Suscitabo mihi sacerdotem fidelem, qui juxta cor meum et animam meam faciet — “Eu suscitarei para mim um sacerdote fiel que fará tudo segundo o meu coração e a minha alma” (1 Sm 2, 35)

Sumário. São muitas as virtudes que adornaram a vida deste santo, mas a que mais o distinguiu e dele fez um sacerdote segundo o coração divino, foi o seu amor a Deus e ao próximo. Para o remunerar, também à vista dos homens, Deus o fez pai de uma família santa e numerosa, e o fez morrer vítima de amor, na festa do Corpo de Deus. Regozijemo-nos com São Filipe; agradeçamos por ele a Deus e, olhando em seguida para o estado da nossa alma, envergonhemo-nos da nossa tibieza.

I. Considera as virtudes que adornaram a vida deste grande santo e fizeram dele um sacerdote fiel segundo o Coração de Deus. Sabendo quanto a oração nos é necessária e quanto nos é recomendada nas Sagradas Escrituras, o santo fez dela a sua ocupação principal. Depois de visitar, durante o dia, as basílicas de Roma, ia à tarde para as catacumbas, onde, à imitação de Jesus Cristo, passava a noite em oração a Deus: Erat pernoctans in oratione Dei (1). Foi devotíssimo à Bem-aventurada Virgem, que ele chamava as suas delícias; e exortando os outros à mesma devoção, dizia: Meus filhos, se desejais obter a santa perseverança, sede devotos à Virgem.

Dessemelhante a tantos outros, que, escravos de seu corpo, o acariciam e tratam delicadamente, Filipe, ao contrário, o considerava como escravo do espírito, castigava-o e pelas mortificações o reduzia à servidão. Persuadido, além disso, de que a mortificação externa de nada vale sem a interna, aplicou-se com todo o empenho a reprimir as suas paixões. Em particular, no que diz respeito ao amor próprio, que é o nosso inimigo pior, é impossível dizer de que santos estratagemas usava a fim de ocultar as suas virtudes e fazer-se desprezar por todos.

Tão desconfiado estava de si mesmo, que todos os dias dizia a Deus: “Senhor, não Vos fieis em mim, que sou um perjuro. Senhor, segurai-me pela vossa mão, sem o que cometerei os maiores crimes”. Na sua profunda humildade recusou diversas vezes as dignidades eclesiásticas, e, julgando-se indigno do sacerdócio, não se fez ordenar senão por obediência. Regozija-te com o santo; mas examinando ao mesmo tempo a tua consciência, pergunta a ti mesmo: Como é que pratico a oração? Qual é a minha devoção à Nossa Senhora? Sou, à imitação de São Filipe, amante da mortificação e da humildade, inimigo da moleza e da ambição?

II. A virtude principal que fez de São Filipe um sacerdote fiel segundo o coração de Deus, foi o seu amor a Deus e ao próximo. Com efeito, ele pode dizer com o Apóstolo: Caritas Christi urget nos (2) — “A caridade de Cristo nos constrange”. O amor foi o princípio de todas as ações do santo e inspirou-lhe mesmo o desejo de ir para as índias a fim de pregar ali a fé e derramar o seu sangue por Jesus Cristo. Não lhe sendo isto permitido, quis o santo compensar-se pelo apostolado exercido em Roma. Ali o seu amor aumentou de tal modo, que o coração não pode conter-se dentro dos limites marcados pela natureza e foi preciso que Deus por um milagre lhe alargasse o peito, rompendo duas costelas.

Deus, porém, recompensou abundantemente o entranhado amor do santo, tanto nesta vida como na outra. Fê-lo participar do seu poder e da sua glória; deu-lhe uma santa e numerosa prole espiritual e o fez morrer vítima de amor na festa do Corpo de Deus. Se, à imitação do santo, queres morrer morte doce e suave, e ter com ele parte na glória, escolhe-o hoje para o teu protetor especial e roga-lhe por essas intenções; ao mesmo tempo, envergonhado da tua tibieza, resolve-te a imitar as exímias virtudes de São Filipe.

Ó glorioso São Filipe, que recebestes de Deus o dom singular de consolar e ajudar os vossos filhos espirituais na hora da sua morte, sede também o meu advogado e pai, quando me achar naquela hora tremenda. Alcançai-me que então o demônio não me vença, a tentação não me oprima e o temor não me desanime; mas que, fortalecido por uma fé viva, uma esperança firme e um amor sincero, suporte com paciência e perseverança os últimos combates; de forma que, cheio de confiança na misericórdia do Senhor, nos merecimentos infinitos de Jesus Cristo e na proteção de Maria Santíssima, seja digno de morrer da morte dos justos, e ir gozar da glória bem-aventurada do paraíso, a fim de amar e gozar a Deus para sempre juntamente convosco e com todos os santos (3).

“Ó Deus, que sublimaste São Filipe à glória dos Bem-aventurados, concedei-me que, celebrando com alegria a sua festa, me aproveite ao mesmo tempo dos exemplos das suas virtudes” (4). Fazei-o pelo amor de Jesus Cristo e pela intercessão de Maria Santíssima.

Referências:
(1) Lc 6, 12.
(2) 2 Cor 5, 14.
(3) Indulgência de 100 dias.
(4) Or. festi.

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(LIGÓRIO, Afonso Maria de. Meditações: Para todos os Dias e Festas do Ano: Tomo II: Desde o Domingo da Páscoa até a Undécima semana depois de Pentecostes inclusive. Friburgo: Herder & Cia, 1921, p. 333-336)