Capítulo 21: Maria Santíssima acompanha Jesus na vida evangélica
Movendo-O a fazer o primeiro milagre público

Jesus Cristo Senhor Nosso, no princípio de Sua vida evangélica, foi convidado com sua Mãe e discípulos para umas núpcias em Caná de Galileia. A caridade foi o único motivo que obrigou o divino Mestre e Maria Santíssima a aceitarem o convite. Por certo que a Senhora preferiria ficar na casinha de Nazaré e gozar ali as doçuras da contemplação; mas sempre admirável em suas ações, sempre amável e indulgente, deixa este caro retiro, para não desgostar os esposos, e vai exercer a civilidade religiosa e manifestar sua terna bondade. Conhece então o embaraço em que vão achar-se os noivos, a confusão por que vão passar perante os convidados, e para os poupar diz para Jesus: Eles não tem vinho, e, cheia de confiança no Seu poder e bondade, diz aos serventes: Fazei tudo o que Ele vos disser; e o Salvador fez o milagre da conversão da água em vinho. Desta sorte o caritativo coração de Maria, sempre pronto a fazer bem, aproveita todas as ocasiões de ser útil ao próximo; não espera que lhe roguem, previne mesmo a súplica dobrando assim o merecimento do benefício! Imitemos a generosa caridade da nossa Mãe, sejamos misericordiosos, se queremos ser bem-aventurados.

Escutando as Suas pregações

O Filho de Deus feito homem, cheio de graça e verdade, todos os dias, nos três anos da Sua vida pública, anunciava a boa nova do reino de Deus. O povo seguia-O em grandes turbas, e escutava com assombro e atenção as palavras de vida eterna que saiam de Sua boca. Mas entre todos, Maria Santíssima, mais atenta e recolhida, ouvia, aproveitava e guardava no fundo do coração todas as instruções de seu Filho. Ninguém desfrutava melhor os encantos de Sua conversação, ninguém melhor sabia apreciar as Suas divinas lições. Aprendamos na escola de virtudes desta Virgem singular, e saibamos escutar com fruto e guardar fielmente em nossos corações a palavra de Deus.

Participando dos louvores que as turbas Lhe dirigem

Um dia, pregando Jesus Cristo às turbas, uma mulher levanta a voz e exclama:

“Bem-aventurado o ventre que te trouxe, e os peitos que te alimentaram”

Da mesma sorte os discípulos do Salvador e todos os povos, encantados das palavras de vida que caiam de Seus divinos lábios e assombrados pelos milagres que operava; as crianças a quem cobriu de bênçãos, os infelizes a quem ministrou consolo, os enfermos a quem deu saúde, os mortos a quem restituiu a vida, todos congratulavam esta divina Mãe, lhe mostravam o seu afeto e gratidão, e afetuosamente a bendiziam em seu coração. Unamos as nossas vozes e corações a este admirável concerto de louvores, que, de todas as partes, se eleva em honra do adorarei Salvador e de Sua admirável Mãe, proclamemo-la, com a Igreja e o Evangelho, bendita entre as mulheres, bem-aventurada por todas as gerações.

ORAÇÃO

Quanto me regozijo, ó meu Deus, vendo o poderoso recurso, que me concedeis na proteção desta divina Mãe. Ó Rainha do céu. bendita sejais; de quantos perigos me não tendes vós livrado! Quantas luzes e graças me não tendes alcançado de Deus! Por que título tenho eu podido merecer, que vos tenhais empenhado com tanto ardor na minha salvação? Só a vossa clemencia tem falado em meu favor! Ainda que eu desse em troco de tantos benefícios o sangue e a vida, seria pouco, não poderia mostrar-vos condignamente a minha gratidão. Senhora, eu nada mais posso fazer por vós, do que oferecer-vos o fraco tributo dos meus louvores e do meu amor; dignai-vos aceitá-lo de bom grado, minha divina Mãe; e, pois que tendes na mão as chaves da divina misericórdia, não cesseis de empregar este tesouro inesgotável e derramar suas riquezas sobre este pobre pecador com tanta liberalidade, que, realmente, corresponda a suas o imensas precisões.

Agora se faz o Ato após a Meditação

EXEMPLO

Um milagre e uma conversão no Santuário de Pompeia

Do excelente periódico, o Rosario e la Nueva Pompei traduzimos esta controvertidíssima narração:

—O mestre de musica de Sansepulcro, chegou ao Vale de Pompeia na manhã do dia 8 de maio de 1888.

Tinha feito consigo este plano: Estou em Pompeia no dia da festa, abraço um meu parente, ouço a bela musica, vou visitar as ruínas da cidade, e de tarde partirei para Nápoles.

No seu coração não entrava sequer o pensamento de saudar a Virgem, ou fazer-lhe uma súplica pela sua alma. Há vinte e seis anos que não só vivia apartado dos sacramentos, como ele mesmo dizia publicamente, mas, o que é ainda pior, blasfemava horrivelmente contra a Igreja e os seus ministros.

Com tais disposições chegou ao Vale de Pompeia, e, tendo abraçado o seu patrício e amigo, procurou no templo um lugar onde gozasse melhor as harmonias da musica e de onde pudesse sair quando quisesse. Porém o santuário estava apinhado de gente, e só achou um lugar no coro da musica. Ouviu o canto das órfãs, que o comoveu alguma coisa, mas nem por uma só vez lhe saiu dos lábios o doce nome de Maria.

Ela, porém, que não quer que se perca nenhum dos que vem a este santuário, ainda mesmo por simples curiosidade, quis manifestar as suas misericórdias com o ingrato que lhe fugia.

Passeava ele com ânimo frio de cepticismo entre as ruínas de Pompeia, quando, sem o advertir, firmou o pé esquerdo numa pequena cova coberta de erva e caiu. Fez esforço para levantar-se, porém uma agudíssima dor no pé direito o impediu. Conheceu que o pé estava deslocado e voltado para dentro, e mais do que isto, estava quebrado o osso.

Gente compassiva que ali estava o levantou, perguntando-lhe onde queria que o conduzissem:

— Levem-me ao Santuário onde está um meu parente, respondeu ele, com o rosto pálido e contraído pela intensidade das dores.

Por felicidade achava-se no meio de tanta gente um cirurgião, o doutor Artur Grassi, médico da câmara municipal de Nápoles, o qual visitou o doente e verificou uma dupla fratura na perna direita. Veio depois o cirurgião, doutor José Florio, de Averosa, que tinha vindo à festa, e o cirurgião, doutor Alfonso De Angelis de Bonotrecase, que todos os domingos costuma visitar gratuitamente os nossos enfermos.

Todos os três facultativos concordaram em que havia fratura no fêmur e muito perigosa.

Fizeram-se os primeiros curativos, ficando para o dia seguinte a aplicação do aparelho.

Vem a tarde, e o pobre enfermo ouvia, contra sua vontade, do seu quarto próximo ao Santuário, a recitação do rosário, o canto das órfãs e a benção solene. Comoveu-se extraordinariamente.

Já por duas vezes tinha estado perto da sepultura e nunca havia recorrido à Virgem; porém desta vez sentiu despertar-se-lhe dentro do coração uma esperança vaga e uma certa necessidade de invocar Aquela de quem se contavam tantas maravilhas. O estar pelo menos quarenta dias violentamente pregado num leito, em casa alheia, longe dos cuidados amorosos da família, começou a causar-lhe profunda melancolia.

Um dos nossos secretários, chamado Henrique De Maria, aproximou-se do enfermo e ofereceu-lhe uma imagem da Virgem de Pompeia.

O doente acolheu-a gostosamente. Foi o primeiro grau da eficácia da graça! Dez horas antes ele teria repelido com zombaria aquela oferta. Agora, animado dum raio de fé, continuou dizendo:

— Se a Virgem me fizer a graça de amanhã a perna se não achar fraturada, prometo não tornar a blasfemar. Não faço mais promessas pelo receio de as não cumprir.

De noite não pôde dormir e, pensando de tempo a tempo na graça que tinha pedido, esperava o dia para ouvir o que diziam os médicos.

Naquelas horas de solidão pegou numa medalha da Virgem de Pompeia, e prendendo-a por um cordãozinho, pô-la ao pescoço. Chegou finalmente o dia. O médico do nosso asilo, o doutor Elias Rossi, de Torre Annunziata, a quem disseram que devia ir curar um doente que tinha uma perna quebrada, visitou-o, e observando se podia achar a fratura, notou que todos os ossos estavam perfeitamente no seu lugar.

Pouco depois veio o dr. De Angelis, que no dia antecedente com os outros dois cirurgiões tinha verificado a fratura do fêmur, e vinha de proposito para o tornar imovei. Mas qual não foi o seu assombro, quando feitas as devidas observações, também não achou nenhuma fratura?! Reconhecendo claramente um fato sobrenatural, não se conteve que não exclamasse e afirmasse publicamente: — É um milagre!

O pobre toscano; que não cabia em si pela alegria que sentiu ao ouvir o primeiro médico declarar que a perna não estava quebrada, quando ouviu as palavras do segundo, comoveu-se até às lagrimas e exclamou:-

Há vinte e seis anos que me não confesso nem entro numa igreja. Já por duas outras vezes me achei em ponto de morte e nunca invoquei a Virgem Santíssima; desta vez a Virgem de quem eu fugia, me fez cair no barranco de Pompeia, para que não caísse no abismo do inferno. Quero confessar-me e mudar de vida. Contarei a todos os meus amigos e companheiros o que me aconteceu em Pompeia. Serei certamente por muitos escarnecido; é justo o castigo, pois eu também escarneci dos padres e da Igreja.

Estas palavras repetia continuamente no meio de lágrimas a todos os que o procuravam, para certificar-se do grande milagre. A sua conversão foi completa.

O periódico de que foi extraída esta narração, publica em seguida o texto de quatro certidões juradas dos médicos acima indicados, e de um auto assinado por vinte testemunhas de vista, entre as quais figura um dos primeiros médicos de Roma, o dr. Masciarelli, que também lá se encontrava.

OUTRO EXEMPLO

Conversão obtida pelas perseverantes orações de uma piedosa Filha de Maria

Venho cumprir uma promessa que fiz à Santíssima Virgem, quando lhe implorava instantemente a conversão de uma pessoa da minha família, e dar conhecimento às minhas irmãs em Maria, de mais uma prova do poder e bondade da nossa divina Mãe.

— Havia anos que me afligia profundamente a absoluta indiferença que meu bom avô mostrava por tudo que dizia respeito à religião.

É certo que nunca falava contra os seus ministros, e preceitos; mas bastava que na sua presença se tratasse de assuntos religiosos para se mostrar contrariado.

Apenas cheguei à idade de compreender o triste estado em que meu avô se encontrava, cuidei de dirigir à Santíssima Virgem fervorosas súplicas pela sua conversão. Um ano depois chegou o dia feliz da minha primeira comunhão, e é fácil de compreender o fervor com que nesse dia implorei a infinita misericórdia do Deus, que entrava pela primeira vez no meu peito, em favor de uma alma que me era tão querida, e que tão mal compreendia os seus mais sagrados deveres! Contudo decorriam os anos, e eu não via meio de conseguir o que tanto desejava.

Raras vezes me atrevia a falar a meu avô em semelhante assunto, e quando o fazia, era sempre a medo, pois conhecia bem quanto ele lhe desagradava e como imediatamente procurava desviar a conversação.

Durante 6 anos continuei empregando todos os meios ao meu alcance para obter do céu esta graça tão desejada, e era principalmente a Maria que eu implorava, para que fosse minha intercessora e se mostrasse mais uma vez a Mãe de misericórdia!

O ano passado, no mês de setembro, sai do colégio aonde estava completando a minha educação, para ir passar as férias com minha família. Numa ocasião, ficando a sós com meu avô, aproveitei-me desta feliz circunstância para lhe falar abertamente sobre a causa das minhas contínuas preocupações: Principiei por lhe dizer que me julgava muito feliz por ter sido admitida na associação das Filhas de Maria; e meu avô, que havia perto de um ano tinha perdido a vista, para desviar a conversação, principiou a dizer-me, quanto lhe era sensível essa perda, etc.

Partilhei da sua dor com toda a afeição que lhe consagrava, e, depois de algumas palavras de conforto, aproveitei-me do ensejo para lhe fazer compreender que talvez Deus se quisesse servir daquele meio, para o arrancar à sua cegueira espiritual.

As minhas palavras produziram algum efeito no seu espírito e, vendo-o triste, prometi-lhe orar muito por ele, mas que me fizesse também uma promessa. Era fazer uma novena a Nossa Senhora de Lourdes para o que bastaria que, durante nove dias rezasse de joelhos uma Ave-Maria, seguida da jaculatória —Nossa Senhora de Lourdes, rogai por mim!

A princípio recusou, mas não podendo por mais tempo resistir aos meus pedidos, anuiu.

Terminadas as férias, voltei para o colégio e procurei redobrar de fervor nas minhas orações. No mês de outubro recebi a visita de uma minha tia, que me disse da parte de meu avô, que tinha feito a novena no tempo combinado.

A Santíssima Virgem principiava a sua obra!

Um dia, depois de implorar o socorro desta divina mãe, escrevi uma afetuosa carta a meu avô, comunicando-lhe o desejo que tinha de que satisfizesse ao preceito da Igreja, comungando no tempo pascal. Minha tia, insinuada por mim, pediu-lhe que satisfizesse o meu desejo ao que ele respondeu que não podia, porque tendo abandonado há 20 anos todos os deveres de cristão, era-lhe quase impossível preparar-se para a confissão. Minha tia fez-lhe ver que estávamos ainda nos primeiros dias de quaresma, e que tinha portanto muito tempo de se preparar.

Dias depois proporcionava-lhe a visita de um piedoso sacerdote, seu conhecido, que empregou todos os meios, ao seu alcance para chamar esta pobre alma para Deus; e eu mandei-lhe uma medalha da Santíssima Virgem, que ele recebeu, beijou e lançou ao pescoço.

A milagrosa medalha começou logo a produzir o seu efeito. Depois de alguns momentos de silêncio, meu avô disse:

— Vou fazer a vontade de minha neta; não só comungarei na Páscoa, como em todas as grandes festas do ano.

E no domingo do Bom Pastor, o divino Mestre recebia à Sua mesa, para alimentar com a Sua divina carne e preciosíssimo sangue, a ovelha desgarrada que depois de 20 anos de ausência voltava ao aprisco!

Ao darem-me conhecimento desta feliz notícia a minha alegria foi tal, que só pude responder com lágrimas de reconhecimento para com a Santíssima Virgem!

Mil vezes agradecida vos sou Virgem Imaculada, pela bondade com que acolhestes as minhas preces! Hoje mais que nunca sou vossa filha, porque mais que nunca vos quero servir fielmente! Queridas Filhas de Maria, gravai bem na memória e no coração este exemplo, e lembrai-vos que se queremos obter a conversão de uma alma, nunca recorremos em vão a nossa divina Mãe!

LIÇÃO
Sobre o Amor ao Próximo

Se amais a Deus, também haveis de amar ao próximo, por quem Ele desceu dos céus, Se fez homem e deu a vida na cruz.

Não pareis somente em afetos; seja prática a vossa caridade. Há tantos aflitos, que precisam de consolo! Tantos infelizes que necessitam de compaixão!

Deus permite que haja no mundo muitos miseráveis, para que eles se santifiquem pela paciência e os ricos pela esmola caritativa.

Sede pronto para servir quando poderdes servir logo; a demora faz perder alguma coisa o mérito da caridade.

Seja generosa a vossa caridade; dai-lhe toda a grandeza que couber em vossas forças.

Ser mesquinho no serviço do próximo, mais é iludir do que satisfazer às obrigações da caridade.

Quando não puderdes ser prestadio ao próximo por vós mesmo, empenhai-vos por ele para com os outros; solicitai-lhe sequer as graças de Deus. Isto todos podem fazer.

Não considereis no próximo o homem mas a imagem de Deus; e assim, quem quer que seja o que implora socorro, não lh’o negareis, porque nada querereis negar a Deus.

Se o bem que se faz aos homens houvera de proporcionar-se ao seu merecimento e boas qualidades, poucas vezes se faria.

O mesmo Deus vos ensina com o exemplo, e manda com o preceito fazer bem a todos, até aos ingratos.

Dai, disse Jesus, e dar-se-vos-á. Dai alguns bens temporais, e Deus vos dará os eternos.

Dai bons conselhos ao vosso próximo para que se determine nas incertezas e Deus vos ajudará com suas inspirações a livrar-vos de vossas perplexidades.

Dai aos aflitos palavras de conforto, que o Deus de toda a consolação vos sustentará nas aflições com os auxílios da Sua graça.

Máxima Espiritual

“Pela caridade o pobre é rico e sem caridade o rico é pobre” – Santo Agostinho

Jaculatória

Faederis Arca, ora pro nobis

Arca da aliança, rogai por nós

Agora se faz as Encomendações e outras Orações


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(SILVA, Pe. Martinho António Pereira da. Flores a Maria ou Mês de Maio consagrado à Santíssima Virgem Mãe de Deus. Tipografia Lusitana, Braga, 1895, 7.ª ed., p. 276-289)