Capítulo 23: Aparição de Jesus a sua Mãe depois de ressuscitado
Alegria de Maria vendo seu Filho ressuscitado

Consideremos o Salvador saindo do sepulcro, vencedor da morte e do inferno. Ainda que não consta expressamente do Evangelho, podemos contudo piamente crer que Sua divina Mãe foi a primeira pessoa a quem Jesus se mostrou neste estado glorioso. O respeito que tributava a esta augusta Mãe, o amor que lhe consagrava, a ternura de Maria para com seu divino Filho pareciam pedir tão honrosa distinção. Mais do que ninguém havia ela tomado parte nas dores da Sua Paixão; era justo, pois, que fosse a primeira que participasse da alegria do seu triunfo. Deste modo proporciona Deus os seus favores e consolações aos trabalhos que por Ele sofremos. Amemos o Salvador, compadeçamo-nos de Suas dores, levemos a Sua cruz, sigamo-lO até ao Calvário, e seremos como a Santíssima Virgem participantes da Sua alegria e triunfo.

Vendo-O revestido de glória e de imortalidade

Consideremos o júbilo e delícias inefáveis que inundaram o Santíssimo Coração da bem-aventurada Virgem na Ressurreição de seu Filho. Foi abundantemente compensada das cruéis angústias, que tinha sofrido; viu com um inexplicável prazer o seu caro Jesus revestido de glória, de imortalidade e de todas as qualidades dos corpos gloriosos; adorou-O com respeito, beijou amorosamente as sagradas chagas, que Ele quis conservar como outros tantos troféus da Sua vitória. Pode dizer-se que Maria começou desde então a gozar aquela torrente de delícias, em que vivem inebriados os bem-aventurados no céu; e, ainda que vivendo sobre a terra, lugar de desterro, saboreava em larga cópia as doçuras da celeste pátria. Congratulemos a nossa terna Mãe por este gozo inefável; peçamos-lhe que nos faça participantes da sua felicidade e que desapegue os nossos corações de todas as afeições que nos apartam do seu amor.

Vendo-O rodeado dos discípulos que O haviam abandonado

Qual não foi a alegria da Santíssima Virgem quando viu os apóstolos e os discípulos novamente reunidos, depois da ressurreição de Jesus Cristo! Na Paixão todos o haviam abandonado. São João foi o único que teve a coragem de O acompanhar até ao Calvário! Todos os outros se tinham dispersado pela morte do Mestre, como pobres ovelhas, cujo pastor foi ferido. Jesus Cristo ressuscita, e Maria tem o doce prazer de ver entrar de novo no rebanho todas essas ovelhas errantes e fugitivas. E não tenho eu tantas vezes afligido o coração da minha divina Mãe, abandonando vilmente o seu adorável Filho para me entregar ao pecado e ao demônio?! Quando lhe darei a consolação de me ver voltar para o divino Pastor e unir-me a Ele para sempre? Virgem Santíssima, eu nada posso por mim mesmo; mas espero que me ajudareis, que me dareis a mão, fazendo-me voltar de meus longos desvios, e reconciliando-me com o vosso amado Jesus.

ORAÇÃO

Ó bem-aventurada Mãe do meu Deus! Quando Jesus ressuscitado vos apareceu, os nossos primeiros pais, os santos patriarcas e profetas, todas as almas aos justos que se haviam santificado, vieram render-vos vassalagem como a sua rainha, agradecer-vos como a sua libertadora, mostrar-vos o desejo que tinham de um dia estar convosco no céu. Quais. não foram então os transportes do seu amor e gratidão para convosco! Quem poderia sobretudo descrever o que se passou no coração do Santo Precursor e do vosso castíssimo Esposo São José! Ó divina Maria deixai-me unir os meus sentimentos aos destas almas bem-aventuradas; muito vos devo já, e espero de ver-vos um dia a eterna felicidade no céu.

Agora se faz o Ato após a Meditação

EXEMPLO

Notabilíssima conversão

Nos primeiros dias de maio de 1890, foi avisado o pároco de uma freguesia da cidade de Braga, de que na sua paróquia havia um indivíduo gravemente enfermo. A família, em cuja casa estava o doente, era cristã e desejava que ele se confessas-se; porém tal era a repugnância do enfermo para os sacramentos, que ninguém ousava falar-lhe em confissão. Escreveu-lhe o pároco uma carta dizendo-lhe que, sendo aquele o tempo em que costumava ir a casa dos enfermos, seus paroquianos, a fim de os confessar e levar-lhes a Sagrada Eucaristia para cumprimento do preceito pascal lhe pedia licença para o visitar. Respondeu atenciosamente que estava às suas ordens.

Dirigiu-se a ele sem mais demora e encontrou-o recostado ao travesseiro, sofrendo os horríveis acometimentos de uma lesão cardíaca e diabetes, já muitíssimo adiantadas, que lhe dificultavam a respiração e embaraçavam a fala.

— Como é possível, disse o doente, que sendo eu estrangeiro, havendo perdido, em criança minha boa mãe, não tendo aqui mais que uma irmã, que por caridade me agasalhou, apesar dos meios que tenho para viver desafogadamente, encontre quem por mim se interesse? A quem devo a honra desta visita?

— Deve-a a Deus — respondeu o padre, e começou a falar acerca do fim que ali o trouxera. O doente, porém, acudiu logo, impugnando os sacramentos, especialmente a confissão. Viu-se por extremo embaraçado, o sacerdote para lhe responder, porque o enfermo era totalmente surdo e impossível era usar para com ele da palavra falada, desse poderosíssimo meio de se lhe insinuar no ânimo. Escreveu algumas folhas de papel em que mostrava a excelência dos sacramentos e a sua instituição divina, e deu-Ih’as a ler, o que ele fez demoradamente, parando de quando em quando no que mais o impressionava. Depois dobrou-as, pediu licença para as guardar, meteu-as debaixo do travesseiro, e despediu o sacerdote, dizendo-lhe:

Por enquanto não estou resolvido a confessar-me; só uma vez o fiz, a instâncias de minha mãe, no Brasil, onde nasci, para receber pela primeira vez a comunhão. Acredito na existência de Deus, mas não em um sacramento que obriga a dizer a um homem os segredos mais íntimos da alma.

A isto respondeu por escrito o sacerdote: Que o ministro daquele sacramento não era ali um simples homem, mas um representante do próprio Deus, a quem Este concedera o poder de perdoar os pecados, etc., e concluiu pedindo-lhe permissão para mais vezes o visitar.

— Pois não, disse o doente; esta casa é sua.

Entretanto, em todos os templos da cidade, onde se faziam exercícios do Mês de Maria, era o enfermo fervorosamente recomendado às orações dos fiéis.

No dia seguinte voltou o pároco a casa do doente, e qual não foi o seu espanto ao ver que ele o repelia de um modo brusco e nada delicado!

— Não preciso de padres, retire-se; as suas visitas não têm outro fim senão devassar os segredos da minha consciência.

E voltando-se para o lado oposto deu-lhe as costas.

Retirou-se o sacerdote com o propósito de voltar outra vez, recomendando-o de novo e mais fervorosa mente ao Santíssimo Coração de Maria; pedindo por ele missas e comunhões.

Passados três dias, voltou o pároco e encontrou-o no mesmo endurecimento e muito mais doente. Com os olhos embaciados, roxos os lábios e a voz quase sumida, ainda lhe disse:

— Retire-se; não preciso de padres, mas sim de médicos.

Retirou-se contristadíssimo, por ver que a vida do enfermo estava a extinguir-se, sem poder resolvê-lo a morrer cristãmente!

Decorreram dois dias, e o pároco foi procurado por uma boa mulher, enfermeira do doente.

— Senhor, ele está a morrer, e parece-me que não o receberia mal, se agora o visitasse.

Era quase ao por do sol do segundo domingo do mês de Maio. O doente vivia num quarto luxuosamente mobilado, de cujas paredes pendiam quadros pouco decentes, vendo-se numa rica estante livros dos mais ímpios autores.
Dormia sossegado quando entrou o padre. Acordando, tentou ver o que se passava no aposento, mas, como a luz crepuscular não deixasse distinguir bem os objetos, o pároco acendeu a vela que estava junto do leito.

O doente, apenas fitou o sacerdote, sorriu-se; mandou fechar a janela e pediu um copo de água que este lhe ministrou.

Tão aflito ficou com a bebida que o sacerdote julgou ser aquela agonia, o último instante da vida. Mas não, sossegando, mandou retirar a enfermeira, e voltando-se para o ministro do Senhor, com uma voz muito fraca, sim, mas entrecortada de soluços disse:

— Meu padre, conheço que é muito santa a religião de que sois ministro; e essa insistência em visitar-me, sem interesse algum temporal para vós, é uma prova inegável da sua divindade, fazendo-me ver que depois desta vida há outra, onde se permeiam os bons e castigam os maus. Escutai a confissão sincera dos meus crimes e depois fortalecei-me com a Sagrada Eucaristia e com todos os socorros da religião em que tive a felicidade de nascer, e da qual me desviei por não ter quem dirigisse meus passos, desde que minha santa mãe me faleceu.

O sacerdote ouviu comodíssimo a confissão do enfermo à qual não faltou nem a integridade nem a dor dos pecados. Administrou-lhe o Sagrado Viático e a Extrema Unção que o enfermo recebeu com as maiores demonstrações de respeito e amor, morrendo daí a dois dias com todos os sinais de arrependimento e contrição.

As orações dirigidas a Maria Santíssima tinham tocado em favor deste homem o coração de tão boa Mãe, que mais uma vez mostrou a justiça e a verdade do título de — Refúgio dos pecadores — que a Santa Igreja lhe deu.

OUTRO EXEMPLO

O terço de uma pecadora

O padre Bovio conta que uma mulher de má vida, chamada Helena, entrando por acaso numa igreja aonde ouviu um sermão sobre o Rosário, impressionada por ele, foi imediatamente comprar um terço que escondeu, cuidadosamente.

Principiou recitá-lo sem devoção, mas a Santíssima Virgem fez-lhe sentir tal consolo e doçura neste santo exercício, que dentro pouco Helena não saciava de rezar terços. Ao mesmo tempo as desordens da sua vida inspiravam-lhe tal horror que não podia ter um instante de sossego e, vendo-se obrigada a confessar-se, fê-lo com tão sincera contrição que o confessor ficou deveras admirado e comovido.

Foi em seguida ajoelhar aos pés do altar de Maria, agradecer-lhe tamanho benefício, e, enquanto recitava novamente o terço, ouviu a Santíssima Virgem que lhe disse:

— Helena, até hoje tens ofendido gravemente a Deus e a mim; é forçoso que mudes de vida e eu te prometo que as minhas graças não te hão de faltar.

Admirada e comovida a pobre pecadora exclamou:

— É verdade, ó Virgem Santíssima, é verdade que até hoje tenho sido uma grande criminosa, mas vós que tudo podeis, agora que me consagro toda ao vosso serviço, ajudai-me a empregar o resto dessa miserável vida na expiação dos meus pecados!

E efetivamente daí por diante, Helena, fortificada por Maria, distribuiu toda a sua fortuna aos pobres e entregou-se a uma vida de penitência.

Sendo assaltado por violentas tentações, recorria sem cessar à Mãe de Deus, e saía vitoriosa de todas elas.

Visões, profecias, revelações, todos esses dons extraordinários recebeu, e por fim, instruída do momento da sua morte, recebeu a visita da Santíssima Virgem, acompanhada de seu divino Filho, e expirou docemente no Senhor, invocando Àquela que do bendito Jesus lhe alcançara a graça de tão extraordinária conversão.

LIÇÃO
Sobre as Consolações Espirituais

Deus assiste aos Seus amigos na tribulação, para os fortificar com a unção da Sua graça, permitindo, quando Lhe apraz, que a consolação suceda à dor, a doçura à amargura.

O Rei Profeta o experimentou:

“Senhor, diz ele, as Vossas consolações alegraram a minha alma à proporção das muitas dores que o meu coração sofreu”

Se vos faltar a consolação sensível, nem por isso vos reputeis destituído de toda a consolação.

Não é bem sólido consolo saber que as tribulações vos fazem semelhantes a Jesus, vos põe no caminho do céu? Deus lá tem Seus desígnios, quando deixa sofrer os Seus servos, sem experimentarem consolações sensíveis.

Há santos que passaram por secos desertos, sem terem uma gota desse orvalho celeste.

Se, quando padeceis, tendes a graça de Deus a sustentar-vos, ela vos basta.

Esperai mais algum tempo; esperai os efeitos das promessas que Jesus faz aos que padecem.

Ele vos prepara no céu abundância de todos os bens.

Para um pecador penitente deve-lhe servir de consolação meditar que, sofrendo sem consolo, expia mais seguramente os seus pecados.

Máxima Espiritual

“As consolações espirituais excedem todas as delícias do mundo e prazeres da carne” – Imitação de Cristo

Jaculatória

Stela matutina, ora pro nobis

Estrela da manhã, rogai por nós

Agora se faz as Encomendações e outras Orações


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(SILVA, Pe. Martinho António Pereira da. Flores a Maria ou Mês de Maio consagrado à Santíssima Virgem Mãe de Deus. Tipografia Lusitana, Braga, 1895, 7.ª ed., p. 302-312)