Lição 1: A 1Ts

As 1/2 Ts têm como tema central a segunda vinda de Cristo, que as primeiras gerações esperavam para breve. As cartas seguintes a 1/2 Ts se voltarão não tanto para a imagem do Cristo vindouro, mas para a do Cristo presente na sua Igreja.

1.1. O pano de fundo de 1Ts

Em At 17,1-10 é narrada a fundação da comunidade cristã de Tessalônica. Esta cidade era porto marítimo muito florescente na Grécia. A prosperidade material contribuía para baixar o nível moral da população respectiva: para Tessalônica confluíam homens, idéias e costumes do Oriente e do Ocidente, dando lugar ao cosmopolitismo, ao sincretismo religioso e à devassidão dos costumes.

Ao lado dos cultos pagãos, havia uma colônia judaica na cidade. Conforme o seu costume, Paulo, ao chegar a Tessalônica, foi primeiramente procurar os judeus na sinagoga, anunciando-lhes o Evangelho por três sábado consecutivos. Diante do pouco êxito obtido, Paulo voltou-se para os gentios da cidade, que aderiram fervorosamente ao Evangelho. Constituíram assim a comunidade cristã de Tessalônica, recrutada majoritariamente entre os pagãos. Irritados com os fatos, os judeus levantaram uma celeuma contra Paulo e Silas, obrigando-os a deixar a comunidade, ainda de catequese incompleta.

O apóstolo foi descendo pelo litoral da Grécia, chegando finalmente a Atenas. Nesta cidade, aflito para ter notícias de Tessalônica, Paulo resolveu mandar para lá seu discípulo Timóteo. Este, após visitar os fiéis tessalonicenses, voltaria para junto do mestre em Corinto, um pouco ao Sul de Atenas (cf. 1Ts 3,1s).

Em fins de 51, Timóteo tornou a se encontrar com Paulo, dando-lhe as informações desejadas, em parte boas, em parte sombrias.

De um lado, Timóteo relatava que os fiéis perseveravam na fé, apesar das perseguições sofridas da parte dos judeus (cf. 1,3.6-10; 3,4); a caridade dos fiéis impressionava os gentios da Macedônia (4,10). Em relação ao Apóstolo, conservavam vivo afeto, não obstante as calúnias difundidas pelos judeus (3,6); os tessalonicenses, contrariamente ao que diziam os judeus, sabiam que Paulo não era interesseiro explorador, mas trabalhara com as mãos dia e noite para poder sobreviver às próprias custas sem onerar os fiéis (2,3-19).

Doutro lado, havia que registrar nuvens: sob o peso da perseguição, alguns cristãos se entregavam ao roubo, à avareza e à luxúria (4,6s.11s). Mais: a população do Império Romano em geral aguardava uma catástrofe iminente, visto que o poder imperial, sob Calígula e Cláudio, homens fracos, ia declinando; tal expectativa era alimentada por notícias de terremotos, aparecimento de cometas, nascimentos de monstros entre os homens e os animais, aves de rapina pousadas sobre o Capitólio de Roma… isto tudo corroborava nos cristãos a expectativa, típica da Igreja nascente, de que Cristo voltaria em breve para pôr fim à história. Daí duas atitudes errôneas entre os fiéis: alguns deixavam de trabalhar, esperando ver o Senhor descer sobre as nuvens; pelo fato de não trabalharem, entregavam-se à imaginação e, na hora de comer, nada tinham; por isto, roubavam… Outros cristãos punham-se a pensar na sorte dos seus familiares e amigos já falecidos sem ter visto o Senhor Jesus em sua glória: ficariam excluídos do Reino de Deus? É bem possível que os tessalonicenses tenham apresentado tal pergunta ao Apóstolo.

Diante de tais informações, Paulo resolveu sem demora escrever aos fiéis, já que não os podia visitar pessoalmente (2,17s). Assim se redigiria a primeira página do Novo Testamento em fins de 51 ou começo de 52.

1.2. O conteúdo de 1Ts

A 1Ts é epístola marcadamente pastoral, em que o coração do pastor e pai se dirige aos filhos bem-amados para reconfortá-los (2,7-11). Daí a índole simples e familiar da carta; diríamos que o Apóstolo queria continuar por escrito os colóquios orais, que outrora iniciara nas casas dos tessalonicenses. Por isto muitas vezes lhes lembra a catequese oral:

“sabeis, bem sabeis, estais recordados, ainda vos lembrais…” (cf. 1,5; 2,1-2.5.9.11; 3,3s; 4,2; 5,2).

Toda a epístola foi escrita na perspectiva da segunda vinda de Cristo (em linguagem técnica: parusia)¹: 1,10; 2,12.19s; 3,13; 4,15; 5,23. Aliás, toda a vida cristã é concebida como expectativa do retorno de Cristo: 1,9s.

A epístola contém uma parte teológica importante: 4,13-5,11, seção em que o Apóstolo tenta dissipar as dúvidas dos fiéis relativas à parusia. Em 4,13-18 trata da sorte dos defuntos por ocasião da parusia, ao passo que em 5,1-11 disserta sobre a hora do retorno de Cristo.

Ler 4,13-18… São Paulo quer dizer que os fiéis defuntos nenhum prejuízo sofrerão pelo fato de já terem morrido, pois ressuscitarão e serão associados com os demais fiéis na glória do Senhor. Quatro pontos merecem nossa atenção nesta seção:

Em 4,13 a morte é comparada a um sono, como já ocorria no Antigo Testamento e entre escritores gregos clássicos. Este uso transparece ainda hoje no vocábulo “cemitério”, que vem do grego koimetérion, dormitório. Na verdade, para o cristão, a morte é apenas a passagem da vida peregrina para a vida em plenitude; não morremos, mas apenas trocamos de morada.

Em 4,16s ocorrem as imagens da “voz do arcanjo, da trombeta divina, do arrebatamento nos ares”, que não hão de ser tomadas ao pé da letra, porque pertencem à linguagem apocalíptica. Ver “Léxico Bíblico”, verbete “Apocalipse”.

Em 4,15.17 São Paulo propõe a doutrina de que não morrerão aqueles que estiverem vivos no dia do juízo final; serão glorificados corporalmente, sem passar pelo túnel da morte. A mesma doutrina ocorre também em 1Cor 15,51 e2Cor5,2.4. Há, pois, uma exceção para a lei da morte, exceção que beneficiará quem estiver presente à parusia.

Em 4,15.17 as expressões “nós que estivermos vivos” fizeram correr rios de tinta. Em síntese, exprimem a esperança que São Paulo tinha, de assistir ao fim dos tempos. Essa esperança não significava certeza, pois o Apóstolo mais de uma vez afirma que ninguém pode definir o dia da vinda do Senhor; cf. 1Ts 5,2.3; 2Cor5,9.

Ler 5,1-11… É precisamente o não-saber que inspira ao cristão uma atitude de vigilância permanente. Qualquer momento pode ser o definitivo; o Senhor virá como um ladrão durante a noite. Se não o virmos como juiz e consumador da história, nós o veremos como o esposo que virá chamar-nos para a ceia da vida eterna no dia “da nossa morte”. Por isto o cristão deve viver sempre na presença do Senhor, que lhe está presente, embora velado (mas prestes a se revelar a qualquer momento). Quem procede reta e santamente, nada tem a recear; é filho da luz, puro como a luz, e será chamado para a luz eterna.

“Consolai-vos, pois, e edificai-vos mutuamente” (5,11). A palavra final do cristão diante do mistério da morte é de plena confiança e esperança; já agora vivemos dos valores definitivos, que nos estão presentes, mas encobertos, à espera de ser descobertos.

Lição 2: A 2Ts

2.1. Pano de fundo

A 1Ts só em parte atingiu seus objetivos. Com efeito, dissiparam-se as dúvidas dos fiéis a respeito dos irmãos falecidos. Mas a questão do dia e da hora da segunda vinda de Cristo continuou a perturbar. O Apóstolo, em sua carta, deixava o assunto em suspenso, apenas admoestando todos à vigilância. Em conseqüência, alguns membros da comunidade, agitados, perturbavam os irmãos, afirmando que o dia do juízo estava às portas. Isto deixava muitos membros da comunidade apavorados, como pessoas cujos dias tivessem sido cortados drasticamente.

Para fundamentar sua afirmação, alguns se baseavam na palavra profética de um irmão carismático. Outros talvez apelassem para a própria carta de Paulo, onde liam: “Nós, os vivos, que estivermos presentes…”; ao escrever assim, pensavam, São Paulo não terá intencionado afirmar a iminência da parusia? Mas outros devem ter falsificado uma carta de São Paulo, apresentando-a como se fosse autêntica mensagem do Apóstolo… É o que se depreende de 2Ts 2,1s (neste contexto, “dia do Senhor” é uma expressão dos Profetas que significa o dia da consumação da história). Também é de notar 2Ts 3,17, onde o Apóstolo chama a atenção para a sua genuína assinatura.

As notícias de agitação da comunidade devem ter sido levadas a Paulo por cristãos que viajavam de Tessalônica a Corinto; como se compreende, estes também relataram o que havia de bom entre os irmãos (cf. 2Ts 1,3s; 2,16). Em conseqüência, Paulo quis logo escrever nova carta aos tessalonicenses: procuraria tranqüilizar os fiéis e exortá-los a trabalhar, pois a parusia do Senhor ainda estava distante. E, precisamente para provar essa distância, o Apóstolo apontaria algo de novo, ou seja, os sinais precursores da segunda vinda de Cristo; é a indicação destes sinais que caracteriza a 2Ts.

Deve ter sido curto o intervalo entre 1Ts e 2Ts, pois ambas reproduzem as mesmas preocupações. Daí colocarmos a 2Ts no ano de 52.

2.2. O conteúdo de 2Ts

O conteúdo da carta é breve e sistemático:

a) 1,1-12: elogio dos fiéis que perseveraram na prática do bem; conclui- se com oração

b) 2,1-17: os sinais precursores da parusia; conclui-se com oração (2,16s);

c) 3,1-16: exortações morais; termina com oração (3,16). A passagem principal é a de 2,1-12 (sinais…). Examinemo-la.

Tal seção é difícil, em parte porque supõe a pregação oral do Apóstolo, que não conhecemos:

“Não vos lembrais de que vos dizia isto quando estava convosco?” (2,5)

Como quer que seja, tentemos compreender.

Em síntese, o Apóstolo diz que

  • os fiéis não se devem deixar perturbar (2, 1s);
  • antes que o Senhor venha, deverão ocorrer grande apostasia e o aparecimento do Homem do Pecado (2,3s);
  • há, porém, um obstáculo (neutro e masculino, conforme o texto grego) que impede o aparecimento do Iníquo (2,6s);
  • todavia o obstáculo (que age como dique) será retirado e o Pecador fará sua “parusia”, com toda espécie de prodígios (2,6s.9-1 2);
  • o Senhor Jesus vencerá o Iníquo (2,8).

Mais precisamente: o Apóstolo aponta dois sinais que devem anteceder o fim dos tempos a grande apostasia e o surto de famoso Pecador.

A apostasia é predita também em 2Tm 3,1 -1 0; será uma das expressões mais evidentes do mistério da iniqüidade, que se exerce em todos os tempos (2,7).

Essa apostasia será provocada por um ser chamado “o ímpio, o Adversário, o Filho da Perdição”². É muito difícil dizer se se trata de um indivíduo ou de uma coletividade; será, sem duvida, uma violentíssima manifestação do mal no mundo, marcada por muitos portentos sedutores, que deixarão os homens boquiabertos e dispostos a aderir ao mal envernizado por aparentes milagres.

Eis, porém, que o mistério da iniqüidade não se expande agora de maneira plena, porque há um obstáculo que o detém. Este é de gênero neutro (to katéchon, 2,6) e masculino (ho katéchon, v. 7) e já dura quase dois mil anos, pois desde os tempos de São Paulo detém a explosão do mal. Que obstáculo será esse, tão duradouro e tão poderoso? Muitas sentenças têm sido proferidas, das quais destacaremos duas:

a) conforme Dn 10,21; 12,1, Miguel e seus anjos são os tutores do povo de Deus. Ora é possível que Paulo tenha pensado em Miguel (obstáculo masculino) e seu exército (obstáculo neutro)…

b) tratar-se-ia do próprio Deus e do plano salvífico da Providência Divina.

A escolha é livre. O que imporia frisar é que a oração assídua e a fidelidade ao Senhor Deus são os meios mais eficazes para nos precavermos contra as seduções do mal neste mundo. S. Agostinho diz sabiamente que o demônio é como um cão acorrentado que pode ladrar muito alto, mas que não morde senão a quem se lhe chega perto. A palavra final da história será a de Cristo.

A propósito, ainda uma reflexão. Não só nos tempos de S. Paulo, mas também hoje os homens esperam o fim dos tempos para breve, disseminando “profecias”… Diante deste fenômeno, lembremo-nos de que o Apóstolo quis dissuadir os fiéis de procurar saber a data do fim do mundo; Jesus também se recusou a tais profecias (cf. At 1,7). Mais importante do que a data do fim do mundo é o encontro pessoal de cada um com o Senhor no dia da “morte”; este não está longe; cada um o experimentará, e será decisivo.

O Apóstolo, em síntese, quer induzir seus leitores a evitar os devaneios da mente, pois estes levam à ociosidade, que, por sua vez, leva ao roubo e aos crimes:

“Quem não quer trabalhar, também não há de comer” (2Ts 3,10).

Encerra-se assim o estudo de 1/2Ts: tratam do tema mais presente às primeiras gerações – o da volta do Senhor Jesus. Para nós, este tema implica, antes do mais, o encontro pessoal com o Cristo que, no fim desta carreira terrestre, virá chamar cada um para a ceia da vida eterna; Ele será (como, aliás, já é através dos véus da fé e dos sacramentos) a grande resposta a todos os nossos anseios.


Referências:

1) Parusia designava, na linguagem do Império greco-romano, a visita do Imperador a determinada cidade, acontecimento faustoso e benéfico para a população visitada. Os cristãos assumiram este termo da linguagem civil, para designar assim o retorno de Cristo ao mundo como Senhor da história.

2) Notemos que São João fala de Anticristo(s) (cf. 1Jo 2,18.22), mas em sentido mais amplo, compreendendo todo aquele que, em qualquer época, negue a Messianidade de Jesus.

Perguntas sobre as Cartas aos Tessalonicenses

1) Qual o tema dominante de 1/2Ts? Porquê?
2) Em que circunstâncias foi fundada a comunidade de Tessalônica?
3) Qual a sorte dos falecidos por ocasião da parusia ? Explique 1 Ts 4,13-17.
4) Quais os frutos de 1Ts na comunidade de Tessalônica?
5) Como o Apóstolo define os sinais precursores da segunda vinda de Cristo ?
6) Para cada um, qual o fruto da discussão sobre a parusia do Senhor?