Caridade

17º Domingo depois de Pentecostes

In his duobus mandatis universa lex pendet et prophetae – “Nestes dois mandamentos está encerrada toda a lei e os profetas” (Mt 22, 40)

Sumário. Eis aí a bela resposta que Jesus deu ao fariseu que lhe perguntou sobre qual era o maior preceito da lei: “Amarás”, disse-lhe, “o Senhor teu Deus de todo o teu coração… Este é o máximo e o primeiro mandamento. E o segundo é semelhante a este: Amarás a teu próximo como a ti mesmo. Nestes dois mandamentos está encerrada toda a lei e os profetas.” Meu irmão, como é que praticas o grande mandamento da caridade? Amas a teu Senhor de todo o teu coração?… Amas a teu próximo como a ti mesmo?

I. Estamos no mundo não para entesourar riquezas, nem para obter dignidades, nem para granjear celebridade; mas unicamente para amar a Deus. O amor de Deus é aquela única coisa necessária da qual fala São Lucas, e tudo quanto não se faz para este fim é perder o tempo.

Eis porque Jesus Cristo respondeu ao fariseu que lhe perguntou qual era o preceito fundamental da lei: “Este é o máximo e o primeiro mandamento: Amarás ao Senhor teu Deus” – Diliges Dominum Deum tuum. – E explicando depois a maneira como o devemos amar, acrescenta:

“Amá-lo-ás de todo o teu coração, de toda a tua alma e de todo o teu entendimento.”

Como observa Santo Agostinho, estas três palavras significam que nenhuma parte de nossa vida ficou deixada a nosso alvedrio, e não nos é mais lícito pormos o nosso afeto em qualquer outra coisa que não seja Deus.

Devemos, pois, amar o Senhor com amor de preferência, isto é, preferi-lo a todas as coisas e estar prontos a perder antes a vida do que a graça divina. Com amor de benevolência, desejando vê-Lo amado de todos e pedindo ao Senhor pela conversão de todos aqueles que não O amam. Com amor doloroso, detestando os nossos pecados, não tanto por termos perdido o céu e merecido o inferno, como por termos ofendido ao Senhor que é a bondade infinita. Com amor de conformidade com a vontade divina, oferecendo-nos muitas vezes a Deus afim de que disponha de nós segundo a sua vontade. Devemos finalmente amar o Senhor com amor paciente, não nos importando mais nem com as ignomínias, nem com os sofrimentos, desejando mesmo sofrer e ser humilhados por amor de Jesus Cristo. É este o amor forte que dá a conhecer os verdadeiros amantes de Deus. Feliz de quem o possui!

II. Quem ama a Deus, amará necessariamente também a seu próximo, porquanto, no dizer de São Gregório, estes dois amores estão de tal modo unidos, que o segundo nasce do primeiro, e o primeiro alimenta-se do segundo. E acrescenta que um abrange o outro, pois que “são dois elos de uma mesma cadeia; dois atos de uma mesma virtude, dois títulos de mérito diante de Deus, que se encontram sempre acompanhados um do outro.”

Eis porque o Senhor, no Evangelho de hoje, depois de explicar o máximo e o primeiro mandamento do amor para com Deus, logo acrescenta, mesmo sem ser perguntado:

“O segundo é semelhante ao primeiro: Amarás a teu próximo como a ti mesmo.”

E conclui com estas palavras:

“Nestes dois mandamentos está encerrada toda a lei e os profetas.”

Como se dissesse que a estes dois mandamentos do amor se referem todos os demais, e que quem observa aqueles guarda também estes. Para que alguém saiba se ama a Deus, e a que degrau de perfeição tenha chegado, basta que examine de que modo ama a seu próximo.

Meu Deus, amo-Vos de todo o meu coração sobre todas as coisas, porque sois infinitamente bom e digno de ser amado. Por amor de Vós amo também a meu próximo como a mim mesmo. Do fundo de meu coração arrependo-me de todos os meus pecados e detesto-os porque Vos ofendi, ó bondade infinita. Proponho antes morrer do que ofender-Vos. – Mas Vós, ó meu Senhor, ajudai-me com a vossa graça, que Vos peço me concedais agora e sempre; e “fazei que eu evite os contágios diabólicos e continue a servir com pureza de alma a Vós, que sois meu Deus.” (1) † Doce Coração de Maria, sede minha salvação.

Referências:

(1) Or. Dom.

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(LIGÓRIO, Afonso Maria de. Meditações: Para todos os Dias e Festas do Ano: Tomo III: Desde a Décima Segunda Semana depois de Pentecostes até o fim do ano eclesiástico. Friburgo: Herder & Cia, 1922, p. 115-117)