Capítulo 27: A morte da Santíssima Virgem
Porque foi a Santíssima Virgem sujeita à morte

Ainda que Deus preservou a Maria do pecado original, não quis preservá-la da morte do corpo, que é a pena deste pecado. Pelo contrário, quis que ela a sofresse, como os outros filhos de Adão, já para mostrar que a sentença de morte dada contra todos os homens é geral e irrevogável; já para que fosse mais semelhante a seu divino Filho, que sendo o Autor da vida, quis sujeitar-Se à morte; já, enfim, para nos dar o exemplo das virtudes que devemos praticar neste último momento. Por mais humilhante que seja a lei que nos condena à morte, Maria sujeita-se a ela com humildade profunda, com perfeita resignação, com inteira confiança na bondade de Deus e ardente desejo de se reunir ao objeto de todo o seu amor. Quão feliz não será também a nossa morte, se a aceitarmos com os mesmos afetos de humildade, confiança, obediência e amor!

De que modo morreu

A morte da Santíssima Virgem é comparada pelos Santos Padres a um doce sono, para significar que não teve nada de violento e doloroso, e que esta divina Mãe passou da vida mortal à bem-aventurada imortalidade, como se passa a um tranquilo repouso. Não foi velhice, nem enfermidade, nem desfalecimento da natureza quem quebrou as prisões naturais, que conservavam a sua alma unida ao corpo; foi o fogo do puro amor divino, quem obrou esta feliz separação. Toda abrasada neste fogo sagrado, sem temor, em paz profunda, a sua alma pura se desprendeu por si mesma do sagrado corpo, e foi levada ao céu em esplêndido triunfo. Regozijemo-nos com a Mãe Santíssima pela doçura inexplicável da sua morte. Peçamos-lhe que nos alcance a graça de morrermos, como ela, na paz do Senhor; mas lembremo-nos que para alcançar uma boa morte é preciso que tenhamos uma vida santa.

É constituída protetora dos moribundos

A Santíssima Virgem é constituída por seu Filho protetora e modelo dos moribundos. Protege-os, defende-os contra os ataques ao demônio, alcançando-lhes a graça de morrerem bem, adoçando-lhes a terrível passagem do tempo à eternidade. Ensina-lhes a disporem-se para uma boa morte por uma vida angélica, pelo desapego das criaturas, por uma terna caridade e pelo exercício de todas as virtudes cristãs. Trabalhemos por alcançar estas santas disposições e merecer para os nossos últimos momentos a proteção de Maria Santíssima. Digamos-lhe muitas vezes com terna devoção:

Santa Maria, Mãe de Deus, rogai por nós, pecadores, agora e na hora da nossa morte.

ORAÇÃO

Ó minha terna Mãe! Qual será o fim deste miserável pecador, qual será a morte que me espera?! Quando considero no momento terrível em que devo dar contas a Deus, e me recordo de que por tantas vezes, com meus pecados, tenho escrito a sentença da minha condenação, sinto-me apoderado de receio e terror. Ó consoladora dos aflitos, compadecei-vos de mim nos últimos momentos. O inferno espera a minha morte, para me acusar perante o Juiz supremo. Ah! Que será de mim? Qual será a minha sorte eterna? Sem vós eu me perderei, mas com o vosso auxílio espero escapar do inferno. Alcançai-me de Deus uma verdadeira dor dos meus pecados, e a força de lhe ser fiel nos poucos dias que me restam de vida, e principalmente quando me achar, nas angústias da morte? Maria, minha esperança, peço-vos que sustenteis então mais do que nunca a minha confiança e me não abandoneis, para que a vista dos meus pecados me não faça cair em desesperação.

Agora se faz o Ato após a Meditação

EXEMPLO

A corôa das camélias

Mr. de Castellae era viúvo; sua virtuosíssima esposa havia falecido há dez anos recomendando-lhe encarecidamente o máximo cuidado em educar cristãmente o único fruto do seu consórcio, uma filhinha que contava então oito anos de idade.

Mr. de Castellae cumpriu religiosamente este pedido.

Alheio em matérias religiosas, não podia encarregar-se da educação da filha, mas não querendo também separar-se dela, trouxe para casa uma senhora já de idade, piedosa como um anjo, que a educou o melhor possível.

Branca (era o nome da criança) tornava-se mais gentil de dia para dia, e, se o pai ao contemplá-la soltava muitas vezes um suspiro, era ao lembrar-se da esposa que tão feliz teria sido, se pudesse ver a filha assim encantadora e boa.

Por sua parte esta amava ternamente o pai, comprazia-se em lhe agradar, mas uma coisa a entristecia, a sua indiferença religiosa. O inverno de 1890 foi rigorosíssimo em França e além disso a epidemia, conhecida pelo nome — de Influenza — fez-lhe numerosas vítimas.

Branca, de uma natureza extremamente delicada, também foi ferida pelo terrível flagelo, ficando por muito tempo gravemente enferma. Depois que lhe permitiram levantar-se, ia para junto de uma janela, e entretinha-se a contemplar os brilhantes raios do sol que douravam as plantas do jardim; sentindo profundo pesar por não poder assistir as práticas de uma missão, que por esse tempo se dava numa igreja vizinha.

— Minha querida amiga, dizia ela, paira a sua antiga professora, eu que tanto esperava esta missão para pedir ao papa que me acompanhasse à igreja, e acho-me impossibilitada de sair! Quem sabe? Talvez ele se convertesse, porque não é um ímpio… Eu bem conheço a culpada indiferença que o desvia das práticas religiosas, mas ainda assim, isto é muito melhor que a impiedade. Oh! Meu Deus, se eu me restabelecesse antes de terminar a missão!…

— Minha Branca, respondia-lhe Madame Durand, continuemos a orar e fique certa de que Deus nos escutará!

Um dia em que Branca mandara vir para junto da sua poltrona, grande quantidade de camélias de todas as cores, Mr. de Castellae que ia sair, veio beijá-la, e não pôde deixar de sorrir ao vê-la entre tantas flores.

— O papá vai sair, perguntou Branca, apresentando-lhe a fronte, sem deixar da mão uma corôa de camélias que entrançava rapidamente. Eu desejava… ou antes queria pedir-lhe um favor… mas talvez que lhe custe?…

— Nunca te recusei a satisfação de qualquer desejo, minha querida filha, disse Mr. de Castellae, beijando-a. Que é o que queres?

— Eu queria… mas o papá vai dizer que sou muito caprichosa!…

— Não te importe; dize.

— Eu queria que fosse propriamente o papá que colocasse esta corôa, aos pés da Virgem do Socorra Perpétuo. Talvez já saiba que os Reverendíssimos Padres Redentoristas lhe erigiram um altar na nossa igreja.

— Sim, ouvi falar nisso, mas, como sabes, frequento pouco as igrejas e principalmente depois que adoeceste.

— Isso sinto eu deveras, porque, se o papa lá tivesse ido, talvez eu já estivesse boa; assim estou para aqui fraca, doente, a morrer de aborrecimento! Então vá hoje levar esta corôa a Nossa Senhora do Socorro Perpétuo, e rezar-lhe uma Ave Maria, pelo meu pronto restabelecimento, sim?

— Que ideia a tua!… uma Ave Maria! Não podes encarregar dessa missão Madame Durand?… Eu já soube em tempo a Ave Maria, mas agora talvez me não recorde!… Porque razão há de ser dirigida a Nossa Senhora do Socorro Perpétuo? Então não haverá mais do que uma Virgem?

— Papázinho, disse Branca, lançando carinhosamente os braços em volta do pescoço de seu pai, não gosta mais que eu lhe chame meu querido papá, do que simplesmente papá? Pois a Santíssima Virgem também gosta de ser invocada sob os diferentes títulos que os seus filhos lhe dão.

— Está bem! Tu fazes de mim o que queres! Irei pois pedir-lhe devotamente a tua cura, mas é preciso que Ela me atenda, porque senão…

— Oh! Sim, sim, creia que será atendido. Só a alegria que as suas palavras me causam, quase me restitui a saúde!

— Pobre filha! — murmurava Mr. de Castellae ao sair, levando a coroa embrulhada num papel.

Não era muito fácil o acesso até junto do altar de Nossa Senhora do Socorro Perpétuo, mas Mr. de Castellae, bastante comovido, atravessou por entre a enorme multidão que o rodeava e foi satisfazer o desejo da filha. Podia ter encarregado o sacristão, ou qualquer outro empregado da igreja de levarem a preciosa oferta, aos pés da Santíssima Virgem, mas não quis. Branca pedira-lhe que a colocasse ele próprio e Mr. de Castellae, queria fazer-lhe a vontade.

Ajoelhou, portanto, aos pés da Virgem, depôs a oferta de sua filha e recitou a Ave Maria prometida, pedindo de todo o coração o seu completo restabelecimento. Mas, seria o mesmo indiferente Castellae que se levantou depois de terminada a sua oração que foi prolongada por mais de meia hora?… Era ele sem dúvida alguma, mas completamente mudado! Em vez de sair imediatamente da igreja, dirigiu-se à sacristia, aproximou-se do primeiro padre que encontrou e disse-lhe:

— Senhor, quer ter a bondade de me ouvirem confissão? Há vinte anos que me não confesso!

Para terminar, diremos que Branca está radicalmente curada; não pôde assistira nenhuma pratica da missão, mas seu pai sinceramente convertido, dava-lhe conta de tudo que lá ouvia.

A corôa de camélias que Branca ofereceu a Nossa Senhora murchou, mas o que subsiste ainda é o seu profundo reconhecimento para com esta boa Mãe. Agora, quando vai à igreja, Mr. de Castellae acompanha-a, não com a indiferença de outro tempo, mas com o fervor de um bom cristão! Foi a graça concedida pela doce Virgem do Socorro Perpétuo!

Uma filha piedosa é um tesouro do mais subido preço.

OUTRO EXEMPLO

Castigo e misericórdia

Na pequena aldeia de *** havia uma antiquíssima imagem da Santíssima Virgem, colocada em um pedestal ao ar livre, a qual tinha sido sempre objeto do culto e veneração daquele povo.

Os revolucionários, que muito se incomodavam com este culto, resolveram tirar a imagem do seu posto, o que levaram a cabo, dirigindo-lhe os mais horrorosos insultos. Um destes malditos emissários de Satanás, querendo mostrar o seu zelo diabólico, propôs que se lançasse à imagem a um poço. A proposta foi recebida e aprovada calorosamente.

Puseram mãos à obra.

O autor da proposta trabalhava com mais ardor que todos os outros, mas durou pouco a sua alegria e blasfêmias, porque perdeu repentinamente a vista, e foi preciso conduzi-lo a casa.

Um castigo tão visível e repentino não o converteu. Continuou a ser ímpio e cego.

Anos depois o culto e a paz se restabeleceram, todavia a imagem continuava no poço, o que causava grande tristeza aos bons católicos.

Um dia o Pároco lhes disse:

— Meus amigos, é necessário que façamos uma reparação solene à Santíssima Virgem tirando a sua bendita imagem do poço, onde a deixamos arrojar…

Conhecendo todos que o seu pároco tinha razão, tomaram as providências necessárias, e marcaram um dia festivo para levarem a cabo esta obra de reparação.

No dia marcado estavam todos os habitantes reunidos ao redor do poço, exceto o pároco que devia presidir ao trabalho.

De repente apareceu ele conduzindo pela mão um cego, que ninguém esperava ver naquele sitio.

No meio da indignação geral que o povo começava a manifestar, o pároco fez sinal de que queria falar, e imediatamente todos ficaram mudos e respeitosos.

— Meus filhos, disse o sacerdote, este pobre cego veio esta manhã à minha casa, tocado pelos remorsos que o atormentam, para obter uma graça que eu já lhe concedi em meu nome e no vosso.

Pede humildemente que lhe concedais a graça de puxar convosco as cordas, que vão servir, para se tirar do poço a imagem, que há dez anos ali arrojou. Detesta o sacrilégio pelo qual tem já sido justamente castigado, e pede perdão a Deus, à Santíssima Virgem e a todos vós. Posso dizer-vos que Deus e a Mãe Santíssima já lhe perdoaram; agora espera também o vosso perdão.

— Sim, interrompeu o cego, estendendo as mãos e chorando, peço perdão, pois não posso descansar de dia, nem de noite… a minha consciência atormenta-me horrivelmente. Perdão, perdão por amor de Deus!

— Sim! Sim! Tudo está esquecido! Vinde! Vinde! — exclamou o povo com santo júbilo.

O cego acercou-se do poço, e puseram-lhe a corda nas mãos, a corda que ele devia puxar.

Já tinham descido ao fundo alguns homens, que acharam a imagem milagrosamente intata. Ataram-na fortemente e começaram o trabalho da subida ao cântico das Ladainhas.

Apenas a imagem apareceu à boca do poço ouviu-se uma explosão de regozijo; mas houve um grito que dominou todos os outros, e os fez emudecer. Era o cego que, de joelhos e de braços abertos, repetia:

— Vejo! Vejo! Recuperei a vista!

E com efeito via, e continuou a ver.

Seguiu sem guia a procissão que levou em triunfo a imagem, desde o poço onde fôra lançada, até o lugar de onde tinha sido tirada.

Trabalhou para a colocar ali ainda muitos anos, sendo testemunha irrecusável das misericórdias de Maria.

LIÇÃO
Sobre a Preparação para a Morte

É infinito o número dos insensatos. A maior parte dos homens são semelhantes àquele que cuidasse em preparar-se para uma longa viagem, só no momento da partida.

Parecem-se com o criminoso que ultrapasse o juiz, no ponto de ser sentenciado: ou formasse projetos de divertimentos na mesma ocasião em que era conduzido ao patíbulo.

Passai a vida pensando que ela há de acabar; passai-a meditando na eternidade que se lhe hei-de seguir, e vivereis cristãmente.

Muitas pessoas fogem de meditar na morte, porque a temem; o meio de não ter motivo de a temer, é meditá-la amiúdo e preparar-se continuamente para ela.

A vida santa adoça a lembrança da morte; e a lembrança da morte contribui para a vida santa.

Se fosse necessário morrer hoje ou amanhã, estaríeis preparados para comparecer diante do supremo Juiz? Que penitências tendes feito? Que merecimento haveis granjeado?

Aproveitai os dias que vos restam. Se não podeis fazer voltar os dias passados, podeis repará-los, e para isso é que Deus vos prolonga a vida.

Vivereis muito tempo? Morrereis dentro em poucos dias? Quem o sabe? O que sabemos é que o Senhor disse:

“Morrereis quando menos o pensardes!”

Se a toda a hora podeis morrer, deveis estar sempre preparados, deixando-vos penetrar bem da lembrança de que a morte é o momento decisivo da eternidade.

Pedi à Rainha do Céu tempo para vos dispordes a bem morrer e a graça de fazer todas as ações, como se cada uma delas houvesse de ser a última da vossa vida.

Para morrer santamente é necessário morrer com fé, esperança e caridade. Fazei destas virtudes frequentes atos, e seja esta a vossa principal disposição para a morte.

E lembrai-vos de que na morte não sabe o que é fazer atos de virtude quem se não sabe exercitou neles durante a vida.

Máxima Espiritual

“Não basta que nos preparemos para morrer quando chegar a morte; é necessário já estarmos bem preparados de longe” – Santo Afonso Maria de Ligório

Jaculatória

Regina Apostolorum, Regina Martvrum, ora pro nobis

Rainha dos Apóstolos, Rainha dos Mártires, rogai por nós

Agora se faz as Encomendações e outras Orações


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(SILVA, Pe. Martinho António Pereira da. Flores a Maria ou Mês de Maio consagrado à Santíssima Virgem Mãe de Deus. Tipografia Lusitana, Braga, 1895, 7.ª ed., p. 349-361)