9ª Carta Circular de Santo Afonso: Espírito Religioso... Avisos (Agosto, 1765)

Aos Reitores, Ministros e Superiores de Missões

Nota: O santo Fundador, apesar dos cuidados de seu munus episcopal, não abandona o governo da Congregação; quer estar informado a respeito de tudo; e, quando nota alguma irregularidade, corre logo com remédios oportunos. Temos nove cartas circulares daquele tempo. Na presente recomenda vivamente a observância da Regra.

Santa Águeda, 27 de agosto de 1765.

Vivam Jesus, Maria e José!

Irmãos diletíssimos em Cristo Jesus.

Com grande pesar acabo de ouvir que decaiu muito o espírito dos súditos da Congregação. Peço a todos que de hoje em diante tenham cuidado, pois não posso ver nem tolerar o relaxamento da observância. Ouço que a pobreza e a mortificação já não agradam. Mas será que viemos à Congregação para viver comodamente e regaladamente? Nesse caso, teria sido melhor cada um ficar em sua casa.Ouço, também, que a obediência aos Superiores está decaindo. Destruída a obediência, destruída está a Congregação. Desaparecendo a obediência, que será de nossas casas, senão redutos de inquietação, de desavenças e pecados?

Mandei vir aqui o Pe. Vigário, D. André Villani, e disse-lhe que não quero mais saber de faltas graves e notáveis, e quem se mostrar incorrigível será despedido. A Congregação não precisa de muitos religiosos, mas de religiosos que queiram fazer-se santos; e basta que fiquem dez apenas, contanto que amem a Deus verdadeiramente.

É ingratidão demasiada para com Deus, pois, estando ele a sustentar a Congregação, nós lhe pagamos com tal ingratidão. Queremos, porventura, tornar-nos como outros tantos, que têm servido à Igreja antes de escândalo que de edificação ?

Adverti o Pe. André que ele, no seu governo, é muito fraco e brando; e disse-lhe que nas coisas mais graves, eu mesmo quero ser ouvido. Peço, pois, a cada um que me avise sobre as desordens mais graves, quando, tendo avisado Pe. Villani, vir que ele não toma providência; por que, então, encontrarei eu o meio de remediar. Para isso é que Nosso Senhor ainda me conserva a vida.

Especialmente aos jovens recomendo que não alimentem tamanha ânsia de pregar. Quisera que tivessem mais ânsia de dar gosto a Jesus Cristo. Ninguém dê a entender que deseja pregar, a não ser quando lhe for ordenado pela obediência.

E peço a todos, especialmente aos jovens, que leiam e estudem o que tiverem de dizer em público, ainda que fosse apenas uma breve exortação à noite. Prega-se muitas vezes de improviso; por quê então nos queixamos, quando dizem que pregamos de maneira disparatada?

Todos os jovens, sem exceção, entreguem suas práticas a algum Padre entendido, como os Padres Caione, Rizzi e semelhantes, para serem revisadas. E depois, quando alguém tiver de pregar ou fazer a instrução, releia e estude atentamente o que vai dizer, a fim de que tudo seja bem ordenado e fundamentado, e não em frases estilizadas mas familiares, porque é este o estilo próprio dos missionários. E quem teimar em fazer o contrário, a esse será proibido pregar.

Antes de mais nada, é preciso mortificar-se e fazer o que é agradável a Deus, senão Nosso Senhor não nos ajudará, e pregaremos ao vento.

Abençoando a todos, abençoo especialmente os que têm boa vontade; porque, os de má vontade, embora eu não os amaldiçoe, terão a maldição de Deus, que os expulsará da, Congregação.

Irmão Afonso Maria do SS. Redentor Bispo de Santa Águeda

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(LIGÓRIO. Santo Afonso de. Cartas Circulares. Oficinas Gráficas Santuário de Aparecida, 1964, p. 62-65)