Os Sinos

Capítulo XVII

O edifício da catedral é sobrepujado pelas torres esbeltas, que se erguem no céu azul, como braços estendidos em súplica. Apontam para as regiões do Alto, a indicar o caminho que devem seguir as aspirações da nossa alma. Os cuidados terrenos, a preocupação das coisas mesquinhas da vida transitória fazem-nos propender para a terra. Mas a torre da Igreja, que vemos de toda a parte da povoação, está-nos dizendo, que procuremos as coisas que estão lá em cima, onde está Cristo assentado à destra de Deus; «experimentai as coisas que são lá de cima, não as que são da terra», como diz o Apóstolo. Firme e inabalável no meio das nuvens e dos ventos, ela exorta-nos a que sejamos inabaláveis e firmes na observância dos mandamentos de Deus e no cumprimento das boas resoluções que o nosso Anjo da guarda nos inspira.

Mas a torre não é um brado silencioso e mudo. A torre tem voz.

Alvorece; o dia começa a surgir na curva avermelhada do horizonte. Começa a despertar a povoação sonolenta. E das ogivas abertas na torre esguia ouve-se um som grave e melodioso, que se avoluma e propaga numa harmonia ondulada, cheia, quase diríamos circular, que avança sobre a cidade mal desperta numa crescente sonoridade. Voam no céu as aves madrugadoras. Aquela voz sonora desperta os homens, para que venham prestar ao Senhor as suas homenagens, que venham sagrar o dia, oferecendo a Deus as primícias dele, pela assistência ao Sacrifício incruento que vai celebrar-se.

Esta voz grave e doce, é a voz dos sinos.

Os sinos! Que mundo de recordações não acorda na nossa alma esta palavra mágica, que parece já de tintinábulo argentino! Quem não se lembra com saudade dos sinos da aldeia natal, tangendo às trindades, num fim da tarde, macio e doce, quando a população regressa do trabalho rude dos campos! O som pausado e cadente vai de quebrada em quebrada, acordando os ecos e levando aos corações a lembrança de Deus. O camponês para e descobre-se, pedindo a Deus que abençoe e torne fecundo o seu dia de trabalho. Nos lares as mães juntam em roda de si os filhinhos e ensinam-lhes a erguer as mãozitas e a invocar sobre si e os seus, com os lábios balbuciantes, as bênçãos da Mãe de Deus. Desta sorte, a voz dos sinos, que de manhã acorda os homens recordando-lhes o dever de se prostrarem ante a Eterna Vítima, à tarde tange, lembrando-lhes a obrigação de agradecer a Deus as graças que lhes concedeu durante o dia.

Admirável poder o da religião que a um bronze sonoro dá a faculdade de acordar na alma tão altos e poderosos sentimentos! E tão poderosa é esta voz, a sua ação exerce-se tão profundamente na alma, que o homem mais endurecido no crime se comove e por vezes chora, quando ouve a lenta harmonia dos sinos. Quantas vezes o criminoso não sentirá o remorso ao ouvir o tanger cadente das Ave-Marias! Quantas vezes o ateu se terá perturbado ao ouvir um dobre plangente de finados, dizendo:

«É, pois, certo que não há Deus nem há alma?»

Quantas vezes o homem de negócios, insensibilizado pela febre de ganhar, não pensará em Deus, ao ouvir um repique argentino e festivo, igual aos do dia inocente e longínquo da sua primeira comunhão! A voz dos sinos! Ela é verdadeiramente um emblema, um símbolo do salutar e irresistível influxo da voz de Jesus: a voz de Jesus perturbava as consciências torvas dos fariseus e era uma carícia para almas simples e boas; da mesma sorte o som dos sinos é para os justos uma linguagem de suaves e consoladoras harmonias e para os corações, que abandonaram a senda da verdade e da justiça, um eco do remorso.

O uso dos sinos no serviço divino é muito antigo. No Êxodo e no Eclesiástico se lê que o ephod do sumo sacerdote era adornado de campainhas. Notaremos, de passagem, que o uso de campainhas nos paramentos sacerdotais ainda hoje é vulgar na Igreja oriental. Além destas pequenas campainhas, os judeus tinham um verdadeiro sino, segundo rezam as tradições judiciais: era o Megeruphita, que os levitas tocavam em certas ocasiões e que se ouvia em toda a Jerusalém.

Durante os três ou quatro primeiros séculos, os fiéis eram obrigados a reunir-se para os exercícios do culto com o máximo segredo, não havendo por isso uso de sinos nesses tempos.

O uso do toque dos sinos para convocar os fiéis à assistência da Missa parece que foi introduzido no sétimo século pelo Papa Sabiniano. A sua introdução por São Paulino, bispo de Nola, na Campania (ano de 400), é tida pela maioria dos autores como pouco ou nada provável.

Nos primeiros tempos da liberdade da Igreja os fiéis eram convocados para o culto divino por um instrumento composto de uma tábua, que se percutia com um pesado martelo de madeira. Depois este instrumento começou a fazer-se de ferro. Ainda hoje é muito usado no oriente, onde os turcos proibiram ou proíbem ainda, em algumas partes, o som dos sinos. As matracas usadas na Semana Santa são certamente originadas no mesmo uso.

A Igreja abençoa tudo o que serve para o serviço divino. Os sinos são também naturalmente bentos ou antes batizados.

O primeiro fim dos sinos é anunciar os louvores de Deus. Por isso os fiéis são convidados por meio de sinos, de campainhas, a adorar o Santíssimo Sacramento no momento da Elevação da Missa, na Bênção e quando o Viático é levado aos enfermos. Em segundo lugar os sinos servem para convocar os fiéis e o clero para os ofícios divinos. Em terceiro lugar recordam-nos que devemos rezar pela alma dos nossos irmãos, que partiram para o Juízo de Deus, quando os seus dobres funerários nos soam aos ouvidos. Finalmente a Igreja benze-os com muitos outros intentos, principalmente com o fim de afugentar com o seu som os demônios, que, segundo o Apóstolo, vagueiam pelos ares e para preservar os fiéis, das tempestades e dos raios. Sendo os sinos um objeto bento pela Igreja. compreende-se que, a princípio, as ordenações eclesiásticas prescrevessem que só membros do clero os poderiam tanger.

A benção dos sinos — ou batismo, como também se lhe chama, porque com efeito recebem um nome e têm padrinho e madrinha — é uma cerimônia cheia de significação.

O sino é lavado interior e exteriormente para significar que é instrumento de uma pura e santa religião; e assim como o som é produzido por um bronze limpo e sagrado, assim as orações que a Deus dirigimos devem partir de um coração puro e santificado pela graça.

Em seguida o sino é ungido com óleo santo e crisma, como a criança no batismo. O óleo significa o poder do Espirito Santo e o crisma os méritos do Espirito Santo. As orações e Salmos, rezados nessa ocasião, imploram a Deus que quando o uso dos sinos chame as nossas almas à oração, Ele se recorde dos méritos do Seu Divino Filho e, por eles e pelo poder do Espirito Santo, nos livre dos demônios, afaste de nós as tempestades, e alivie os sofrimentos das almas do purgatório, todas as vezes que o sino dobre em funeral memória.

Ao sino é dado, como dissemos, o nome de um Santo. Isto tem por fim colocar o sino, bem como a Igreja, sob a proteção do Santo. E quando ouvirmos o sino, poderemos figurar-nos que é o Santo, que nos chama à oração.

Finalmente, um vaso com incenso é colocado sob a campanula do sino, significando as orações que a sua voz fará subir até Deus. Na linguagem da Sagrada Escritura, a oração é muitas vezes comparada aos odores do incenso.

A todas estas cerimônias assistem, como testemunhas, os vulgarmente chamados padrinhos.

Para concluir a cerimônia o diácono canta o Evangelho em que São Lucas relata a visita de Jesus a casa de Marta e Maria, para nos significar que devemos correr à Casa de Deus, quando ouvirmos o sino, com o mesmo ardente desejo com que Marta e Maria recebiam Jesus em sua casa.

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(E.D.M, Padre Paul Henry O’Sullivan. As Maravilhas da Santa Missa. Lisboa, 1925, p. 113-117)