Na Missa, Jesus renova a Sua Paixão

Capítulo IV

Dentre os mistérios de Jesus, nenhum há de mais útil recordação e mais digno de respeito, que a dolorosa Paixão pela qual nos resgatou. Os Santos Padres não se cansam de a comemorar e prometem, da parte de Deus, grande recompensa aos que Lhe prestam homenagem. Ora, se bem que os meios de prestar homenagem à Paixão sejam numerosos, pensamos que nenhum é sequer comparável à devota audição da Santa Missa, pois aqui a mesma Paixão se renova sobre o altar.

É certo que não nos é dado ver por nossos próprios olhos a reprodução dos sofrimentos de Cristo; mas na Missa, tudo nos lembra estes sofrimentos, tudo os simboliza. O sinal da cruz, o mais expressivo dos símbolos, em tudo se nos depara. Encontra-se cinco vezes gravado sobre a sagrada pedra, encontra-se em cima do altar, está desenhado no missal na página que precede o Canon, bordada no amicto, no manipulo, na estola, na casula, cinzelado na patena. O padre faz dezesseis vezes o sinal da cruz sobre si próprio e trinta e nove vezes sobre a oferta. Significativa rememoração!

Posto que Nosso Senhor tenha dito na última Ceia: «Fazei isto em memoria de mim», o Sacrifício da Missa não é uma simples memória, mas sim a memória e a renovação da Paixão ao mesmo tempo. Ensina-o o Concílio de Trento nestes termos:

«Se alguém disser que o Sacrifício da Missa não é senão a lembrança do sacrifício consumado na Cruz, seja anátema!»

E ainda:

«No divino Sacrifício está presente e imolado por forma incruenta o mesmo Cristo que a Si próprio Se ofereceu uma vez com efusão de sangue»

Se outros não tivéssemos, bastariam estes testemunhos, pois que somos obrigados a crer, sem discussão, o que a Igreja nos ensina.

Como esclarecimento acrescenta o Santo Concílio as seguintes palavras:

«Porquanto a vítima que se oferece pelo ministério do padre é a própria que um dia se ofereceu no altar da Cruz; sô é diferente a forma por que se opera o Sacrifício»

No Calvário Jesus foi imolado às mãos de ímpios, ao passo que, no altar, Se oferece misticamente pelas mãos do padre.

A Igreja emprega muitas vezes no missal a palavra imolar, immolare. Da mesma maneira se expressa Santo Agostinho:

«Cristo, não foi fisicamente imolado senão uma vez, mas é sacramentalmente imolado cada dia em benefício do povo»

Esta palavra imolar é digna de nota. Frequentemente se encontra na Escritura Sagrada para designar a oblação dos animais. Se, pois, a Igreja a emprega a propósito da Missa, é que nos quer assim mostrar que o Santo Sacrifício não consiste simplesmente na dicção das palavras do padre no momento da Consagração, nem na elevação das espécies sacramentais, mas realmente numa verdadeira imolação, ainda que mística, do divino Cordeiro.

«A Paixão de Cristo, segundo São Cipriano, é o próprio Sacrifício que oferecemos»

Que pode isto significar senão que, ao celebrar-se a Santa Missa, renovamos os fatos que ocorreram durante a Paixão do Salvador? São Gregório afirma-o ainda mais claramente:

«O Salvador, não torna a morrer fisicamente, mas sofre ainda por nós, no Santo Sacrifício, por forma misteriosa»

Teodoreto não é menos explícito:

«O Sacrifício que oferecemos é o mesmo que foi oferecido na Cruz»

Poderiam multiplicar-se os testemunhos; mas para abreviar, não invocaremos, por último, mais que o da Igreja; e esse é infalível. Lemos na Secreta do IX.° domingo depois de Pentecostes:

«Concede, Senhor, que dignamente frequentemos este Sacrifício, porque todas as vezes que ele se renova, executa-se a obra da nossa Redenção»

«Não é, com efeito, a Santa Missa, acontecimento diverso da renovação da nossa Redenção», escreve Mansi.

Molina acrescenta:

«A Santa Missa sobrexcede por forma incomensurável todos os outros sacrifícios, porque não é uma simples representação, mas a própria obra da nossa redenção, cheia de mistérios e realmente consumada»

Jesus imola-Se todos os dias. Porquê?

Demonstramos que Nosso Senhor, na Santa Missa, renova verdadeiramente a Sua Paixão. Falemos agora nos motivos que O inspiram. Excelentes considerações nos fornece a este proposito o Pe. Segneri:

«Já durante a Sua vida nesta terra, Cristo, em virtude da Sua presciência divina, via que, apesar da Sua dolorosa Paixão milhões de pecadores se perderiam. A dó que teve da infelicidade deles foi tanto, que pediu a Seu Pai para ficar suspenso na Cruz até ao dia do juízo final, a fim de poder, pelas Suas contínuas lágrimas, pela efusão do Seu sangue, pelas Suas orações, pelos Seus suspiros, aplacar a justa cólera de Deus, excitar a Sua misericórdia, conseguir enfim para essas inúmeras almas um meio de escaparem do abismo»

São Boaventura, nas suas meditações, o bem-aventurado Ávila, nos seus sermões, o Pe. Gautier, Andriès põem nos lábios do Salvador essa mesma oração. Mas há mais. Nosso Senhor, deu a conhecer muitas vezes que estava pronto a sofrer, pela salvação de cada pessoa, tudo quanto sofreu pela Redenção do mundo.

Seu eterno Pai, porém, não aquiesceu a este desejo. Respondeu que três horas eram duração já mil vezes maior que a necessária e que as pessoas a quem não aproveitassem os merecimentos da Paixão só a elas próprias se tinham de culpar da sua eterna perda.

Mas o amor de Jesus, longe de se extinguir ante esta recusa, nela, ao contrário, colheu novo ardor; e com ela o Seu coração mais O solicitou a acudir aos pecadores. Na Sua eterna sabedoria encontrou o divino Mestre um meio de ficar na terra depois da morte, de continuar a Sua Paixão e de rezar continuamente pela nossa salvação, como o faria pregado no instrumento do suplício. Este admirável meio, é o Santo Sacrifício.

Os Bolandistas narram que Santa Coletta ouvia todos os dias Missa com a maior devoção. Estando uma ocasião a assistir à Missa dita pelo seu confessor, ao chegar o celebrante à Consagração ela exclamou em voz alta:

«Ó meu Deus! Ó Jesus! Jesus! Ó vós Anjos e Santos e vós pecadores, vede e ouvi!»

Estas exclamações, que se prolongaram por alguns instantes, causaram à assistência tanta comoção, como surpresa. Depois da Missa, o padre perguntou-lhe porque é que assim tinha chorado e gritado.

— «Vi e ouvi, — respondeu ela — coisas tão admiráveis que V. Rev.ª se lhe tivesse sido dado vê-las e ouvi-las, talvez tivesse gritado ainda mais que eu»

— «E então, que viu»?

— «Ainda que estas maravilhas sejam tão elevadas, tão divinas, que pessoa alguma as pode exprimir, dir-lhe-ei no entanto que a razão humana pode compreendê-las. À elevação do Santo Sacramento, vi Cristo, como que suspenso na Cruz pelas Suas feridas sangrentas. E, nesta postura, implorava a Deus, dizendo: — Vede, Pai, o que fui na Cruz. Vede a forma por que sofri pelo mundo. Considerai as minhas chagas, a efusão do Meu sangue e deixai-vos comover pela minha Paixão e morte! Tudo isto padeci para salvar os pobres pecadores! E haveis Vós de abandoná-los a Satanás? Para que me servirão, nesse caso, tantos tormentos por que passei? Se eles se perdem, não só não poderei esperar, da sua parte, nenhuma gratidão, mas também blasfemarão do meu Nome por toda a eternidade, ao passo que me louvarão se se salvarem. Peço-Vos, portanto, meu Pai, que por amor de mim, tenhais piedade deles e os livreis do inferno»

É isto também o que ensina São Lourenço Justiniano:

«Cristo, ao ser oferecido no altar, dirige-Se a Seu Pai e mostra-Lhe as Suas chagas para que se digne salvar os homens das penas eternas»

Pede por nós todos, mas mais especialmente pelas pessoas que assistem ao Seu Sacrifício. E que efeito salutar não têm estes pedidos de Jesus? Quantas vezes as nações e os indivíduos não teriam rolado no abismo se Nosso Senhor não tivesse rezado por eles! Quantos milhares de pessoas, que hoje se encontram na bem-aventurança, estariam agora no inferno, se Cristo as não tivesse protegido pelas Suas súplicas todo-poderosas. Pecadores, vós todos que estais lendo estas linhas, ide, pois, ide com alvoroço à Missa, a fim de participar dos efeitos desta oração divina, a fim de serdes preservados dos males temporais e espirituais e para obterdes assim, aquilo que por vós próprios não podeis alcançar.

«Ninguém tem mais amor que aquele que dá a vida pelos seus amigos» — diz o Evangelho de São João. Como ninguém possui nada mais precioso que a vida nem coisa a que maior afeição dedique, aquele dom é, com efeito, o cúmulo da generosidade.

Jesus Cristo, no Seu amor pelos homens, excedeu contudo esse limite, pois que, não deu a Sua vida somente pelos Seus amigos, deu-a também pelos Seus mais cruéis inimigos. E que vida a Sua! A mais nobre, a mais santa que jamais existiu sobre a terra.

Notemos todavia a singular expressão de que se serve o Salvador. Ele não diz: Eu dei, mas sim, «Eu dou a minha vida pelas minhas ovelhas». Esta expressão é bem significativa e tocante: com efeito, graças à Santa Missa, a imolação de Jesus é sempre atual, todos os dias, a todas as horas, em todas as Missas.

Em alguns países era costume, herdado de velhos tempos, reproduzir a Paixão em drama. Atava-se a uma cruz um moço, que permanecia suspenso dela até que vesse decorrido tempo equivalente às horas durante as quais nela pendeu o Salvador. Entretanto, as várias circunstâncias da Grande Tragédia, eram representadas com mais ou menos correção e os assistentes comoviam-se até às lágrimas. Ora na Santa Missa, Jesus não confia a ninguém a representação das Suas tremendas funções: morre Ele mesmo, morre realmente e todas as vezes que é oferecido o sublime Sacrifício.

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(E.D.M, Padre Paul Henry O’Sullivan. As Maravilhas da Santa Missa. Lisboa, 1925, p. 23-28)