Meditação para a Segunda-feira da 2ª Semana depois da Epifania

SUMARIO

Depois de termos aprendido de Jesus nosso Mestre o uso que devemos fazer da nossa inteligencia, veremos o uso que devemos fazer do nosso coração. O seu coração ensina-nos que o nosso deve ser:

1.° Todo de Deus;

2.º Só de Deus.

— Tomaremos depois a resolução:

1.° De fazermos todas as nossas ações, pequenas e grandes, por amor de Deus, isto é, pelo só motivo de lhe agradar;

2.° De multiplicarmos o mais possível, de noite como de dia, os atos de amor, dizendo com o Salmista:

“Senhor, fazei que eu Vos ame” – Diligam te Domine (Sl 17, 1)

Ou com Santo Inácio:

“Dai-me o Vosso amor, e é quanto basta; nada mais desejo” – Da amorem, et sufficit

Estas duas aspirações nos servirão de ramalhete espiritual.

Meditação para o Dia

Adoremos o Coração de Jesus como o divino modelo que o nosso coração deve imitar. Penetremos neste santuário; admiremos as suas inefáveis belezas, as suas adoráveis perfeições. Oh! Se uma vez nele tivéssemos bem entrado (1), quantas graças, quantas luzes e virtudes não possuiríamos!

PRIMEIRO PONTO

O Coração de Jesus ensina-nos que o nosso deve ser todo de Deus

Com efeito, o que é que comovia este divino coração? Que amava Ele, que desejava, que anelava senão a maior glória do seu Pai celestial? Vê-lo conhecido, amado, adorado, servido por todas as criaturas, cumprir todos os Seus desejos, reparar os insultos feitos pela ingratidão dos homens às Suas eternas perfeições, é ao que tendiam todos os movimentos deste nobre coração; é o que motivava os Seus receios ou as Suas esperanças, a Sua alegria ou a Sua tristeza; é o que O punha em ato ou O conservava em descanso. Era essa a Sua comida, a Sua vida (2), dizia Ele. Um homem atormentado da fome e da sede fica menos contente, quando encontra um alimento ou água das fontes, do que este coração divino quando podia fazer alguma coisa pela glória e pelo amor de Deus seu Pai. Por isso não Lhe importava viver na pobreza e no trabalho, nem morrer crucificado; e não Lhe parecia muito caro tão grande bem, comprando-o à custa de todas as dores e ignominias, à custa até da morte.

Ó Jesus! Quem me dera um coração semelhante ao Vosso, um coração cuja única ambição e alegria seja amar a Deus, e fazer que O amem, obrar e padecer por Ele! Ó Deus eterno, eu tenho-Vos amado muito pouco e muito tarde. Ah! Apenas tenho começado a amar-Vos bem. Tirai-me o meu coração empedernido e dai-me outro mais sensível, ou antes dai-me um coração empedernido para todas as coisas alheias a Vós e para Vós um coração terno, grande, generoso. Transformai o meu coração no do Vosso Filho. Venham todos os meus repentes extinguir-se, todos os meus cuidados, todos os meus tormentos, todos os meus desejos incompletos consumir-se na fornalha do santo amor, e alcance eu um amor maior para com Deus e para com as almas.

SEGUNDO PONTO

O coração de Jesus ensina-nos que o nosso deve ser só de Deus

Este Sagrado Coração, sentindo que não basta o coração tão pequeno da criatura para amar a um tão grande Deus, não podia dividi-lo, isto é, conceder o seu menor afeto à criatura em atenção a ela mesma, e deixá-lo afligir-se ou alegrar-se por algum objeto estranho. Não lhe bastava que Deus ocupasse nele o primeiro lugar como se os demais lugares pudessem sem injustiça ser concedidos a outros que a Deus, como se a criatura, uma vez admitida à partilha, não se apoderasse da parte principal. ConVosco, ó meu Deus, é tudo ou nada. A criatura, ainda que lhe deixem qualquer lugar no coração, arroga-se sempre o primeiro. É o que me ensina a experiência. São precisos dias, meses inteiros para me consolar de um pequeno infortúnio, da perda, da ausência ou somente da indiferença de um amigo, enquanto que, ó meu Deus, me consolo tão facilmente de Vos ter desagradado. Uma empresa, em que interessa a minha vaidade ou a minha cobiça, preocupa-me até me tirar o sono e a atenção aos meus outros deveres; um acontecimento próspero alegra-me, enquanto que sou tão insensível aos Vossos interesses, e faço tão pouco caso do que respeita à Vossa glória; não tenho senão um leve pesar de Vos ver ou ter ofendido. Oh! Quanto me envergonho desse falso amor, que não se importa com o objeto amado! Logo, nada de partilha; a Deus só todo o meu coração.

Ó coração de Jesus, obtende-me, que eu me aproxime dEle. Acho-me tão afastado dEle! Purificai o meu coração de quanto for alheio a Vós, e não viva eu já senão para Vós.

Resoluções e ramalhete espiritual como acima

Referências:

(1) Si seinel perfecte introisses in interiora Jesu (II Imitação 1, 6)

(2) Meus cibus est (Jo 4, 34)

Voltar para o Índice do Tomo I das Meditações Diárias de Mons. Hamon

(HAMON, Monsenhor André Jean Marie. Meditações para todos os dias do ano: Para uso dos Sacerdotes, Religiosos e dos Fiéis. Livraria Chardron, de Lélo & Irmão – Porto, 1904, Tomo I, p. 205-207)