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A Satisfação

Meditação para a Quinta-feira da Quarta Semana da Quaresma. A Satisfação

Meditação para a Quinta-feira da Quarta Semana da Quaresma

SUMARIO

Meditaremos sobre a terceira parte do Sacramento da Penitência, a satisfação de obra, e veremos:

1.° A sua importância;

2.° A sua extensão;

3.° A maneira de a cumprirmos.

— Tomaremos depois a resolução:

1.º De cumprirmos a nossa penitência o mais cedo possível após a confissão, acompanhando-a
de um grande desejo de nos tornarmos melhores;

2.º De sofrermos de bom grado todas as tribulações que a Providência nos enviar, e de lhes juntar algumas mortificações voluntárias, por exemplo, nas nossas refeições, na nossa curiosidade ou desejo de ver, na busca das nossas comodidades.

O nosso ramalhete espiritual será a palavra do concílio de Trento:

“Toda a vida cristã deve ser uma perpetua penitência” – Tota vita christiana, perpetua debet esse paenitentia

Meditação para o Dia

Adoremos Jesus Cristo satisfazendo pelos nossos pecados, e neste intuito abraçando uma vida de sofrimento. Nasce em uma extrema pobreza, vive em um contínuo trabalho, e morre nos mais cruéis tormentos. Ó admirável modelo de penitência! Belo exemplo para os que, animados do zelo da justiça de Deus contra eles mesmos, querem satisfazer-lhe plenamente pelos seus pecados.

PRIMEIRO PONTO

Importância da Satisfação depois do pecado até perdoado

Toda a culpa merece uma pena, toda a injúria uma reparação. O nosso pecado merecia uma pena eterna; pelo Sacramento da Penitência Deus muda-a em uma pena temporal.

«Vós perdoais, Senhor, diz Santo Agostinho, ao pecador que confessa a sua culpa, mas com a condição que se castigará a si mesmo» – Ignoscis confitenti, sed seipsum punienti

E que coisa mais justa? É equitativo que o inocente, que o Homem-Deus padeça pelo pecado a morte mais cruel, e que o culpado receba o preço de sua morte sem tomar parte na expiação? São Paulo não o pensava, quando dizia:

“Cumpro na minha carne o que resta a padecer a Jesus Cristo” – Adimpleo ea quae desunt passionum Christi in carne mea (Col 1, 24)

“Padeçamos com Jesus Cristo, para que sejamos também com Ele glorificados” – Si compatimur, ut te conglorificemus (Rm 8, 17)

A Igreja não o pensa tão pouco, quando chama à penitência um batismo laborioso, que só justifica a alma com a condição de muitas lágrimas e trabalhos (1). Por conseguinte Deus em Sua bondade perdoa; mas em Sua justiça exige uma satisfação. A satisfação do homem é incapaz pelo seu só mérito de satisfazer a Sua justiça, mas em Sua bondade autoriza o homem a valer-se das obras satisfatórias do Salvador, unindo-lhes às Suas e apropriando-se com esta união o seu valor infinito. Por isto a justiça e a bondade são plenamente satisfeitas.

Adoremos e louvemos esta admirável economia da sabedoria divina.

SEGUNDO PONTO

Extensão da Satisfação devida ao pecado perdoado

Se a penitência imposta pelo confessor é de ordinário levíssima, é unicamente com receio de desanimar o penitente, exigindo mais; mas na realidade é devida uma outra satisfação. Deve-se a Deus, diz Tertuliano, uma penitência que seja uma compensação e como um compendio das penas eternas (2). E o concílio tridentino acrescenta que toda a vida cristã deve ser uma perpétua penitência (3). Se Deus perdoa a Adão e Davi, não é senão com a condição que lhes serão infligidas terríveis penas, a um em si mesmo e em toda a sua posteridade, ao outro em sua pessoa e em seu povo. Os santos, tendo recebido o seu perdão, não se entregam menos durante toda a vida a austeras penitências: finalmente os justos no purgatório, ainda que Deus lhes perdoe, nem por isso têm a sofrer menos penas, em comparação das quais são leves todas as penalidades da vida. Ó justiça de Deus, quão rigorosa sois, e quão inimigos somos de nós mesmos, fazendo tão pouca penitência neste mundo!

TERCEIRO PONTO

Maneira de Satisfazer a Deus pelos nossos pecados

1.° Devemos cumprir à risca a penitência imposta pelo confessor. Como parte integrante do Sacramento, são-lhe anexas graças particulares; e por outro lado, omiti-la, seria mutilar o Sacramento e ofender por isso mesmo a Jesus Cristo. Demorá-la, seria demorar o seu mérito, que nos serviria para melhor viver; seria diminuir esse mérito com pecados veniais, que cometêssemos no intervalo; seria até perde-lo inteiramente, se neste, intervalo caíssemos em pecado mortal. Seria finalmente faltar ao fim da penitência, pois que muitas vezes não é dada como preservativo contra a recaída, ou remédio contra o nosso mal, ou meio de santificar certos dias festivos.

2.º Devemos receber esta penitência com respeito e submissão, como imposta por Jesus Cristo na pessoa do Seu ministro, julgá-la infinitamente inferior ao que merecem os nossos pecados, e cumpri-la devotamente, com grande desejo de uma vida melhor e a dor do passado.

3.° A esta penitência sacramental devemos juntar o sofrimento de todos os trabalhos da nossa posição ou do nosso estado, de todas as enfermidades do nosso corpo, das intempéries das estações, dos defeitos do próximo, aceitando todas as penalidades na vida por espírito de penitência, e repetindo muitas vezes conosco:

Que é isto em comparação do inferno, onde merecia arder sempre?

4.° Finalmente devemos, com o mesmo espírito de penitência, renunciar aos regalos e prazeres sensuais, aos divertimentos perigosos, à curiosidade, à vontade própria, ao amor-próprio, ao gênio, gostar de cumprir o nosso dever e privar-nos do mais, dizendo com esse penitente, a quem propunham que se entregasse diversões, aos banquetes e ao jogo:

«Deixo estas coisas às almas justas; quanto a mim que pequei e estou ainda em perigo de pecar, a minha sorte é gemer e fazer penitência» – Ista felicibus; quo mihi balnea, epulae, convivia, qui in Dominum peccavi ed periclitor in aeternum perire (São Paciano, ap; Baron.)

Pomos nós em prática estas diferentes maneiras de satisfazer à divina justiça?

Resoluções e ramalhete espiritual como acima

Referências:
(1) Ad novitatem et integritatem per sacramentum paenitentiae, sine magnis flectibus et laboribus pervenire nequaquam possumus (Concílio Tridentino, sess. 14, c. 11)

(2) Paenitentia compendium ignium aeternorum

(3) Tota vita christiana, perpetua debii esse paenitentia

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(HAMON, Monsenhor André Jean Marie. Meditações para todos os dias do ano: Para uso dos Sacerdotes, Religiosos e dos Fiéis. Livraria Chardron, de Lélo & Irmão – Porto, 1904, Tomo II, p. 171-175)

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