Santíssima Trindade

Por Dom Henrique Soares da Costa

Sei que o título desde texto é instigante. Ele se inspira no Catecismo da Igreja (nn. 31-43):

II. Os caminhos de acesso ao conhecimento de Deus

31. Criado à imagem de Deus, chamado a conhecer e a amar a Deus, c homem que procura Deus descobre certos «caminhos» de acesso ao conhecimento de Deus. Também se lhes chama «provas da existência de Deus» – não no sentido das provas que as ciências naturais indagam mas no de «argumentos convergentes e convincentes» que permitem chegar a verdadeiras certezas.

Estes «caminhos» para atingir Deus têm como ponto de partida criação: o mundo material e a pessoa humana.

32. O mundo: A partir do movimento e do devir, da contingência, da ordem e da beleza do mundo, pode chegar-se ao conhecimento de Deu: como origem e fim do universo.

São Paulo afirma a respeito dos pagãos: «O que se pode conhecer de Deus manifesto para eles, porque Deus lho manifestou. Desde a criação do mundo, a perfeições invisíveis de Deus, o seu poder eterno e a sua divindade tornam-se pelas suas obras, visíveis à inteligência» (Rm 1, 19-20) (8).

E Santo Agostinho: «Interroga a beleza da terra, interroga a beleza do mar interroga a beleza do ar que se dilata e difunde, interroga a beleza do céu […] interroga todas estas realidades. Todas te respondem: Estás a ver como somo belas. A beleza delas é o seu testemunho de louvor [«confessio»]. Essas belezas sujeitas à mudança, quem as fez senão o Belo [«Ptdcher»], que não está sujeite à mudança?» (9).

33. O homem: Com a sua abertura à verdade e à beleza, com o seu sentido do bem moral, com a sua liberdade e a voz da sua consciência, com a sua ânsia de infinito e de felicidade, o homem interroga-se sobre a existência de Deus. Nestas aberturas, ele detecta sinais da sua alma espiritual. «Gérmen de eternidade que traz em si mesmo, irredutível à simples matéria» (10), a sua alma só em Deus pode ter origem.

34. O mundo e o homem atestam que não têm em si mesmos, nem o seu primeiro princípio, nem o seu fim último, mas que participam do Ser-em-si, sem princípio nem fim. Assim, por estes diversos «caminhos», o homem pode ter acesso ao conhecimento da existência duma realidade que é a causa primeira e o fim último de tudo, «e a que todos chamam Deus» (11).

35. As faculdades do homem tornam-no capaz de conhecer a existência de um Deus pessoal. Mas, para que o homem possa entrar na sua intimidade, Deus quis revelar-Se ao homem e dar-lhe a graça de poder receber com fé esta revelação. Todavia, as provas da existência de Deus podem dispor para a fé e ajudar a perceber que a fé não se opõe à razão humana.

III. O conhecimento de Deus segundo a Igreja

36. «A Santa Igreja, nossa Mãe, atesta e ensina que Deus, princípio e fim de todas as coisas, pode ser conhecido, com certeza, pela luz natural da razão humana, a partir das coisas criadas» (12). Sem esta capacidade, o homem não poderia acolher a revelação de Deus. O homem tem esta capacidade porque foi criado «à imagem de Deus» (Gn 1, 27).

37. Nas condições históricas em que se encontra, o homem experimenta, no entanto, muitas dificuldades para chegar ao conhecimento de Deus só com as luzes da razão:

«Com efeito, para falar com simplicidade, apesar de a razão humana poder verdadeiramente, pelas suas forças e luz naturais, chegar a um conhecimento verdadeiro e certo de um Deus pessoal, que protege e governa o mundo pela sua providência, bem como de uma lei natural inscrita pelo Criador nas nossas almas, há, contudo, bastantes obstáculos que impedem esta mesma razão de usar eficazmente e com fruto o seu poder natural, porque as verdades que dizem respeito a Deus e aos homens ultrapassam absolutamente a ordem das coisas sensíveis; e quando devem traduzir-se em actos e informar a vida, exigem que nos dêmos e renunciemos a nós próprios. O espírito humano, para adquirir semelhantes verdades, sofre dificuldade da parte dos sentidos e da imaginação, bem como dos maus desejos nascidos do pecado original. Daí deriva que, em tais matérias, os homens se persuadem facilmente da falsidade ou, pelo menos, da incerteza das coisas que não desejariam fossem verdadeiras» (13).

38. É por isso que o homem tem necessidade de ser esclarecido pela Revelação de Deus, não somente no que diz respeito ao que excede o seu entendimento, mas também sobre «as verdades religiosas e morais que, de si, não são inacessíveis à razão, para que possam ser, no estado actual do género humano, conhecidas por todos sem dificuldade, com uma certeza firme e sem mistura de erro» (14).

IV. Como falar de Deus?

39. Ao defender a capacidade da razão humana para conhecer Deus, a Igreja exprime a sua confiança na possibilidade de falar de Deus a todos os homens e com todos os homens. Esta convicção está na base do seu diálogo com as outras religiões, com a filosofia e as ciências, e também com os descrentes e os ateus.

40. Mas dado que o nosso conhecimento de Deus é limitado, a nossa linguagem, ao falar de Deus, também o é. Não podemos falar de Deus senão a partir das criaturas e segundo o nosso modo humano limitado de conhecer e de pensar.

41. Todas as criaturas são portadoras duma certa semelhança de Deus, muito especialmente o homem, criado à imagem e semelhança de Deus. As múltiplas perfeições das criaturas (a sua verdade, a sua bondade, a sua beleza) reflectem, pois, a perfeição infinita de Deus. Daí que possamos falar de Deus a partir das perfeições das suas criaturas: «porque a grandeza e a beleza das criaturas conduzem, por analogia, à contemplação do seu Autor» (Sb 13, 5).

42. Deus transcende toda a criatura. Devemos, portanto, purificar incessantemente a nossa linguagem no que ela tem de limitado, de ilusório, de imperfeito, para não confundir o Deus «inefável, incompreensível, invisível, impalpável» (15) com as nossas representações humanas. As nossas palavras humanas ficam sempre aquém do mistério de Deus.

43. Ao falar assim de Deus, a nossa linguagem exprime-se, evidentemente, de modo humano. Mas atinge realmente o próprio Deus, sem todavia poder exprimi-Lo na sua infinita simplicidade. Devemos lembrar-nos de que, «entre o Criador e a criatura, não é possível notar uma semelhança sem que a dissemelhança seja ainda maior» (16), e de que «não nos é possível apreender de Deus o que Ele é, senão apenas o que Ele não é, e como se situam os outros seres em relação a Ele»(17).

A Igreja é convicta – e penso que com toda razão – de que o homem, precisamente por ter sido criado por Deus e para Deus, traz no seu íntimo o chamado irrefreável a conhecer e amar o seu Criador. Se de antemão o ser humano não se fechar preconceituosamente, descobre “certas vias” para chegar a um conhecimento da existência de Deus através de argumentos convergentes e convincentes. Para isto há, fundamentalmente, dois pontos de partida: o mundo e o próprio ser humano.

Observando a natureza, o macro e o micro cosmo, a pergunta espontânea que surge é:

“Donde vem tudo isto? Por que existem estas coisas e não o nada? Donde vem a harmonia das coisas, as leis da natureza que em tudo estão inscritas? Por que o universo é algo como uma delicada e incrível sinfonia e não como um caos sonoro”

Já Santo Agostinho, no século V, exclamava:

“Interroga a beleza da terra, interroga a beleza do mar, interroga a beleza do ar que se dilata e se difunde, interroga a beleza do céu, interroga todas essas realidades. Todas elas te respondem: Olha-nos, somos belas! Sua beleza é um hino de louvor. Essas belezas sujeitas à mudança, quem as fez senão o Belo, não sujeito à mudança?”

Será que por trás dessa obra de arte, que é o inteiro cosmo, não há Alguém, para lá do próprio cosmo, donde tudo provém? Pode esse universo criar-se a si mesmo, indefinidamente? Do Nada viria tudo?

Também se olharmos o ser humano, essa maravilha impressionante: quanta nostalgia da verdade e da beleza em seu coração; além disso, o impressionante sentido do bem moral, com sua liberdade e a voz da sua consciência, com sua aspiração ao infinito e à felicidade.

Eta, ser humano, que teima em sonhar, em querer viver, em não se satisfazer com menos que o infinito! O bicho homem transcende o mundo material: é um poço de sonho e de capacidade de imaginar, sonhar, amar… “Como semente de eternidade que leva dentro de si, irredutível à só matéria, sua alma sedenta de infinito não pode ter origem senão no Infinito”, Aquele a que chamamos “Deus”.

No mais íntimo de nós, por mais embrutecidos que sejamos, é para o Infinito, para o Bem, para o Belo, para o Eterno que nosso coração e nossa consciência apontam! Sufocar isto em nós é adoecer, é desumanizar-se, é cair no desespero ou num cinismo conformista de uma existência e de um tudo sem sentido algum!

Assim, “o mundo e o homem atestam que não têm em si mesmos nem seu princípio primeiro nem seu fim último”, mas que provêm de um Outro, de uma Causa Primeira, eterna, suficiente, infinita, não causada por nada. Se pensarmos nisso sem preconceito, sem má vontade, certamente o coração e a inteligência chegam a intuir a existência de Alguém inteligente, bom, amável, onipotente, respeitoso de Suas criaturas, de Quem tudo provém, em Quem tudo encontra seu sentido último e para Quem tudo caminha; Alguém que não é um simples ser, que não é um ente entre os outros, mas uma Realidade que é o Ser e o fundamento dos seres, incompreensível, inapreensível à nossa pobre percepção e inteligência.

Dele, captamos os rastros, percebemos os reflexos, como que às apalpadelas!

Infelizmente, esse conhecimento natural e espontâneo de Deus encontra obstáculos, sobretudo nos dias atuais:

(1) Primeiro, Deus ultrapassa totalmente as coisas simplesmente sensíveis. Neste mundo empanturrado do tocar, do ver, do medir, do possuir, vamos embotando nossa capacidade de respirar o Eterno, de sonhar com o Infinito que escapa aos nossos sentidos exteriores. Vivemos numa sociedade embrutecida pelo materialismo prático!

(2) Além do mais, crer na existência de Deus não é algo simplesmente teórico, mas, em geral, traz consequências para a vida prática, exigindo mudança, compromisso com o bem e abandono do mal. Aí topamos com o orgulho, a soberba, o egoísmo e o comodismo do coração humano, com sua inclinação para o mal. Infelizmente, “os homens, em tais questões, facilmente procuram persuadir-se de que seja falso ou ao menos duvidoso aquilo que não desejam que seja verdadeiro”.

Uma coisa é certa: ainda que se possa chegar a um conhecimento natural, racional da existência de Deus, sem a graça que abre o nosso coração e nos enche de boa vontade, na prática tal percepção é impossível! Fechados, obtusos e presunçosamente cegos, gritaremos: “Deus não existe!” E sussurraremos bem baixinho, para que nem mesmo nós escutemos: “Não existe, porque eu não quero que Ele exista! Não pode existir porque Sua existência me incomoda, pois faria com que eu O colocasse no centro da minha existência, tendo que converter-me a Ele!”

Ainda um dado importante: mesmo quando falamos sobre Deus, é indispensável levar em conta que nossa linguagem é totalmente inadequada para exprimi-Lo.
Como falar do Infinito, Eterno, Imutável, que não pode ser comparado com nenhum outro ser?

“É verdade que as criaturas, todas elas, trazem em si certa semelhança com Deus, muito particularmente o homem, criado à Sua imagem e semelhança”. Mas, atenção: “Deus transcende toda criatura”, de modo que “entre o Criador e a criatura não se pode notar uma semelhança, sem que se deva notar entre eles uma ainda maior dessemelhança”.

Assim, falando com mais exatidão, “não podemos apreender de Deus o que Ele é, mas apenas o que Ele não é e de que maneira os outros seres se situam em relação a Ele”. Trocando em miúdos: a nossa linguagem sobre Deus é verdadeira, mas sumamente inadequada: tudo quanto Dele dissermos é uma comparação mal comparada, pois Ele é o que dizemos, mas de um modo absolutamente único e diverso, já que Ele é totalmente diferente de todas as Suas criaturas. Isto coloca nossa barba de molho para que sejamos humildes ao falar de Deus e ao querer compreender os Seus caminhos!

Nas Escrituras Sagradas, tal grandeza do Senhor Deus tem um nome: santidade! Ele é o Santo, isto é, Ele é o Outro, diverso e acima de tudo!

A melhor linguagem para falar de Deus? Ei-la: o silêncio admirado e adorante!

O melhor modo de compreender algo Dele? Eis: na simples e nobre beleza da liturgia: seus gestos, palavras, símbolos, ritos…

O resto é Silêncio, é Mistério, é Presença!

Quem já o experimentou, compreenderá o que afirmo…