairei tudo para mim” (Jo 12,32).

Oh! quantas setas de fogo enviais aos nossos corações desse trono de amor! Oh! quantas almas felizes atraístes a vós dessa cruz, livrando-as das fauces do inferno. Permiti-me, pois, dizer-vos: Com razão, Senhor, vos colocaram no meio de dois ladrões, pois vós com vosso amor haveis roubado a Lúcifer tantas almas que por justiça lhe pertenciam por causa de seus pecados. E eu espero ser uma destas. Ó chagas de meu Jesus, ó belas fornalhas de amor, recebei-me no meio de vós, para me abrasar, não já no fogo do inferno por mim merecido, mas nas santas chagas de amor daquele Deus que por mim quis morrer consumido de tormentos.

Os carrascos, depois de haverem crucificado a Jesus, dividem entre si as suas vestes, segundo a profecia de Davi: “Repartiram entre si os meus vestidos e lançaram sorte sobre a minha túnica” (Sl 21,19) e, assentando-se todos, esperam por sua morte. Minha alma, assenta-te aos pés daquela cruz e debaixo de sua sombra de salvação repousa durante tua vida inteira, a fim de que possas dizer com a esposa sagrada:

“Assentei-me à sombra daquele que eu tanto havia desejado” (Ct 2,3).

Oh! que repouso encantador é o que encontram as almas amantes de Deus junto a Jesus crucificado, no meio dos tumultos do mundo, das tentações do inferno e dos temores dos juízos divinos!

Estando Jesus em agonia, com os membros doloridos e com o coração desolado e triste, procurava quem o consolasse. Mas, ó meu Redentor, não se encontra alguém que vos console? Se ao menos houvesse alguém que se compadecesse de vós e com lágrimas acompanhasse vossa agonia tão atroz! Mas, ó tristeza, vejo que uns vos injuriam, outros vos encarnecem, outros ainda blasfemam contra vós. Estes dizem:

“Se és o Filho de Deus, desce da cruz” (Mt 27,40).

Aqueles:

“Ó tu, que destróis o templo de Deus… salva-te a ti mesmo” (Mc 15,29-30).

E outros:

“Salvou a outros e não pode salvar-se a si mesmo” (Mt 27,42).

Senhor, que condenado se viu jamais tão coberto de injúrias e opróbrios no momento de sua morte no patíbulo infame?

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