Dom Henrique Soares da Costa

Por Dom Henrique Soares da Costa

Algumas vezes, na internet, tenho encontrado figurações da Santa Missa nas quais o sacerdote segura a hóstia e, do outro lado, o próprio Cristo também a segura. A intenção é exprimir a fé católica, segundo a qual a Celebração eucarística é memorial do mesmíssimo sacrifício de Cristo.

Suposta rpresentação da Eucaristia que circula pela internet

Esta imagem não exprime a fé católica
sobre a Eucaristia.

Mas, aí há um problema gravíssimo: o Cristo apresentado nessas montagens aparece flagelado, como esteve nas dores do Calvário. Ora, isto de modo algum exprime a fé católica; antes, é um grave erro, que contraria a reta doutrina da Igreja sobre o Sacrifício da Missa! Explicarei isto em algumas proposições:

1. Cristo, nosso Salvador e Senhor, ofereceu-Se ao Pai “num Espírito eterno” (Hb 9,14)como sacrifício único, irrepetível e perfeito na cruz uma vez por todas. Seu sacrifício é totalmente suficiente para a salvação do mundo.

2. Este sacrifício, o Pai o acolheu no Espírito Santo (cf. Hb 9,14). Que significa isto? Toda a obra salvífica de Cristo Jesus, que culminou com Sua santa Paixão, Sua piedosa Morte e Sepultura e Sua gloriosa Ressurreição, agora encontra-se na Glória do Pai: Jesus está e estará para sempre ao mesmo tempo imolado e glorificado pela ação do Espírito Santo do Pai intercedendo por nós. Isto aparece no Novo Testamento ao menos em três imagens:

(a) Todas as vezes que os evangelhos narram os encontros do Ressuscitado com os discípulos, evitam descrever o corpo glorioso do Senhor, que já não pode ser descrito. No entanto, há um sinal que O identifica: as chagas, agora gloriosas! Tais chagas que não saram, que não se fecharão jamais, indicam que o Cristo vivo e glorioso continuará para sempre Vítima pascal, eternizado na Sua imolação pelo mundo inteiro. Agora na Eternidade de Deus, onde não há tempo, onde todo o tempo tem sua origem, no Eterno, Ele será para sempre o Imolado que é Ressuscitado e o Ressuscitado em estado de gloriosa imolação!

(b) A Epístola aos Hebreus afirma claramente que o Ressuscitado “entrou uma vez por todas no Santuário… com o próprio sangue, obtendo uma redenção eterna” (Hb 9,12). Eis a ideia: Cristo, na Sua humanidade imolada e gloriosa, eternamente nos Céus, na Eternidade, no próprio seio bendito e inefável da Trindade, oferece ao Pai o Seu sangue, isto é, o Seu sacrifício, a Sua vida, só que agora num estado glorioso; trata-se de uma imolação gloriosa!

(c) O Apocalipse apresenta a sugestiva e profunda imagem do Cordeiro de pé como que imolado diante do Trono do Pai (cf. 5,6): trata-se do Cristo ressuscitado, vencedor, mas eternamente num estado daquela imolação ocorrida no Calvário, mas, agora, de modo absolutamente glorioso!

Conclusão impressionante e maravilhosa: o sacrifício de Cristo não está no passado, congelado no tempo; o sacrifício de Cristo, por obra do Espírito Santo, está eternamente novo, presente a todos os tempos e lugares, perene e salvífico, na Glória do Pai: no Eterno de Deus, ele atinge todos os tempos em todos os altares onde é liturgicamente celebrado!

Ícone representando a Divina Liturgia

É o Cristo vivo, na Sua imolação gloriosa,
Quem Se oferece continuamente na Eucaristia.

3. O sacrifício glorioso de Cristo, tal como agora se encontra na Glória, torna-se realmente presente sobre nossos altares em cada Eucaristia, único, eterno, eficaz, irrepetível, santo. Em outras palavras: o Cristo eucarístico não é o Cristo no estado cruento e doloroso em que Se encontrava no Calvário, mas o Cristo vítima gloriosa como Se encontra nos Céus, com Sua humanidade que foi sacrificada totalmente gloriosa por obra do Espírito com o qual o Pai o plenificou na Sua Ressurreição!

O Sacrifício da missa não é simples e direta atualização do doloroso Sacrifício do Senhor ocorrido há séculos atrás, mas a real “presentificação”, e o verdadeiro tornar-se ato entre nós (= atualização) do sacrifício ocorrido há séculos atrás e agora, atualmente e para sempre, Sacrifício glorioso nos Céus. Assim, que deve ficar claro o seguinte: no sacrifício da Missa, não é propriamente o passado que se faz presente, mas os Céus que descem à terra sobre o altar!

É verdade que é o mesmíssimo Sacrifício ocorrido há vinte e um séculos que é celebrado, mas não nas condições cruentas daquela época: é celebrado agora no estado glorioso e perpétuo (incruento) em que se encontra nos Céus. Daí a liturgia exclamar:

“Imolado, já não morre; morto, vive eternamente!”

Daí também o costume antigo de se usar na liturgia da Missa símbolos e gestos do Apocalipse, onde se descreve de modo cheio de figuras belíssimas e sugestivas a adoração ao Cristo que Se oferta gloriosamente ao Pai como Cordeiro de pé e imolado!

Se prestarmos bem atenção nestas explicações fica claro o erro de se representar o Cristo flagelado e em dores como se a Missa fosse Seu sacrifício cruento! O Concílio de Trento é claro a este respeito:

“Neste divino Sacrifício, que se consuma na Missa, está presente e Se imola de modo incruento Aquele mesmo Cristo que Se imolou uma só vez e de modo cruento no altar da Cruz… Uma só e mesma é a Vítima: e Aquele que agora Se imola pelo ministério dos sacerdotes é o mesmo que um dia Se imolou na Cruz, sendo diferente só o modo de oferecer”

Fica patente também como é possível que o Sacrifício de Cristo seja oferecido uma vez por todas, sem repetição e, ao mesmo tempo, a Missa seja real e verdadeiro Sacrifício de Cristo: é o Sacrifício em estado glorioso que se torna presente no altar para que nós, na terra, participemos já das coisas dos Céus e entremos em comunhão com o santo Sacrifício único, perfeito, suficiente e eterno, que é propiciação pelos nossos pecados e salvação para o mundo inteiro.

Fica claro também o quanto erram e se enganam nossos irmãos protestantes quando negam que a Missa seja real e verdadeiramente o mesmíssimo Sacrifício do Senhor nosso Jesus Cristo, Sumo e Eterno Sacerdote e Vítima perfeita pelos nossos pecados. Para eles, afirmar que a Missa é o Sacrifício de Cristo seria negar o valor suficiente do único Sacrifício da Cruz. Ora, os católicos nunca negaram esse valor suficiente e eterno! Apenas, afirmam, seguindo a Escritura e a constante Tradição apostólica, que este Sacrifício não passou, não caducou no passado, mas eficaz encontra-se no Eterno de Deus e, atuante na Glória, torna-se realmente presente em todos os nossos altares para que todas as gerações de cristãos possam participar realmente, nos ritos litúrgicos, da Páscoa salvadora do Senhor nosso que prometeu que estaria conosco para sempre!

Sacerdote celebrando a Santa Missa

“Sacrifício do Vosso agrado
e salvação do mundo inteiro”