Categoria: Tesouros de Cornélio à Lápide (Page 2 of 7)

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Discórdia

Discórdia, Tesouros de Cornélio à Lápide

Causas da discórdia

Donde provém as guerras e os pleitos entre vós?, pergunta o Apóstolo São Tiago. Não são vossas paixões que combatem em vossa carne? Unde bello et lites in vobis? Nonne hinc, ex concupiscentiis vestris quae militant in membris vestris? (Tg 4, 1).

A discórdia é infernal e diabólica; emana de Lúcifer, que foi o primeiro a introduzi-la entre os Anjos no Céu.

Uma das fontes da discórdia é a cobiça e avareza, fundando-se, na maioria das vezes, nas palavras: o teu… e o meu.

Outro manancial de discórdias é o orgulho, dizem os Provérbios: Inter superbos semper jurgia sunt (Pr 13, 10). Continue reading

Dignidade do homem

Dignidade do homem, Tesouros de Cornélio à Lápide

O homem é criado à imagem de Deus

Deus tirou o universo do nada: um só sinal de sua vontade, aquela única palavra fiat (“faça-se”) bastou. Para governar a este universo faltava um chefe, um rei. Tudo já existia, menos aquele rei que devia reinar sobre todo a criação, posto que tudo fora criado para ele.

Então, a Augusta Trindade entrou como em conselho, e pronunciou logo solenemente a seguinte decisão: Faciamus hominem ad imaginem et similitudinem mostram – Façamos o homem à nossa imagem e semelhança (Gn 1, 26). Somente o homem foi criado à imagem de Deus. Por isso, o homem é a finalidade, o objeto do mundo criado.

Clemente de Alexandria chama ao homem de Planta Celestial: Planta coelestis (Lib. Strom.); porque tem suas raízes no Céu. As plantas têm suas raízes na terra; porém, o homem tem sua raiz em regiões superiores; a árvore nutre-se da terra; porém, o homem não pode viver senão do Céu.

Que maior honra poderia apetecer ao homem, questiona Santo Ambrósio, que o haver sido criado à imagem de seu Criador? Quis major honor homini potuit esse, quam ut ad similitudinem sui factoris conderetur? (Lib. De Dignit. Humanae Condit., c. III).

Se examinarmos fielmente e com prudência a origem de nossa criação, diz o Papa São Leão, veremos que o homem foi feito à imagem de Deus, a fim de que imite a seu divino Autor; pois a dignidade de nossa raça consiste em que a semelhança da Divindade brilhe em nós como em um espelho[1].

Homem animal, que te rebaixas até fazer-te semelhante aos animais selvagens; e muitas vezes, até fazer-te inferior a eles, e invejas seu estado, é necessário que hoje compreendas tua dignidade pelas admiráveis singularidades de tua criação e pelas outras honras que te foram tributadas. Vós fostes criados, não como as outras criaturas, por uma palavra de mandato: Fiat, Faça-se; mas por uma palavra de conselho: Faciamus, Façamos.

Deus toma conselho Consigo mesmo, como quem pretende fazer uma obra prima. Antes do homem, tudo o que Deus havia criado no universo era incapaz de conhecer, amar, servir a seu Criador e de possuí-Lo. Deus deu ao homem todas estas prerrogativas divinas, por cuja razão, para formá-lo, não Se propôs outro modelo senão a Si mesmo.

Por meio destas palavras: “Façamos ao homem à nossa imagem e semelhança”, Deus expressa todas as formosuras do homem e, ademais, todas as riquezas que lhe deu com sua graça, entendimento, vontade, retidão, inocência, conhecimento claro de Deus, amor infuso deste Primeiro Ser, e segurança de gozar com Ele da mesma felicidade.

Façamos o homem”… a estas palavras aparece a imagem da Augusta Trindade, Pai, Filho e Espírito Santo.

Semelhante ao Pai, tem o ser; semelhante ao Filho, tem a inteligência; semelhante ao Espírito Santo, tem o amor. Deus tem a inteligência, a vontade, o amor. O homem, feito à imagem de Deus, possui também a inteligência, a vontade e o amor. Eis aqui a imagem da Santíssima Trindade; é o cumprimento daquelas palavras: Façamos ao homem à nossa imagem e semelhança – Faciamus hominem ad imaginem et similitudinem nostram (Gn 1, 26).

O homem parece-se com Deus por três conceitos:

1.° Por natureza, porque somos de uma natureza racional e inteligente, assim como Deus é também razoável e inteligente;

2.° Pela graça, que, diz São Bernardo, consiste nas virtudes; e

3.° A semelhança perfeita e infinita com Deus terá lugar no céu, com a Presença e a Glória beatífica.

Tributemos a honra que é devida, diz São Gregório Nazianzeno, à imagem de Deus que está em nós; reconheçamos nossa dignidade: Imaginem Deus imagini reddamus, dignitatem nostram agnoscamus (Serm. de Nativit.).

A imagem natural de Deus está na alma, que é espírito, que não é material, que é ágil, imensa, inteligente, livre, imortal. Esta imagem de Deus é natural no homem; não se pode ter perdido pelo pecado de Adão; porém, perdeu sua formosura e perfeição.

É outra imagem de Deus no homem, uma imagem sobrenatural, que consiste na graça e justificação do homem, pela qual o homem faz-se partícipe da natureza divina; e esta imagem será cabal na glória e na vida eterna. Porque a graça, diz Santo Agostinho, é a alma da alma: Gratia est anima animae (Trat. de Cogn. Verae Vitae).

Adão foi criado nesta graça, que é uma verdadeira imagem de Deus. Esta semelhança da alma com Deus pela graça depende da vontade do homem; pecando, perde-a; porém, pela graça e pela justificação, volta a encontrá-la e reabilita-se.

Somente o homem foi criado à semelhança de Deus. O sol, que tão resplandecente é e belo não está feito à imagem de Deus. A lua e a estrelas, que adornam o firmamento, não foram feitas à imagem de Deus. A terra e suas variadas produções não foram, tampouco, feitas à imagem de Deus. O vasto Oceano, apesar de sua imensidade, não foi feito à imagem de Deus. Somente o homem e o Anjo possuem essa prerrogativa infinitamente preciosa.

Ó homem, exclama São Pedro Crisólogo, por que, sendo tão honrado por Deus, desonras a ti mesmo? Por que és tão vil a teus olhos, tu, tão grande e precioso aos olhos de Deus? Não vês que, ao desonrar-te, desonras a Deus, cuja imagem és? (Serm.).

Preço inestimável do homem

Esta natureza racional do homem, que constitui a imagem de Deus, encerra seis qualidades principais, seis propriedades excelentes:

1.a A alma é espiritual e indivisível, como Deus também é espírito indivisível;

2.a A alma é imortal;

3.a Está dotada de inteligência, vontade e memória;

4.a Goza do livre arbítrio;

5.a É apta para a sabedoria, a virtude, a graça, a beatitude, a visão de Deus e todo o bem;

6.a A alma preside e domina, com seu poder, tudo no homem e na criação; e acrescente-se uma sétima propriedade:

7.a Assim como todas as coisas estão eminentemente contidas e encerradas em Deus, assim também se acham todas as coisas no homem. Com sua inteligência, de tudo se apropria, porque representa em seu espírito uma imagem ou semelhança de tudo o que há. As coisas mais preciosas, diz São João Crisóstomo, não se podem comparar a alma, nem tampouco o mundo inteiro: Nullius rei pretium est cum anima conferendum, ne totus quidem numdus (Homil. III, in Epist. ad Cor.).

Jamais tivéssemos conhecido nossa grandeza, não haveríamos tampouco compreendido jamais nosso alto destino, sem o auxílio da revelação da Sagrada Escritura.

O Senhor Deus, diz o Gênesis, derramou sobre o rosto do homem um sopro de vida, e este tornou-se o homem vivente com alma racional: Dominus Deus inspiravit in faciem ejus spiraculum vitae, et factus est homo in animam viventem (Gn 2, 7).

E não é que Deus tenha boca, como os homens, para dar um sopro; mas a Escritura fala assim para dar-nos a entender que Deus estima a alma e a quer como uma emanação de Sua própria vida. É bem verdade que tirou nossa alma do nada, como o fez a todas as demais criaturas; porém, ao revelar-nos o Espírito Santo que foi um sopro divino, quer nos dizer que Deus a produziu com um afeto tão particular e tão terno, que é como se a houvesse tirado das regiões de Seu Coração.

Ademais, a Sagrada Escritura não nos diz que Deus fez nossa alma com suas mãos, como nosso corpo, nem que a tenha criado falando, do modo como criou a todos os demais seres; mas respirando, aspirando, para dar-nos a entender que é como se houvesse dado nascimento a uma queridíssima concepção que lavara em Suas entranhas durante toda a eternidade.

É como se a Sagrada Escritura dissesse que a alma procede do interior de Deus, assim como a respiração ou o sopro não é mais do que uma saída ou entrada contínua de ar que vai a visitar o coração,… não lhe deixa mais que um breve momento, e logo volta a ele a ponto de refrescá-lo e conservar-lhe a vida. Da mesma maneira, nossa alma não saiu de Deus senão para voltar a entrar Nele; Ele não a expirou senão para voltar a aspirá-la novamente. Pois, se ela aliviou, de certo modo, o Seu coração ao sair Dele, parece que O alivia e O consola, de certo modo, quando ali mesmo volta por alguma amorosa inspiração. Ó se soubéssemos o que significa a nossa alma para o coração de Deus! Não pode viver sem ela; o mesmo Deus não está contente sem ela!

Vede o laço admirável que Deus quis fixar entre seu Espírito e o nosso.

O Espírito Santo é uma sagrada emanação do coração de Deus, emanação que o cumula de uma maneira infinita em Si mesmo; e nossa alma é um sopro de Deus, sopro que Lhe dá complacência até fora de Si mesmo. O Espírito Santo é a última das inefáveis produções de Deus em Si mesmo; e nossa alma é a última de todas as admiráveis produções de Deus fora de Si mesmo.

A alma está tão admiravelmente elevada acima do corpo, que se pode dizer que se aproxima mais de Deus que Lhe criou, que ao corpo ao qual está unida. E, para dizer a verdade, somente ela, entre todas as criaturas da terra, tem alguns rasgos visíveis das perfeições de Deus; ela é mais elevada que o Céu, mais profunda que o abismo, mais vasta que o universo, ela é tão duradoura como a eternidade.

  • Deus é espírito, e a alma é espírito;
  • Deus é simples e indivisível, e a alma é simples e indivisível;
  • Deus é imóvel, tudo põe em movimento e vivifica, e a alma age igualmente em relação ao corpo ao qual anima;
  • Deus é inteligente, e a alma é inteligente;
  • Deus quer, e a alma quer;
  • Deus ama-se, e a alma, amando a Deus, ama-se verdadeiramente a si mesma;
  • Deus fez todas as coisas, e a alma opera, e os limites de sua ação não se podem assinalar;
  • Deus é livre e domina todas as coisas criadas, e a alma tem o livre arbítrio, e segundo sua vontade, move os membros do corpo;
  • Deus tudo tem presente em Sua memória, e a alma possui também esta faculdade;
  • Deus é onipotente, e o homem, se o quer, dispõe do poder divino, faz coisas admiráveis e compreende outra multidão de coisas na extensão de seu espírito;
  • Deus é o fim de todas as coisas, e o homem é o fim de todas as criaturas;
  • Deus está todo no mundo e todo em cada parte do mundo; e a alma também rege o corpo, e está inteira no corpo, e inteira em cada um de suas partes.
  • Além disso, o que é mais perfeito, como Deus Pai, conhecendo-se com sua inteligência, produz o Verbo, seu Filho, e amando-O, produz ao Espírito Santo; assim também o homem, conhecendo-se, produz em sua alma um palavra inteligente, expressão de si mesmo, e dali procede o amor em sua vontade, diz Santo Agostinho (Serm. XXIV, de Temp.).

A alma participa da nobreza, do domínio, da sabedoria, da grandeza de Deus e de seu divino Espírito.

Não vos admireis, pois, que Santo Agostinho diga que salvar a uma alma é coisa maior que criar o Céu e a terra (Serm. XXIV, de Temp.). De todas as profissões, a mais divina é a de ser cooperador de Deus, dedicado a levar as almas a seu Criador.

Se separais, diz o Senhor por meio de Jeremias, o que tem muito preço daquilo que é depreciável, sereis, de certo modo, a minha boca: Si separaveris pretiosum a vili, quase os meum oris (Jr 15, 19).

A alma é uma pedra preciosa que vale mais que o mundo inteiro; porque, feita à imagem de Deus, participa do mesmo Deus; é como parte de sua aspiração divina. Por este motivo, Santo Agostinho e Santo Tomás ensinam que a conversão e a justificação do pecador é mais difícil, maior e mais admirável que a criação do mundo.

São João Crisóstomo ensina que converter uma alma é um dom maior e mais agradável a Deus que Lhe erigir um templo. Por mais considerável que sejam as quantidades de dinheiro que se consagram a construir um templo magnífico, nada são quando comparadas com a salvação de uma alma e com seu valor. Salvar a uma alma é uma esmola maior que dar dez mil talentos, que dar o universo mesmo, se isso fosse possível; porque uma alma é mais preciosa que tudo quanto existe; é de um valor infinito, posto que custou o Sangue de um Deus; e tudo foi feito para o homem, o Céu, a terra, os mares, o sol, as estrelas, os animais, as plantas, os vegetais e os minerais.

Ainda quando toda a terra se transformasse em ouro puro, diz Fílon, ou ainda quando se tornasse outra coisa, todavia, mais rica, e todos os arquitetos, todos os joalheiros, empregassem todo esse rico material para levantar pórticos, vestíbulos e palácios a Deus, nem sequer tudo isso seria digno de servir de escabelo a seus pés; e uma alma em estado de graça é digna de receber-Lhe e hospedá-Lo (Lib. de Cherub.).

Império do homem

Senhor, diz o Rei Profeta, colocastes ao homem quase ao pé de igualdade com os Anjos; o e coroastes de glória e de honra; Vós lhe destes o império sobre todas as obras de vossas mãos: Minuisti eum paulo minus eum supera b angelis, gloria et honore coronasti eum, et constituisti eum super opera manuum tuarum (Sl 8, 6).

Tudo o pusestes a seus pés: os rebanhos, os animais do campo, as aves do Céu, os peixes do mar que tem suas ondas: Omnia subjecisti sub pedibus ejus; oves et boves universas, insuper et pecora campi, volucres coeli et pisces maris qui perambulant semitas maris (Sl 8, 8).

Tudo vos pertence, disse o grande Apóstolo aos Coríntios; vós, entretanto, sois de Jesus Cristo, e Jesus Cristo é de Deus, seu Pai: Omnia vestra sunt, vos autem Christi, Christum autem Dei (1 Cor 1, 22-23).

A alma no homem é diretora e dona, reina sozinha, não somente sobre todos os membros, senão ainda sobre todos os sentidos, as paixões, os pensamentos e os desejos. Assim, pois, é preciso que refreie suas concupiscências e seus desregrados apetites, e que não se deixe jamais governar e dominar por eles. Refreai vosso corpo com a razão, como diz São Basílio, assim como o escudeiro refreia seu cavalo com o freio (Homil. X).

Façamos o homem, disse o Senhor, à nossa imagem e semelhança, e domine aos peixes do mar, e às aves do Céu, e às feras, e a toda a terra, e a todo réptil que se mova sobre a terra (Gn 1, 26). Deus fez, portanto, o homem como rei de todas as coisas; o palácio do universo foi construído e adornado para o homem-rei.

O mundo é o templo de Deus; o homem é seu sacerdote para orar e dar graças a Deus em nome de todas as criaturas; pois, somente ele possui a razão e a palavra. Todas as criaturas põem suas riquezas aos pés do homem-rei; elas mesmas oferecem-se a seu serviço; porém, dizem: Estamos sob as tuas ordens; leva ao trono de Deus tuas adorações por nós e por ti. Tudo é teu; usai-o por Deus, e também dá graças por tudo a Deus, que nos criou para ti. Nosso fim é servir-te, e o teu, ó homem, que és nosso rei, é o de servir a Deus.

O homem, diz Santo Ambrósio, foi criado por último por justíssimas razões: havendo tudo sido feito para servir ao homem, tudo devia preceder-lhe para tributar- lhe homenagem e oferecer-se às suas necessidades. Foi feito por último como para reunir em si mesmo todo o universo, como sendo a causa do mundo para a qual tudo foi feito, como tendo por propriedade todos os elementos e morando neles. Vive entre as feras selvagens, nada com os peixes, voa sobre os pássaros, e trava conversação com os Anjos; habita a terra e sobe ao Céu; atravessa os mares, e, cultivador da terra, peregrino sobre as ondas, pescador nas águas e atravessando os ares, é o herdeiro e o dono da terra e do Céu (Lib. VI, Epist. XXXVIII).

Não cabe dúvida que o homem foi feito para reinar. Por que, portanto, ó homem-rei, exclama São Basílio, fazes-te escravo de tuas miseráveis inclinações? Por que te fazes escravo do pecado? Por que te proclamas cativo do demônio? Deus manda-te ocupar o primeiro lugar entre as criaturas […] e tu destróis teu reino, rompes teu domínio e teu cetro, e ocupas o último lugar? Foste feito para a tudo dominar, e tudo te domina. Tudo deve te obedecer, e tu obedeces a tudo! Que caos mais espantoso! (Homil. X).

Todos os cristãos probos e santos são reis, diz São Gregório; porque, dominando toda as concupiscências, põem um freio à luxúria, ao orgulho, à gula, à ira. São reis que, longe de sucumbir às tempestades das tentações, mandam e obrigam aos ventos, às tempestades e aos mares furiosos e desencadeados que se aquietem (Serm. de Nativ.).

Alegra-te, homem-rei, descendentes de Deus, diz Orígenes, ao ver as insígnias de tua dignidade real. Chamam-te rei porque está escrito: És de uma raça real. E, porque és rei com justo título, Jesus Cristo, teu Senhor e Rei, chama-se Rei dos reis e Senhor dos senhores. Ele te faz rei de todas as coisas, reinando em ti.

Assim, pois, se a alma reina em ti, e a carne obedece, se sujeitas a concupiscência ao jugo de teu império, se tens sob freios e cativos os teus vícios, saberás que és rei e que o mereces ser. Quando fores assim, serás como um rei, por Jesus Cristo, Rei dos reis, e serás chamado a ouvir seus divinos conselhos. Se reinas sobre ti mesmo, reinarás até sobre Deus, pois poderás obter Dele tudo quanto quiseres (In Evang.).

Que coisa há mais dotada de realeza, diz São Leão, que submeter o espírito a Deus e a carne ao espírito? Que coisa mais sacerdotal que render homenagem a Deus com a consciência pura, e oferecer-Lhe, no altar do coração, puros holocaustos de piedade? Então, somos reis e sacerdotes, como diz o Apocalipse: Fecit nos regnum et sacerdotes (Apoc. I, 6 in Serm. de Nativ.).

O verdadeiro e mais belo reino do homem, é que Jesus Cristo, Rei, reine nele e o governe. Então, recebe de Jesus Cristo sua dignidade real e seu reino, e converte-se em verdadeiro rei; porque, então, reina e governa por justo direito.

Reina:

1.° Sobre si mesmo, sobre todas as faculdades e movimentos;

2.° Reina sobre tudo quanto lhe rodeia, e tudo submete a seu império; e

3.° Reina sobre o próximo, a quem deve seu afeto e seu amor. Quando o homem se une a Deus, ele mesmo se domina a si mesmo piedosa e santamente, e modera suas ações: aprende facilmente a governar e mandar aos demais.

Então, é um reino de paz, de ventura, a prenda do reino eterno. Então, tudo pertence ao homem, o homem inteiro é de Jesus Cristo, e Jesus Cristo é de Deus: Omnia vestra sunt, vos autem Christi, Christus autem Dei (1 Cor 3, 22-23).

– A extensão do reino do homem aqui na terra é a fé;

– Sua largura, a esperança;

– Sua altura, a caridade;

– Sua profundidade, a humildade;

– Sua duração será o Céu por toda a eternidade.

O homem, servidor de Deus

A primeira dignidade real do homem consiste em ser fiel servidor de Deus.

Derramarei meu espírito sobre meus servos e servas, diz o Senhor por meio de Joel: Super servos meos et ancilas efundam spiritum meum (Jl 2, 29). E ali onde reine o espírito de Deus, ali está a verdadeira dignidade real.

O título de servidor de Deus é muito ilustre, nobilíssimo e muito honroso. O Chefe Supremo da Igreja, o Papa, enobrece-se com ele, e ainda toma outro mais inferior que aumenta seu brilho: chama-se Servo dos Servos de Deus: Servus servorum Dei. Servir a Deus é reinar. Por isso, diz o Rei Profeta: Ó Senhor, sou vosso servo, vosso servo e filho de vossa serva; Vós me quebrastes meus grilhões: O Domine, qui ego servus tuus, ego servus tuus et filius ancillae tuae. Dirupisti vincula mea (Sl 115, 16).

Abraão chamou-se servo de Deus (Gn 26, 24); Moisés fez o mesmo (Nm 12, 7); e também o próprio Jó (Jó 1, 8). Ainda mais: Jesus Cristo tomou este nome em Isaías. E São Paulo, ao princípio de suas Epístolas, não se dá outro título: Paulo, servidor de Jesus Cristo: Paulus servus Christi. A Bem-aventurada Virgem, Mãe de Deus, chama-se também serva do Senhor: Ecce ancilla Domini (Lc 1, 38).

Quando o Anjo Gabriel apresentou-se como enviado de Deus àquela augusta Virgem; quando, pleno de respeito e de veneração perante a Ela, disse-lhe: “- Ave, cheia de graça, o Senhor é contigo...”; quando aquele embaixador do Céu disse-lhe que havia encontrado graça diante de Deus, acrescentando que Ela conceberia em seu seio, e daria à luz um filho, cujo nome seria Jesus, o Qual seria grande, e chamar-se-ia Filho do Altíssimo, e o Senhor Lhe haveria de dar o trono de Davi, seu pai, e haveria de reinar eternamente; quando acrescentou, todavia, que o Espírito Santo viria sobre Ela e a virtude do Altíssimo A cobriria com sua sombra, por cujo motivo o sagrado fruto que nasceria Dela seria chamado Filho de Deus; e na presença de tantas grandezas, de uma elevação, de uma dignidade única, celestial e divina, que fizeram de Maria a Mãe de Deus, erigindo-a como Rainha do Céu e da terra por toda a eternidade; então a humilde Virgem pronunciou aquelas palavras: “- Eis aqui a escrava do Senhor” – Ecce ancilla Domini (Lc 1, 38).

O título de servidor de Deus é, pois, titulo de honra, um título que implica uma dignidade real.

Santa Águeda respondeu ao rei pagão que lhe lançava em rosto a acusação de que ela levava uma vida de escrava, vivendo como os cristãos, sendo nobre:

“- A humildade e a escravidão dos cristãos são muito superiores, em grandeza e honra, à dos reis da terra ” (In ejus vita)

Assim, o título de servidor de Jesus Cristo prova a grandeza do homem, prova que o homem é da natureza dos Anjos quanto à sua alma. Os mesmo Anjos no Céu, reinando com Deus, não são mais que servidores seus. E somente este título erige-os em reis.

O homem, filho de Deus

Se já é uma honra tão grande ser servidor de Deus; se este título manifesta a grandeza do homem, que diremos da honra e da grandeza infinita do título de filho de Deus?

Contemplai, diz o Apóstolo São João, que terno amor para conosco teve o Pai, querendo que nos chamássemos filhos de Deus, e que o sejamos de fato: Videte qualem charitatem dedit nobis Pater, ut filii Dei nominemur et simus (1 Jo 3,1).

Este augusto título de filhos de Deus permite-nos participar de seus divinos atributos:

1.° Como Deus é Santo por essência, assim o justo, gerado pela justiça por Deus e feito filho de Deus, tem a santidade;

2.° Como filho de Deus, chega a ser poderoso e pode dizer com São Paulo: Tudo posso por meio Daquele que me conforta: Omnia possum in eo qui me confortat (Fl 4, 13);

3.° Chega a ser imutável, de modo que, unindo-se a Deus, não poderão comover-lhe nem rogos nem ameaças;

4.° Chega a ser celestial, esquece e despreza a terra;

5.° Chega a ser como que impecável;

6.° Chega a ser bom para com seus semelhantes: como um sol benfeitor, derrama seus benefícios sobre todos, e a todos abrasa com o ardor de sua caridade;

7.° Chega a ser sábio na primeira das ciências, a Religião e da virtude, porque Deus é seu Dono, e a unção de Deus o instrui em tudo;

8.° É imperturbável, porque tendo sua alma fixa em Deus, despreza todas as vicissitudes do mundo e do século;

9.° É liberal, isento de inveja, devolve bem por mal; e, assim faz, de seus inimigos, amigos constantes;

10.° Tem retidão tanto em seus objetivos quando em suas ações;

11.° É paciente, equânime, constante, forte, prudente, sincero, à imitação de Deus, que é seu Pai!

Os cristãos gloriam-se de serem filhos de Deus, e o são de fato. Sendo isto assim, devem trabalhar com zelo e perseverança para sua perfeição, e exercitar-se em obras heroicas e divinas.

Ouvi a São Cipriano que diz:

Quando a carne vos solicita, respondei: Sou filho de Deus, nasci para coisas maiores do que para satisfazer meus sentidos corrompidos. Quando o mundo tenta-vos com seus prazeres, suas riquezas e honras, respondei: Sou filho de Deus destinado às riquezas, aos prazeres e honras celestiais. Quando o demônio trate de seduzir-vos, respondei: Retira-te para o teu Inferno, Satanás; não quer Deus que eu, filho de Deus, chegue a ser filho do diabo! Nascido para um reino eterno, desprezo como fumaça, como barro, tudo o que tu podes me oferecer de mais lisonjeiro aqui na terra (Lib. de Spect.).

Sois filhos de Deus: imitai a Jesus Cristo; Ele vos chama a fazer a vontade de Deus, a acercar-nos mais e mais a Ele,… apressai-vos, correi pelo Caminho que vos conduzirá a vosso Pai celestial.

Deus é nosso Pai

Filho de Deus! Deus é, pois, nosso Pai! Meu Deus, quão grande é o homem! Quando uma família encontra-se com títulos de nobreza, que contam séculos de antiguidade, considera-se orgulhosa e feliz. Porém, o que significam todos os títulos, honras e dignidades deste mundo, comparados com o título de cristão, que nos faz filhos de Deus, e permite-nos chamar a Deus de Pai Nosso.

Vedes aquele pastor que cuida de um rebanho do campo? É nobre. Deus é seu Pai. Vedes aquele mendigo diante de vossa porta, apoiado em seu bastão, coberto de retalhos e mutilado? É nobre, e Deus é seu Pai! Todos os dias e a cada instante do dia, ele pode dizer com toda a verdade: Pai nosso que estais nos Céus…

Que grande é, exclama São Cipriano, a indulgência de Deus! Que cúmulo de dignidade e de bondade para nós, não somente nos permitindo que O chamemos de nosso Pai, senão que o quer, e manda-o, sendo realmente assim!

Jesus Cristo é Filho de Deus, e também nós temos o título de filhos do mesmo Pai! Jamais nós nos atreveríamos a chamá-Lo Pai Nosso se não o houvesse Ele mesmo permitido e até ordenado. Devemos, pois, recordar caríssimos irmãos meus, e devemos saber que quando dizemos que Deus é nosso Pai, devemos agir como filhos de Deus; a fim de que, assim como nos alegramos de que Deus seja nosso Pai, alegre-se Ele também de ter-nos por filhos[2].

Sois filhos do Deus vivo, diz o profeta Oseias: Dicetur eis: Filii Dei viventis (Os 1, 10).

Esta dignidade e elevação do homem de ter por Pai a Deus, e de ser seu filho, é muito grande, é quase infinita. Que Deus, diz São Leão, chame ao homem seu filho, e que o homem chame Pai a Deus é um favor superior a todos os favores: Omnia dona excedit hoc donum, ut Deus hominem vocet filium, et homo Deum nominet Patrem (Serm. VI de Nativ.).

Por esta mesma razão este Santo Doutor ensina que o homem deve imitar a Deus, seu Pai, viver com sua vida, a fim de ter uma vida divina, e não terrestre, nem carnal.

Reconhece tua dignidade, ó cristão, diz; e, feito participante da natureza divina, cuida de não voltar à antiga vileza com uma degradada conduta: Agnosce, o Christiane, dignidatem tuam; et divinae consors factus naturae, noli in veterem vilitatem degenere conversatione redire (Serm. I de Nativ.).

Sendo de uma raça escolhida e real, continua São Leão, correspondei à vossa vocação; amai aquilo que vosso Pai ama; que haja semelhança entre Ele e vós, a fim de que vosso Pai não vos aplique aquelas palavras de Isaías quando diz: Criei filhos, e engrandeci-os; e eles desprezaram-Me: Filios enutrivit, et exaltavi; ipsi autem spreverunt me (Is 1, 2). Ponde logo em prática aquelas palavras de Jesus Cristo: Sede vos perfeitos, assim como perfeito é vosso Pai celestial: Estote vos perfecti, sicut et Pater vester coelestis perfectus est (Mt 5, 48).

Observai aquilo que diz o Evangelho de São João: a todos que receberam o Verbo, que são aqueles que creem em seu Nome, deu-Lhes o poder de se tornarem filhos de Deus; os quais não nascem do sangue, nem da vontade da carne, nem do querer do homem, senão que nascem de Deus, a quem o Pai disse, desde toda a eternidade: Sois filhos meus; eu hoje vos gerei: Filius meus es tu; ego hodie genui te (Sl 2, 7).

Os cristãos não são filhos dos deuses semimortos, filhos dos ídolos, mas filhos do verdadeiro Deus, do Deus vivo, que é a própria Vida, a vida divina e increada, vida que Ele lhes comunica.

Nesta geração e filiação, o Pai é Deus; a fecundidade é a graça preveniente; a mãe é a vontade que consente, coopera com esta graça; a família que nasce dela, são os justos; a alma desta família é a caridade.

O exemplo desta filiação é a filiação do Verbo de Deus, porque assim como Deus Pai gera, desde toda a eternidade, a um Filho que lhe é substancial e igual em tudo, da mesma maneira gera, no tempo, a filhos que o são, por graça, aquilo que é o Filho de Deus, por natureza.

Assim o diz São Paulo aos Romanos: Aqueles que Deus previu de antemão, também foram predestinados por ele, para que se fizessem conformes à imagem de seu Filho, por maneira que seja o próprio Filho o Primogênito entre muitos irmãos: Quos praescivit et predestinavit conformes fieri imaginis Filii sui, ut sit ipse primogenitus in multis fratribus (Rm 8, 29).

Todos aqueles que se regem pelo espírito de Deus, esses são filhos de Deus, continua o Apóstolo. Vós não recebestes o espírito de servidão no temor, para operar, todavia, somente por temor, como escravos; mas recebestes o espírito de adoção dos filhos, em virtude do qual clamamos: Ó Pai, Pai! E o Apóstolo o prova, acrescentando: O mesmo Espírito Santo dá testemunho a nosso espírito que somos filhos de Deus. E sendo filhos, somos também herdeiros; herdeiros de Deus, e coerdeiros de Jesus Cristo; contanto que, não obstante, padeçamos com Ele, a fim de que sejamos com Ele glorificados (Rm 8, 14-17).

Para ver com maior exatidão, para examinar mais profundamente e compreender também esta adoção do homem por parte de Deus, é preciso observar que, nesta adoção, a graça, a caridade e outros dons do Espírito Santo não são os únicos que nos são dados, pois, foi-nos dado o mesmo Espírito Santo, que é o Primeiro e Incriado dos dons que Deus fez aos homens.

Deus teria podido, na justificação e por meio da graça e da caridade infusa, fazer-nos justos e santos, o que teria sido uma graça e um benefício imenso de Deus, ainda quando não nos tivesse adotado por filhos Seus; porém, não Se deteve neste primeiro favor, mas quis nos fazer de tal maneira justos, que realmente nos pudesse adotar como filhos. Logo, teria podido fazer esta adoção dando-nos somente a caridade, a graça e seus dons criados, dons indubitavelmente imensos; porém, a infinita bondade de Deus quis formar, ela também, parte de Seus dons, e santificar-nos por Si mesmo ao adotar-nos.

Por esta razão, o Espírito Santo uniu a seus dons a Sua própria vontade, a fim de que, dando a graça e a caridade, desse-Se também Ele mesmo pessoal e substancialmente, segundo aquelas palavras do Apóstolo: Por meio do Espírito Santo foi derramado em nossos corações a caridade de Deus, e Ele se nos entregou: Charitas Dei difusa est in cordibus nostris per Spiritus Sanctum, qui datus est nobis (Rm 5, 5).

Por isto, o Apóstolo O chama Espírito de Adoção: Spiritus adoptionis (Rm 8, 15). Tal é a suprema estima que Deus tem por nós; e esta é também nossa suprema grandeza e elevação, pois recebendo a graça e a caridade, recebemos, ao mesmo tempo, a pessoa do Espírito Santo, que Se unindo por Si mesma à caridade e à graça, habita em nós, vivifica-nos, adota-nos, deifica-nos e conduz-nos a toda forma de bem.

Quereis que digamos ainda mais? Escutai: o Espírito Santo, descendo pessoalmente na alma justa, traz Consigo as demais Pessoas Divinas, o Pai e o Filho, das quais é inseparável. Assim é que a Santíssima Trindade inteira vem pessoal e substancialmente na alma justificada e adotada, e permanece e habita nesta alma como em seu próprio Templo, contanto que a alma persevere na justiça, conforme o teor daquelas palavras da Primeira Epístola de São João: Deus é amor, e aquele que permanece na caridade, em Deus permanece, e Deus nele: Deus charitas est; qui manet in charitate, in Deo manet, et Deus in eo (1 Jo 4, 16); e conforme o teor daquelas outras palavras do grande Apóstolo aos Coríntios: Aquele que está unido a Deus, forma um mesmo espírito com Ele: Qui adhaeret Domino, unus spiritus est (1 Cor 6, 17).

É o mesmo que Jesus Cristo pediu a seu Pai, na véspera de sua Morte, naquele divino discurso durante o qual disse: A fim de que todos sejam uma mesma coisa, e que, como Vós, ó Pai, estais em mim e eu em Vós, por identidade de natureza, assim sejam eles uma mesma coisa em nós, por uma união de amor: Ut omnes unum sint, sicut tu, Pater, in me, et ego in te, ut et ipsi in nobis unum sint (Jo 17, 21), isto é, que participem todos do mesmo Espirito que é uno, que estejam unidos a Ele; e, por Ele, às demais Pessoas Divinas; que não sejam todos mais quem um Nele, e isto no Espírito Santo, como as três Pessoas Divinas não são mais que Um, em uma só e mesma natureza divina. Assim é como o explicam São Cirilo (Lib. II, in Johann., c. XXVI), Santo Atanásio (Orat. IX, Contra Arian.), e Folet seguindo a mesma doutrina.

Assim, na justificação e adoção da alma, a graça e a caridade são-nos comunicadas; e, com elas, comunicam-Se o Espírito Santo e toda a Divindade, a Santíssima Trindade que Se une a Seus dons substancialmente, para unir-nos também substancialmente a Ela, e para santificar-nos, adotar-nos e deificar-nos. E com esta adoção:

1.° Recebemos a dignidade suprema da filiação divina, a fim de que sejamos, com efeito, filhos de Deus não somente acidentalmente pela graça, senão também substancialmente por natureza, e sejamos como deuses; pois Deus comunica-nos e dá-nos realmente Sua natureza;

2.° Por meio desta adoção, adquirimos, como filhos, direito à herança celestial, à beatitude e a todos os bens de Deus, nosso Pai; e

3.° Com esta filiação, conseguimos uma admirável dignidade de obras e de méritos, isto é, que nossas obras tenham uma dignidade, um valor e um preço imensíssimos, e plenamente proporcionados e convenientes à sua recompensa, à vida e à glória eternas, que foram feitas para aqueles que são verdadeiramente filhos de Deus; e é indubitável que estas obras saem do mesmo Deus, do Espírito Divino que habita em nós, e no-las inspira, cooperando nelas.

Disso que acabamos de dizer, resulta:

1.° Que a justiça inerente ou a graça justificante, por meio da qual somos justificados e adotados como filhos de Deus, não é simplesmente uma qualidade, como o creem alguns, senão que abraça muitíssimas coisas; a remissão dos pecados, a fé, a esperança, a caridade e outros dons, e o mesmo Espírito Santo, Autor dos dons, e, por conseguinte, a Santíssima Trindade! Porque o homem recebe tudo isto na justificação infusa, como diz o santo Concílio de Trento (Sess. VI, c. VII);

2.° Resulta também que aqueles que pensam que na justificação e na adoção se nos dá o Espírito Santo relativo a seus dons, e não enquanto Sua substancia e Pessoa, estão em um erro; porque São Boaventura ensina que o Espírito Santo acompanha pessoalmente a seus dons, e que se converte em possessão perfeita das almas justificadas e adotadas (In I Sent., d. 14, art. 2, q. 1). O Mestre das Sentenças ensina o mesmo (Lib. I, Dist. XIV e XV, segundo Santo Agostinho e outros Doutores). Scotus, Gabriel e Marsílio falam da mesma maneira. Santo Tomás ensina claramente esta mesma doutrina (S. Th. I, 8. 43. Art. 3 et 6; et q. 38, art. 8). Este diz que o Espírito Santo dá-Se a todos os justos, não somente quanto ao afeto, senão também quanto a Sua Pessoa. O mesmo ensinam Vasquez, Valencia e Suarez (Lib. XII, De Deo Trino et Uno, c. V). Suarez cita, em apoio a esta doutrina, que dá como certa, a São Leão Magno, Santo Agostinho e Santo Ambrósio.

3.° Desta doutrina resulta ainda que nossa adoção, ainda que seja una em si mesma, é, contudo, dupla em virtude. A primeira, pela qual somos adotados como filhos de Deus por uma caridade criada e pela graça infusa na alma, o que é uma imensa participação da natureza divina; e, pela segunda, recebemos o Espírito Santo e a natureza divina pela graça, e, por isso, somos deificados e adotados como filhos de Deus. Assim, pois, esta dupla adoção começa aqui pela graça; porém, no Céu, terminará com a glória eterna, com a visão beatífica e a perdurável posse de Deus.

4.° Segue-se, portanto, desta doutrina que, da mesma maneira que Jesus Cristo é Filho de Deus por natureza – como Deus, pela geração eterna, e como homem, pela união hipostática – da mesma maneira somos filhos adotivos dos homens. Porque estes nada recebem, fisicamente falando, de seu pai adotivo; somente recebem uma denominação moral com a qual tem direito à herança; porém, nós recebemos de Deus a graça, e com a graça a mesma natureza de Deus; e como entre os homens chamamos propriamente de “pai” aquele que comunica a outro sua natureza humana engendrando-o, assim a Deus chamamos de Pai não somente de Jesus Cristo, senão de nós mesmos, porque nos comunica Sua natureza, por meio da graça que comunica a Jesus Cristo com a união hipostática, fazendo-nos assim irmãos de Jesus Cristo.

Daqui, portanto, devemos aprender quão grande é o benefício da filiação e da adoção divinas. Poucas pessoas conhecem esta infinita dignidade, tal como ela acaba de ser demonstrada. Poucas pessoas refletem sobre isto ou ponderam esta grandeza do homem com a detida atenção que o assunto merece. Todos deveríamos certamente admirar, plenos de respeito, tal grandeza; e os pregadores, os doutores, deveriam explicar e expor esta sublime grandeza do cristão, a fim de que os fieis compreendessem bem que são os templos vivos de Deus, que abrigam a Deus mesmo em seus corações, e que, por conseguinte, devem caminhar com Deus, conversar dignamente com tal Hóspede que, em todas as partes, acompanha-lhes, em todas as partes está e a tudo vê.

Com muita razão, diz, pois, o grande Apóstolo: Não sabeis que vossos corpos são o templo do Espírito Santo que está em vós, que vos foi dado por Deus; e que não vos pertenceis, pois fostes comprados a um altíssimo preço? Glorificai a Deus e levai-O em vosso corpo[3].

Ó cristão, exclama São Leão, reconhece tua grandeza, e sendo partícipe da natureza divina, não te degrades; recorda-te de quem é o Chefe e de que Corpo[4] és membro. Recorda-te de que, livre do poder das trevas, fostes transportado à luz e ao reino de Deus. Com o Sacramento do Batismo, foste convertido em templo do Espírito Santo, não afugentes de teu coração, com ações pecaminosas, um hóspede tão ilustre, e livra-te de submeter-te novamente à escravidão do demônio; pois teu preço é o Sangue de Jesus Cristo, que te julgará na verdade, porque a misericórdia te resgatou[5].

Ouvi a Santo Agostinho: O primeiro nascimento vem do homem e da mulher; a segunda natividade procede de Deus e da Igreja. E eis aqui que nasceram de Deus, e resulta que um Deus habita em nós. Que grande mudança: Deus fez-se homem, e o homem tornou-se espírito. Que maravilha é esta? Que honra é esta, meus irmãos? Elevai vossa alma para esperar e tomar a única realidade digna de ser desejada, e renunciai aos prazeres do século. Fostes comprados à custa de um alto preço: por vós, o Verbo fez-se carne; por vós, Aquele que era filho de Deus fez-se filho dos homens; vós vos convertestes em filhos de Deus: Propter vos Verbum caro factum est: propter vos, qui era Filius Dei, factus est filius hominis; ut qui eratis filii hominum, efficeremini filii Dei (Serm. XXIV, de Temp.).

O mesmo grande Doutor diz, em outra parte: Os homens são filhos dos homens quando agem mal; porém, quando agem bem, são filhos de Deus. Deus, de filhos dos homens faz filhos de Deus; porque do Filho de Deus fez o Filho do Homem. Admirai quão grande é esta participação da Divindade! O Filho de Deus fez-se partícipe de nossa mortalidade, a fim de que o homem mortal seja partícipe de sua Divindade. O grande Deus que promete a divindade manifesta-vos uma caridade infinita[6].

Escutai o que diz São Cirilo de Jerusalém: conhecendo nossa grandeza, conduzamo-nos espiritualmente para fazer-nos dignos da adoção de Deus; porque aqueles que se conduzem segundo o espírito de Deus, são filhos de Deus. Procedamos desta maneira, para que não aconteça que nos seja dito: “Se fôsseis filhos de Abraão, faríeis as obras de Abraão”. Glorifiquemos a nosso Pai celestial com obras santas, a fim de que, vendo os homens nossa boa conduta, louvem a nosso Pai que está nos Céus (Catech. VII).

Aqueles nos quais Deus vê a imagem de seu Filho, diz Santo Ambrósio, admite-os, por seu Filho, no número de seus filhos (Lib. V de Fide,. c. III).

Podemos admirar as obras dos homens, diz São Cipriano, sabendo que somos filhos de Deus? Cai do cume de sua grandeza aquele que admira outra coisa que não seja Deus: Nunquam humana opera mirabitur quisquis se cognoverit filium Dei? Dejicit se de culmine generositatis suae qui admirari aliquidpost Deum potest (Lib. de Spectaculis). Quando chamamos a Deus Pai nosso, prossegue o mesmo Santo, devemos conduzir-nos como filhos de Deus, a fim de que, crendo-nos ditosos em ter a Deus por Pai, sinta também Ele a satisfação em ter-nos por filhos. Conduzamo- nos como temos de conduzir-nos, sendo templos de Deus, tendo a Deus dentro de nós; a fim de que, tendo começado a ser celestiais e espirituais, não nos ocupemos mais que das coisas do espírito e do Céu[7].

O homem é cidadão da Casa de Deus e do Céu

Já não sois estrangeiros nem migrantes, diz São Paulo aos Efésios, mas concidadãos dos Santos, e domésticos ou familiares da casa de Deus: Jam non estis hospites, et advenae, sed estis cives Sanctorum et domestici Dei (Ef 2, 19).

Concidadãos dos Anjos, dos Patriarcas, dos Profetas, dos Apóstolos, dos Mártires, dos Santos e de todos os eleitos. Tendes o direito de cidadania na Igreja de Jesus Cristo; sois da casa e da família de Deus, da Igreja de Deus; Deus é vosso Pai, Maria e a Igreja são vossas mães, os eleitos são vossos irmãos. Sois da família do Messias-Rei, Deus e homem, da república cristã, na qual tendes direito aos Sacramentos da Igreja, a todos os dons de Jesus Cristo, e estais inscritos como cidadãos e herdeiros da vida eterna. Foi-vos dado um Anjo para proteger-vos, e levais o nome de um Santo. Nada vos falta! Quão grande e ditoso é o homem!

O homem é templo de Deus e casa de Jesus Cristo

Não sabeis vós que sois templo de Deus?, pergunta São Paulo aos Coríntios: Nescitis quia templum Dei estis? (1 Cor 3, 16). Sois o edifício, não do homem, senão de Deus; e, por conseguinte, sois um templo, não profano, senão um templo santo, no qual habita Deus mesmo pela fé, pela graça, pela caridade e por meio de todos os seus dons. Vós sois o tabernáculo de Deus, os vasos consagrados a Deus.

Não sabeis, acrescenta o grande Apóstolo, que vossos corpos são templos do Espírito Santo que habita em vós, o Qual recebestes de Deus? An nescitis quoniam a vestra templum sunt Spiritus Sancti, qui in vobis est, quem habetis a Deo? (1 Cor 6, 19).

Não violemos jamais este templo. Se alguém profana o templo de Deus, Deus lhe destruirá, diz São Paulo, porque o templo de Deus é Santo, e vós sois este templo: Si quis templum Dei violaverit, disperdet illum Deus. Templum enim Dei sanctum est, quod estis vos (1 Cor 3, 17).

Jesus Cristo, diz São Paulo, deixou-Se ver como filho em sua própria casa, cuja casa somos nós: Christus tamquam filius in domo sua, quae domus sumus nos (Hb 3, 6).

Os cristãos são membros de Jesus Cristo, Seus herdeiros e coerdeiros

Não sabeis que vossos corpos são membros de Cristo?, diz São Paulo: Ne scitis quoniam corpora vestra membra sunt Christi? (1 Cor 6, 15). Sois o Corpo Místico de Cristo e membros unidos a outros membros: Vos estis corpus Christi, et membra de membro (1 Cor 12, 27).

Assim, pois, se somos filhos, disse São Paulo aos Romanos, somos também herdeiros; herdeiros de Deus e coerdeiros de Jesus Cristo: Si autem filii, et haeredes, haeredes quidem Dei, cohaeredes autem Christi (Rm 8, 17).

O homem custou o Sangue de Jesus Cristo

Fostes comprados a alto preço, diz São Paulo, glorificai, pois, a Deus, e levai-Lhe sempre em vosso corpo: Empti estis pretio magno. Glorificate et portate Deum in corpore vestro (1 Cor 6, 20). Vós já não vos pertenceis: Non estis vestri (1 Cor 6, 19).

Vós, Senhor, fostes entregue à morte, diz o Apocalipse; e, com o vosso Sangue, vós nos resgatastes para Deus: Occisus es, et redimiste nos in sanguine tuo (Ap 5, 9).

Formoso é o sol, precioso; porém, não custou o Sangue de Jesus Cristo. Ricas em esplendor são a lua e as estrelas; porém, não custaram o Sangue de Jesus Cristo. A terra e os mares valem muitíssimo; porém, Jesus Cristo não deu seu Sangue por eles. Somente o homem custou o Sangue de um Deus! Jesus Cristo morreu somente pelo homem!

Tão grande é o homem e tão nobre, que todo o ouro, todo o dinheiro do mundo e todo o universo não vale o que ele vale. Não se encontrou um preço digno do homem nas criaturas, nem no mundo inteiro; a não ser no Sangue de um Deus!

Se puseres numa balança, portanto, de um lado o Sangue de Cristo, e do outro o do homem, o preço do homem move o Sangue de Cristo. E se é impossível avaliar o valor do Sangue de um Deus, é também impossível avaliar o valor do homem. Se quereis que vos diga o quanto valeis, dizei-me, antes, quanto vale o Sangue de Jesus Cristo.

Não fostes resgatados a preço de ouro nem de prata, diz o Apóstolo São Pedro, mas com o Sangue precioso de Jesus Cristo, como de um Cordeiro imaculado e sem mancha: Non corruptilibus auro vel argento redepti estis; sed pretioso sanguine quase Agni immaculati Christi et incontamini (1 Pd 1, 18-19).

O homem é tão grande que participa da natureza de Deus.

O homem é, de certo modo, Deus.

O homem, criado à imagem de Deus, é uma espécie de divindade, porém, é- o, sobretudo, em sua geração por Jesus Cristo, quando se converte em Deus, quando participa da natureza divina. O Verbo fez-se carne: Verbo caro factum est (Jo 1, 14). Eis aqui o homem divinizado.

Temos de felicitar à natureza humana, diz Santo Agostinho, por tê-la tomado o Verbo para Si, por tê-la transladado imortal no Céu, e por ter a argila sido elevada tanto que se encontra hoje à direita do Pai. Quem não felicitaria sua natureza feita imortal em Jesus Cristo, e quem não esperaria para si mesmo igual maravilha por Jesus Cristo? Ut Dominus, induto corpore, factus est homo, ita et, nos homines ex Verbo Dei deificamur, eo quod receptum sit in carne (Serm. de Nativ.).

Assim como o Senhor, diz Santo Atanásio, fez-se homem tomando um corpo, os homens foram deificados pelo Verbo de Deus ao ser Ele recebido na carne (Serm. IV contra Arian.).

Na Encarnação, o Verbo eterno une-se à humanidade como a uma esposa, a fim de unir-se com todo o gênero humano, e, por este meio, fazer imortais aos mortais, celestiais aos habitantes da terra, e transformar em deuses aos homens. Jesus Cristo quis ser nosso irmão em sua Carne e em seu Sangue. Pois, como escreve Santo Agostinho, aquele que chama a Deus Pai nosso, chama Irmão seu a Jesus Cristo: Nam qui Dicit Deo Pater, Christo Dicit frater (In Psalm. XLVIII).

Jesus Cristo, diz São Gregório Nazianzeno, nasceu na carne para fazer-nos nascer no Espírito; nasceu no tempo para fazer-nos nascer para a eternidade; nasceu em um estábulo, para dar-nos nascimento para o Céu[8].

Escutai a Santo Agostinho, Deus fez-se homem para que o homem se convertesse em Deus; para que o homem comesse o pão dos Anjos, o Senhor dos Anjos fez-se homem: Factus est Deus homoe, ut homo fierit Deus: ut panem Angelorum manducaret homo, Deus Angelorum factus est homo (Serm. IX, de Nativ.).

Escutai a São Gregório Nazianzeno: O Verbo do Pai torna-se homem, e um homem que nos pertence, a fim de unir, por esta mescla, Deus com o homem. Em ambos os casos, é um só Deus, um Deus feito homem, a fim de converter-me a mim, um mero mortal, em um Deus[9].

Foi pela mesma razão, diz Clemente de Alexandria, que Jesus Cristo, com sua Encarnação, mudou a terra em Céu, e que fez anjos, ou melhor, deuses aos homens (Adhortat ad Gentes).

O mesmo Clemente comenta aquilo que São João escreveu em seu Evangelho: deu-lhe o poder de se tornarem filhos de Deus. E o Verbo fez-se carne: Dedit eis potestatem filios Dei fieri. Ete Verbum caro factum est (Jo 1, 12.14). Chegaram a ser filhos de Deus; e, a partir daí, até deuses, havendo-se o Verbo feito carne. O Verbo, com efeito, fez-se carne para converter aos homens em deuses.

Ouvi também a Orígenes: o Verbo fez-se carne, entretanto, para nós, que sem a Encarnação não conseguiríamos ser transformados em filhos de Deus: Verbum caro factum est, sed propter nos, qui non nisi per Verbi carnem potuissemus in Dei filios transmutari.

A salvação desceu para voltar a subir nos redimidos. Os homens foram feitos deuses por meio Daquele que de um Deus fez um Homem: De hominibus facit deos, qui de Deus fecit hominem. E habitou entre nós; possui nossa natureza, para fazer- nos partícipes da natureza divina: Et habitavit in nobis, is est, naturam mostram possidet, ut suae naturae particeps faceret nos (Homil. II).

Jesus Cristo, diz São Leão, fez-se Filho do Homem, para que pudéssemos ser filhos de Deus: Ideo Christus filius hominis factus est, ut nos filii Dei esse possimus (Serm. VI de Nativ.).

Satanás disse a nossos primeiros pais, para enganá-los: Se comeis desta fruta, sereis como deuses: Eritis sicut dii (Gn 3, 5). Sem querê-lo, profetizou; e sua profecia haveria de ter cumprimento com a Encarnação. Sua mentira, seu engano haveria de converter-se em sua vergonha, para sua própria confusão e derrota; e haveria de chegar a ser uma realidade, e a mais magnífica de todas as verdades. Assim é como Deus, ao fazer-se Homem, quis que o homem que desejava chegar a ser Deus, chegasse a sê-lo de fato, e o conseguisse sem cometer nenhum crime. E o Rei Profeta, entrevendo com a luz do Espírito Santo ao homem deificado pela Encarnação do Verbo, já anunciara esta deificação do homem: Ego dixi: Dii estis, et filii excelsi omnes. Eu vos disse: Sois deuses, todos sois filhos do Altíssimo (Sl 131, 6).

Deus, diz São Bernardo, fez-se homem para fazer do homem um Deus: Ideo Deus factus est homo, ut homo fieret Deus (Serm. in Cant.). Todos nós, com Jesus Cristo, nosso Chefe, somos Jesus Cristo: Nos omnes cum capite nostro, Christo, Christus sumus (Serm. de Nativ.).

A alma que se une a Deus, assume a sua forma, torna-se divina, converter-se em Deus. Por meio da imagem de Deus impressa em minha alma, diz São Basílio, obtive o uso da razão; porém, havendo chegado a ser cristão, sou semelhante a Deus[10].

Se Jesus Cristo saiu dos dias da eternidade aos dias do tempo, como disse um profeta, foi para fazer-nos sair dos dias do tempo e fazer-nos entrar nos dias da eternidade.

A Majestade omnipotente, diz São Bernardo, fez três coisas, verificou três mesclas, ao tomar nossa carne; e estas três mesclas são todas tão admiráveis que jamais se sucederam obras iguais, nem acontecerão novamente na terra. Pela Encarnação, uniram-se intimamente Deus e o homem, uma Mãe e uma Virgem, a fé e o coração humano. Admiráveis são tais misturas, e é o maior dos milagres que coisas tão diversas, tão heterogêneas, tão divididas entre si, tenham-se unido perfeitamente (Serm. super Missus est).

Deus, diz São Cipriano, está mesclado com o homem; Jesus Cristo quis ser aquilo que é o homem, a fim de que o homem pudesse ser aquilo que é Jesus Cristo: Deus cum homine miescetur; quod homo est, esse Christus voluit, ut et homo possit esse quod Christus est (Serm. de Nativ.).

Desceu para fazer-nos subir, diz Santo Agostinho, e participando da natureza dos filhos dos homens, adotou aos filhos dos homens para fazer-lhes partícipes de sua natureza: Descendit ille, ut nos ascenderemos; et, participata natura filiorum hominum; ad participandam etiam suam naturam adoptaret filios hominum (Serm. de Nativ.). Ó homens, exclama, não desconfieis de poder chegar a ser filhos de Deus, porque o Filho de Deus, o Filho do próprio Deus, fez-se homem: O homines, nolite desperare vos fieri posse filios Dei, quia et ipse Filius Dei caro factus est (Ut supra).

Ao recordar aquelas palavras de Jesus Cristo a seus Apóstolos: Permanecei em mim, que eu permanecerei em vós: Manete in me, et ego in vobis (Jo 15, 4), exclama São Bernardo: Ó que sublimidade! Que autoridade tão sublime dispõe que o homem habite com os Anjos, que a terra e o pó subam até o Céu, que o homem saído do barro agregue-se à sociedade dos Anjos! E ainda mais, que a criatura viva no Criador; a obra, em seu Executor; o resgatado, em seu Redentor; o servo, em seu Dono; o pecador, no mesmo Justo; o lodo, Naquele que tudo tirou do nada; o transitório, no Eterno; a miséria, no Bem Supremo. Viver Naquele que dá a soberana felicidade, Naquele que santifica o que é Santo, que é a Verdade e a Vida, e a glória eterna, a alegria do mundo, a beleza do Céu, a suavidade do Paraíso, a venturosa Eternidade, e a Beatitude eterna, isto é, em nosso Senhor Jesus!

Sois partícipes da natureza divina, diz o apóstolo São Pedro: Divinae consortes naturae (2 Pd 1, 4). A alma adornada da graça de Deus é uma rainha infinita preciosa, cuja beleza é superior à beleza natural dos Anjos e de todas as criaturas. E a razão é que, por meio da graça, participamos da natureza de Deus, e, por conseguinte, participamos superabundantemente e muito de perto da beleza sobrenatural e suprema de Deus, infinitamente superior a toda beleza natural e criada.

Citando aquelas palavras do profeta Baruc sobre Jesus Cristo: Depois de tais coisas Ele foi visto sobre a terra e conversou com os homens: Post haec in terris visus est, et cum hominibus conversatus est (Br 1), profecia cujo cumprimento manifesta São João com aquelas sublimes e surpreendentes palavras: Et Verbum caro factum est, et habitavit in nobis – E o Verbo se fez carne e habitou entre nós (Jo I, 14)., diz São Cipriano de uma maneira admirável: Que quereis, ó homens? Em outro tempo, dizia-se a Deus: “O homem vos pertence”; e agora diz-se ao homem: “Deus vos pertence”! Ó homem, bastas a Deus; baste-te Deus também: O homo, sufficis tu Deo; sufficiat tibi Deus (Serm. de Ascens.).

Reconhece aqui, cristão, tua grandeza, teu nome e tua sabedoria. O Cristianismo é a imitação da natureza divina. Se és cristão, imita a Jesus Cristo; não carregues vã e inutilmente seu Nome; levai-O, pelo contrário, com fartura de virtudes. Cumpre aquilo que Ele exige com obras dignas de tão grande Nome. Corresponda tua vida a tal Nome, a fim de que este Nome não seja um Nome vão, e teu pecado, enorme! (Santo Ambrósio, De Dignit. Sacerd.).

O cristão que obra de maneira diferente, leva um nome falso; não tem mais que mera aparência de cristão; não tem de cristão nem o espírito, nem o coração, nem o pensamento; não é um cristão! É necessário que o cristão diga: Sou da raça divina, o Filho de Deus é meu irmão, meu doutor, meu dono; é necessário que eu que viva divinamente, a fim de que eu seja outro Jesus Cristo. Porque, segundo diz o Apóstolo São Pedro: Sois vós a linhagem escolhida, uma classe de sacerdotes, reis, gente santa, povo de conquista: Vos genus electum, regale sacerdotium, gens sancta, populus adquisitionis (1 Pd 2, 9).

Jesus Cristo é necessário para abrigar nossa alma

Para vestir nosso corpo animal basta-nos a pele de uma fera; para abrigar nossa alma, que é espiritual, necessitamos de Jesus Cristo. Revesti-vos de nosso Senhor Jesus Cristo, diz São Paulo aos Romanos: Induimini Dominum Jesum Christum (Rm 13, 14). Pois, todos vós que fostes batizados em Cristo, estais revestidos de Cristo, diz aos Gálatas: Quicumque enim in Christo baptizati estis, Christum induistis (Gl 3, 27).

Revesti-vos – escreve São Paulo aos Efésios – do homem novo que foi criado conforme à imagem de Deus em justiça e santidade verdadeira: Induite novum hominem, qui secundum Deum creatus est in justitia et sanctitate veritate (Ef 4, 24). Outra veste que não seja Jesus Cristo seria indigna de nossa alma. Julgai, portanto, qual seja nossa dignidade pela riqueza de tal veste.

Tão grande é o homem que somente pode viver de Jesus Cristo

Se morremos com Jesus Cristo, diz São Paulo aos Romanos, cremos firmemente que viveremos também juntamente com Cristo. Considerai-vos também como mortos para o pecado; porém, vivos para Deus em Jesus Cristo (Rom. VI, 8.11). Cristo, diz este Apóstolo aos Coríntios, morreu por todos, a fim de que aqueles que vivem não vivam mais para si, senão para Aquele que por eles morreu e ressuscitou: Pro omnibus mortuus est Christus; ut et qui vivunt juam non sibi vivant, des ei qui pro ipsis mortuus est et resurrexit (2 Cor 5, 15).

Vivo, porém não eu, mas é Cristo quem vive em mim, exclamava o grande Apóstolo dirigindo-se aos Gálatas: Vivo, jam non ego, vivit vero in me Christus (Gl 2, 20). Para mim, Cristo é a vida, dizia também aos Filipenses: Mihi vivere Christus est (Fl 1, 21).

Escutai a Orígenes: Quando Jesus Cristo confiou São João à sua Mãe, dizendo-Lhe: “Mulher, aqui tens a teu filho”, é como se houvesse dito: este é Jesus que puseste no mundo, porque aquele que é perfeito não vive mais ele mesmo, é Jesus Cristo quem vive nele; e vivendo em Jesus Cristo, podem aplicar-se aquelas palavras ditas a Maria: “— Eis aqui a vosso filho Jesus Cristo” (In haec verba Evang.).

De tal maneira é Jesus Cristo a vida do cristão, e o cristão deve de tal maneira viver com Jesus Cristo, que se não goza de tal vida, pode dizer a si mesmo que morreu.

Tão grande é o homem que necessita de um Deus inteiro por alimento

Para alimentar o corpo, a erva dos campos e uns quantos grãos bastam; porém, para alimentar a alma, criada à imagem de Deus, é-lhe necessário a graça de Deus. Esta alma necessita do Corpo, do Sangue, da Alma e da Divindade de Jesus Cristo.

Em verdade, em verdade, Eu vos digo que se não comerdes a Carne do Filho do homem, e não beberdes seu Sangue, não tereis a vida em vós, disse o mesmo Jesus Cristo: Amen, amen dico vobis: Nisi manducaverit carnem Filii hominis, et biberitis ejus sanguinem, non habebitis vitam in vobis (Jo 6, 54).

Poderíeis vos formar uma ideia de vossa grandeza? És tão sublime, ó homem, que necessitais de um Deus inteiro por alimento; sem este pão, sem o Pão Eucarístico, não viveis.

Toda abundância que não seja meu Deus, é indigência, exclama Santo Agostinho: Omnis copia quae Deus meus non est, egestas est (Lib. Confess.).

Somente Vós, ó Deus meu, saciais minha alma. Assim manifestais quão grande é para vós a criatura racional, pois, tudo o que seja menos que Vós é insuficiente para fazê-la feliz e alimentá-la; e tampouco ela se basta a si mesma.

O homem é tão grande que necessita por morada a Casa do próprio Deus

Um simples pedreiro é suficiente para fazer uma casa que livre nosso corpo da intempérie. Uma mesquinha choça coberta de palha é tudo de quanto necessita; e, logo, hão de lhe bastar, para a sepultura, um rincão de terra e um pobre ataúde.

Porém, a alma necessita de um Palácio, não edificado por mão do homem, senão por mão do próprio Deus. Nem os mais hábeis arquitetos podem edificar uma habitação digna para a alma. É preciso o Arquiteto Celestial e é necessário o Céu, a mesma morada de Deus. Jesus Cristo encarregou-se de tão magnifica construção. Vou, disse, preparar-vos um lugar: Vado parare vobis locum (Jo 14, 2).

Tão grande é a alma que necessita da imortalidade

O homem necessita da imortalidade, e a tem. Deus fez o homem imortal, indestrutível: Deus creavit hominem inexterminavel (Sb 2, 23). Irá para a eternidade, que é a sua morada: Ibit homo in domo aeternitatis suae (Eclo 12, 5). Assim, pois, nada de transitório foi feito para o homem; o homem foi feito para Deus, que nunca acaba.

O homem criado à imagem de Deus; o homem de um preço infinito; o homem-rei, servidor de Deus, filho de Deus; o homem que tem a Deus por Pátria; o homem concidadão dos Anjos; o homem templo de Deus e casa de Jesus Cristo, membro de Jesus Cristo, herdeiro de Deus, coerdeiro de Jesus Cristo; o homem participa da natureza de Deus, e foi feito por Deus para a Encarnação do Verbo; o homem necessita de Jesus Cristo por veste, busca a Jesus por vida, a Jesus Cristo por alimento, e ao Céu por morada; o homem que necessita da imortalidade; o homem para quem é necessário tudo isso, e que é tudo o que temos dito, está indubitavelmente dotado de uma dignidade, de certo modo, infinita.

Se tu soubesses, ó homem, ler teus títulos de dignidade e nobreza; se tu te conhecesses, quanto te respeitarias, quão feliz te crerias, quanto trabalharias para fazer-te digno de tua sublime vocação e de teu alto destino! Quando desprezarias a tudo o que é tão inferior a ti e tão indigno de ti! Quanto te ocuparias de tua sublime finalidade, que é conhecer a Deus, amá-Lo, servir-Lhe e obter a vida e a glória eterna! Porém, desgraçadamente para ti, como diz o Salmista, és cego, surdo e mudo; és como aquelas estátuas de que fala o Real Profeta: Tens boca, e não falas; olhos, e não vês; ouvidos, e não ouves; nariz, e não sentes; mãos, e não tocas nenhum objeto; pés, e não andas; garganta, e não produzes nenhum som[11].

Homem desgraçado, e criminalmente desgraçado, a quem podem aplicar-se aquelas terríveis palavras do Real Profeta: O homem, em meio de sua grandeza, não compreendeu quem era; igualou-se aos animais, e fez como um deles: Homo, cum in honore esset, non intelexit; comparatus est jumentus insipientibus, et similis factus est illis (Sl 48, 12).

O homem é grande somente por Deus. Assim é que deve unir-se a Deus

O homem somente é grande por Deus; assim é que deve unir-se a Ele, e tão somente a Ele. Recorda-te, sim, que não existes senão para conhecer, amar e servir a Deus, para obter a graça neste mundo, e a glória eterna no outro.

Ó homem, diz São Gregório de Nissa, não esqueças que vós foste criado para ver a Deus e contemplá-Lo, e não para arrastar-te nesta terra miserável; não para viver como os brutos, lisonjeando as tuas paixões; mas para levar uma vida celestial, com o objetivo de subir ao Céu (Orat. II in Psalm. XXXIII).

Ó alma, exclama Santo Agostinho, ó alma feita à imagem de Deus, resgatada com o Sangue de Jesus Cristo, esposa de Jesus Cristo pela fé, filha adotiva do Espírito Santo, adornada de virtudes, destinada a viver com os Anjos, ama Aquele que te amou tanto; ocupa-te Daquele que não pensa senão em ti; busca Aquele que te busca; ama a Deus, teu Divino Amante; vela com teu Deus, que vela por ti; trabalha com Ele, posto que Ele só trabalha por ti; e sê pura com Ele, que é Puro por excelência, sê santo com o Santo dos Santos (Lib. Confess.)

Assim, diz São Paulo, posto que haveis recebido por Senhor a Jesus Cristo, segui seus passos, unidos a Ele como a vossa raiz, e edificados sobre Ele como sobre o vosso fundamento, e confirmados na Fé: Sicut accepistis Jesum Christum Dominum, in ipso ambulate, radicati et superaedificati in ipso, et confirmati fide (Cl 2, 6-7).

Observai aqui que São Paulo dá três excelentes meios para ser de Deus, meios que indica com três comparações. Compara Jesus Cristo e à fé que há de inspirar-nos:

1.° A uma via que nos está traçada e que temos de seguir: In ipso ambulate;

2.° A uma raiz à qual devemos nos apegar, à qual nos devemos aderir: Radicati; e

3.° A um fundamento sobre o qual é preciso edificar: Superaedificati in ipso.

É preciso marchar segundo Jesus Cristo, arraigar-se Nele, e edificar sobre Ele com a prática das virtudes. As virtudes, diz São Bernardo, são astros, e o homem das virtudes é o firmamento: Virtus est sidus, et homo virtutum est coelum (Manual., c. XXIV).


Referências:

[1] Se fideliter atque sapienter creationis nostra intelligamus exordium, inveniemus hominem ideo ad imaginem Dei conditum, ut imitator sui esset Auctoris; et, hanc esse naturalem nostri generis dignitatem, si in nobis, in quodam speculo, divinae benignitatis forma resplendeat (Serm. I, De Jejunio X mensis.)

[2] Meminisse, itaque, fratres dilectissimi, et scire devemos, quia quando Patrem Deum dicimus, quase filii Dei agere devemos; ut, quomodo nos nobisplaceinus de Deu Patre, sic sibiplacceat et ille de nobis (Serm.).

[3] An nescitis quoniam membra ventra templum sunt Spiritus Sancti, qui in vobis est, quem habetis a Deo, et non estis vestis? Empti enim estis pretio magno. Glorificate et portate Deum in corpore vestro (I Cor VI, 19­20).

[4] Corpo Místico de Cristo (Nota do tradutor).

[5]  Agnosce, o christiane, dignitatem tuam, et divinae consors factus naturae, noli in veterem vilitatem degenere conversatione redire. Memento cujus spiritus et cujus corporis sis membrum. Reminiscere quia, erectus de potestate tenebrarum, translatas es in Deu lumen et regnum. Per Baptismatis sacramentum Spiritus Sancti factus est templum. Noli tantum habitatorem pravis de te actibus effugare, et diaboli te iterum subjicere servituti; quia pretium tuum sanguis est Christi, qui in veritate te judicabit, quia misericórdia te redemit (Serm. I, de Nativ.).

[6]  Filii hominum sunt, quando male faciunt; quando bene, filii Dei. Hos enim facit Deus ex filis hominum filios Dei, quia ex Filio Dei fecit Deus filiam hominis. Videte quae sit illa participatio Divinitatis! Filius enim Dei particeps nostrae mortalitatis effectus est, ut mortalis homo fiat particeps Divinitatis suae. Qui tibi promissit Divinitatem, ostendit in te caritatem. (In Psalm. LII).

[7]  Quando Deum Patrem dicimus, quase filii Dei agere debemus; ut nobis placemus de Deo Patre, sic sibi placeat et ille de nobis. Conversemur quase Dei templa, et Deum in nobis constet habitare; ut qui coelestes et spiritales esse cepimus, non nisi spiritalia et coelestia cogitemos et agamus (Tract. de Orat. ).

[8]  Natus est Christus in carne, ut nos nasceremur in Spiritu; natus est in tempore, ut tu nascceris in aeternitate; natus est in satabulo; tu nascereris in coelo (Serm. de Nativ.).

[9] Patris Verbum est homo noster, ut hujusmodi mixtione Deum hominibus misceat. Unus utrimque Deus est, hactenus homo effectus, ut me ex mortali Deum efficiat (In Distich.).

[10] Per imaginem animar impressão meae, obtinui rationis usum; verum Christianus effectus, utique similis efficior Deo (Homil. X, Hexaem.)

[11] Os habent, et non loquentur óculos habent, et non videbunt; aures habent, et non audient; nares habent, et non odorabunt; manus habent, et non palpabunt, pedes habent, et non ambulabunt; non clamabunt in gutture suo (Psalm. CXIII, 5-7).

Desprendimento

Desprendimento, Tesouros de Cornélio à Lápide

É preciso que sejamos desprendidos

A fim de que o espírito, ocupado tão somente com os bens temporais, não ponha menos cuidado em possuir os eternos, o cristão deve ter tanta confiança na divina Providência, diz São Gregório, que, ainda quando não se possa procurar o necessário para a vida, deve estar bem convencido de que o necessário nunca este haverá de lhe faltar: Tanta debet esse in Deum fidúcia, utpraesentis vitae sumptibus quamvis non provideat, tamem sibi hos non desse certissimar sciat; ne dum mens ejus occupatur ad temporalia, minusprovideat aeterna (Pastor.).

Não leveis ouro, nem prata, nem dinheiro algum em vossos bolsos, disse Jesus Cristo a seus discípulos: Nolite possidere aurum, neque argentum, neque pecuniam in zonis vestris (Mt 10, 9). Quando viajares, não leveis nem alforje, nem duas túnicas, nem duas sandálias, nem tampouco cajado: Non meram in via, meque duas tunicas, neque calceamenta, neque virgam (Mt 10, 10)[1]. Continue reading

Desobediência

Desobediência, Tesouros de Cornélio à Lápide

A desobediência é pecado

Se aquele a quem desobedeceis com a violação de seus Mandamentos não fosse mais que vosso Senhor e Dono, diz São Gregório, e não vosso Criador, vosso Redentor e vosso Deus, a transgressão de que vos faríeis culpáveis seria grave; porém, julgai quão grave e vituperável ela é, sendo Aquele a Quem vos negais a obedecer, vosso Deus, vosso Criador, vosso Redentor e Conservador!

Desobedeceis às ordens de vosso Deus que vos tirou do nada, que vos criou à Sua imagem, que vos fez superiores a todos os seres corpóreos, e declarou-vos rei, e rei por toda a eternidade! Não é o vosso Deus, de uma maneira especial, Aquele que vos cumulou de tantos e tão grandes favores?

E, sem embargo, desprezais seus Preceitos, que, embora não sejam comuns a todas as criaturas, vós os deveis observar porque foram feitos para vós, são-vos próprios, e foram depositados sob a guarda de vosso livre arbítrio (Lib. Moral.). Continue reading

Desesperação

Desesperação, Tesouros de Cornélio à Lápide

Causas da desesperação

Os motivos que alegamos para deixar-nos levar pelo desespero são os seguintes:

1.° Que são demasiado grandes nossos pecados para esperar misericórdia. Assim foi a desesperação de Caim: Minha maldade – disse o primeiro dos desesperados – é tão grande, que não posso esperar perdão: Major est iniquitas mea, quam ut veniam merear (Gn 4, 13);

2.° Enumeramos as faltas de que nos fizemos culpáveis;

3.° Pomos, na frente, a força do costume, que nos impede de esperar quando, na verdade, nós os podemos corrigir;

Há também outras causas do desespero:

4.° Os escrúpulos;

5.° A falta de confiança em Deus;

6.° A astúcia do demônio para fazer com que o homem peque, ocultando-lhe a fealdade do pecado, e tratando de apresentá-lo pleno de doçuras e encantos. E logo, quando triunfou, a fim de deter o pecador no caminho do mal, o demônio apresenta-lhe mil obstáculos que lhe impedem de levantar-se daquela queda;

7.° As grandes tentações;

8.° O tédio; e

9.° A adversidade.

Porém, todos esses motivos de desesperação estão mal fundados e são enganosos, porque não há nenhum crime que não possa ser perdoado mediante um sincero arrependimento e uma verdadeira penitência. Continue reading

Desejos bons

Desejos bons, Tesouros de Cornélio à Lápide

O que temos de desejar

O que temos de desejar? Temos de desejar a Jesus Cristo.

Se alguém tem sede, diz Jesus Cristo, venha a mim e beba: Si quis sitis, veniat ad me, et bibat (Jo 7, 37). Sedenta está minha alma, diz o Rei Profeta, do Deus forte e vivo. Quando chegarei e me apresentarei ante a face de Deus? Sitivir anima mea ad Deum, fontem vivum: quando veniam, et apparebo ante faciem Dei? (Sl 41, 3).

Jesus Cristo é chamado de Desejado das Montanhas Eternas: Desiderium collinum aeternorum (Gn 49, 26), isto é, desejo dos Anjos, dos Patriarcas e dos Profetas etc. O profeta Ageu chama a Jesus Cristo de Desejado de todas as nações: Desideratus cunctis gentibus (Ag 2, 8).

Jesus Cristo é chamado Desejado de todas as gentes:

1.° Porque é soberanamente digno de ser desejado. Ainda que as nações infiéis não o desejassem, e nem sequer o conhecessem, necessitavam, entretanto, de sua vinda para verem-se livres de suas numerosas misérias. Por isso, desejavam-No, não com o desejo sobrenatural, senão com um desejo natural, como a terra seca deseja a chuva.

Ter necessidade é, em resumo, desejar aquilo que possa aliviar a necessidade que se experimenta. Porém, assim que as nações ouviram aquilo que os Apóstolos falavam Dele, de sua vida, de sua doutrina, de sua santidade, de sua moral e de seus milagres etc., desde este momento, a pregação tocou seus corações e enterneceu-as, começaram a desejar sobrenaturalmente a Jesus Cristo.

E quanto mais O conheciam, mais desejaram-No e amaram-No, a tal ponto que, não somente davam suas riquezas, senão sua vida e seu sangue, com alegria, por Ele. A multidão inumerável dos mártires o atesta. Por isso, o patriarca Jó o chama de Esperança das Nações: Expectatio gentium (Gn 49, 10).

2.° Chama-se Jesus Cristo o Desejado das nações porque preencheu e satisfez completamente todos os desejos. A Igreja, com seus cânticos de alegria, expressa o desejo que tem de Jesus Cristo: Ó Jesus, nossa redenção, amor e desejo nosso: Jesu, nostra redemptio, amor et desiderium (Hom. in Ascens.).

As nações que, antes da vinda de Jesus Cristo, seguiam a Lei Natural e acreditavam em Deus, os prosélitos e aqueles que se convertiam ao judaísmo, assim como os judeus, desejavam e aguardavam o Cristo, a Quem esperavam como Salvador do mundo, como um raio celestial, como um esplendor da luz eterna, como o Sol de Justiça que devia iluminar o universo sepultado nas trevas da ignorância e da infidelidade, que devia arrancar aos homens da morte, que devia curá-los, justificá-los e beatificá-los. Assim, anelavam por Jesus Cristo Adão, Enoque, Noé, Sem, Abraão, Isaac, Jacó, José, Jó etc.

Jesus Cristo, no Céu, é o desejado de todos os eleitos, e de todos os Anjos; todos desejam ter o gozo de sua Divindade e de sua Humanidade; Ele preenche e satisfaz seus desejos, embriaga-os! Jesus Cristo é o único desejo das almas justas; não desejam mais que agradá-Lo, amá-Lo cada dia mais e mais, servir-Lhe e poder possuí-Lo.

Ouvi aquele belo hino de São Bernardo:

Desidero te millies;
Mi Jesu, quando venies?
Me laetum, quando facies? Me de te quando saties?
Mil vezes, desejo-Vos,
ó meu Jesus, quando vireis?
Quando me dareis a alegria?Quando me satisfareis com vosso próprio Corpo?
Jesu, rex admirbilis,
Et triunfador nobilis,
Dulcedo ineffabilis,
Totus desiderabilis.
Ó Jesus, Rei admirável,
nobre triunfador,
doçura inefável,
Inteiramente digno de ser desejado.
Quanto cor nostrum visitas, Tunc lucet ei veritas
Mundi vilescit vanitas,
Et intus fervet caritas.
Quando visitais nosso coração,
então, ele vê a verdade,
despreza a vaidade do mundo,
e a caridade o devora.
Jesu, summa benignitas,
Mira cordis jucunditas, Incomprehensa bonitas,
Tua me stringat caritas.
Ó Jesus, benignidade suprema,
admirável alegria do coração,
incompressível bondade,
abrasa-me fortemente vosso amor.
O Jesu mi dulcissime,
Spes suspirantes animae!
Te quaerunt piae lacrimae.
Te clamor mentis intimae.
Ó Jesus, que me embriagais de delícias
esperança da alma que suspira por Vós!
As lágrimas de vosso afetíssimo servo chamam-Vos
e também um grito saído do fundo de minha alma.
Jam, quod quaesivi, video;
Quod concupivi, teneo;
Amore, Jesu, langueo,
Et corde totus ardeo.
Vejo Aquele que tenho buscado;
e possuo Aquele que tenho desejado;
Ó Jesus, desfaleço de amor,
Meu coração é um incêndio.
O beatum incendium,
Et ardens desiderium!

O dulce refigerium,
amare Dei Filium!
Ó, ditoso incêndio,
que ardente desejo!
Ó, que doce refrigério
é amar o Filho de Deus!

1.° Tendes fome? Desejai a Jesus; Ele é o Pão dos Anjos, o Maná que contém em si o necessário para contentar a todos os gostos.

2.° Tendes sede? Desejai a Jesus; é o manancial das águas vivas que apagam a sede; é o vinho que embriaga a alma, o vinho que faz germinar virgens.

3.° Estais enfermo? Desejai a Jesus; é o Médico, o Salvador, a Saúde mesma.

4.° Estais na véspera da morte? Desejai a Jesus; ele é a Vida e a Ressurreição.

5.° Quereis formosura e riquezas? Ele é a Formosura mesma e um oceano de todos os tesouros.

6.° Quereis verdadeiras honras, verdadeiros prazeres? Ele vos fará rei e cumular-vos-á de delícias.

7.° Quereis um sincero amigo? Jesus é o melhor dos amigos e o único amigo.

8.° Quereis sabedoria? Ele é a Sabedoria incriada do Pai.

9.° Quereis santidade e vida? Ele é a Santidade e a Vida por essência.

10.° Sois pecador? Invocai a Jesus; Ele morreu para resgatar-nos.

11.° Desejais vencer vossos inimigos? Ele triunfou do demônio, do mundo, da carne, da morte, do Inferno, e da indignação de seu Pai; ele é o Caminho, a Verdade e a Vida; aquele que o segue, não anda nas trevas. Desejai a Jesus, suspirai por Jesus. Nele achareis todos os bens; fora Dele estão todos os males.

Dizei com São Francisco de Assis:

“Jesus meu, meu amor e meu tudo”: Jesus meus, amor meus et omnia (S. Bonav., in ejus vita).

Contai com a Igreja: Jesus é a glória dos Anjos, é uma doce harmonia para o ouvido; é requintado mel para os lábios, e néctar celestial para o coração:

Jesus decus angelicum,
In aure Dulce canticum,
In ore mel mirificum,
In corde nectar coelicum.

Ó Jesus, abrasai meu coração com o ardente desejo de vos amar. Tratando de uma desigualdade que existe entre os bem-aventurados, Santo Tomás diz que gozarão com mais abundância da presença divina do que neste mundo A tenham desejado, ainda que a tenham querido com o mais ardente afã; porque a doçura do gozo está na razão dos desejos.

Como a flecha que parte de um arco muito esticado fende os ares com rapidez e penetra profundamente no centro branco do alvo, a alma fiel que se tenha lançado com uma grande impetuosidade de desejos até Deus, finalidade de suas esperanças, penetrará profundamente no abismo da essência divina (S. Th. I, Pars, q. 5, a. 7).

Se quiséssemos resumir em algumas palavras o que deve ser o objeto de nossos desejos, deveríamos dizer:

1.° Temos de desejar a Jesus Cristo;

2.° Temos de desejar nossa conversão, o perdão de nossos pecados e a graça de não recair;

3.° Temos de desejar a virtude, a graça, e a cooperação da graça;

4.° Temos de desejar o cumprimento da vontade de Deus;

5.° Temos de desejar o reino de Jesus Cristo em todos os corações;

6.° Temos de desejar o Céu.

Isto é o que temos de desejar na terra;

  • estes são os únicos desejos que temos de conservar sempre;
  • os únicos que serão capazes de fazer-nos felizes nesta vida e na outra;
  • os únicos que podem satisfazer nosso coração;
  • os únicos que sejam dignos do homem feito à imagem de Deus, e destinado a gozar eternamente de sua Presença.

Todos os desejos opostos àqueles que aqui temos manifestado são desejos de morte e de maldição. Assim, o desejo dos bens da terra, o dos prazeres, o dos horrores do mundo, são desejos de morte. O desejo que tenha, por finalidade, a criatura, o corpo ou o tempo é um desejo de morte.

Segundo os desejos que se apoderam de nosso coração e governam-nos, já podemos saber nesta vida, sim, se haveremos de salvar-nos ou condenar-nos!

Excelências e vantagens dos bons desejos

A grande perversidade do coração, diz Álvares, tem sua origem no desejo do mal; o espírito excitado e vencido por este desejo entrega-se ao pecado; de um pecado cai em outro, até que chega ao hábito; do hábito cai em um endurecimento do coração e à extrema miséria.

Da mesma maneira a perfeição suprema do coração começa pelo desejo do bem; aumentando este desejo as forças da alma, solicitando-o ou instando-o, faz-lhe produzir boas obras; pela reiteração das boas obras, faz adquirir o hábito da virtude; e, por meio este bom habito leva-o a amar a Deus por ser Quem é; e assim, obedecendo a seus bons desejos, a alma chega à perfeição. Este desejo é a porta pela qual entram no santuário da Santidade! Este é o vento que faz avançar o navio do coração do escolho das coisas terrenais, empurra-o e o faz chegar pronta e felizmente ao Porto da Salvação (In Isaiam.).

Eu vim, diz o Anjo a Daniel, para dar-vos a conhecer a verdade, porque sois um varão de ardentes desejos: Ego veni ut indicarem tibi, quia vir desideriorum es (Dn 9, 23). Não temais, ó varão de desejos, continuou o Anjo: a paz esteja convosco; alentai-vos e fortificai-vos: Noli timere, vir desideriorum; pax tibi; confortare, et esto robustus (Dn 10, 19).

Desejei a inteligência, diz a Sabedoria, e ela foi-me concedida; e invoquei do Senhor o espírito de sabedoria, e foi-me dado: Optavi, et datus est mihi sensos, et veni in me spiritus sapientiae (Sb 7, 7).

Tiveram sede, acrescenta a sabedoria, e vos invocaram, Senhor; e um rio brotou para eles do alto de uma rocha, e as sede apagou-se com as águas que saíram da pedra: Sitierunt, et invocaverunt te, et data est illis aqua de petra altíssima, et sitis de lapide duro (Sap. XI, 4).

Aquele que está repleto de desejos, encontrará o verdadeiro repouso, acrescenta a Sabedoria.

O Senhor, diz o Salmista, saciou a alma vazia dos desejos do mundo, saciou de bens a alma sedenta de graças: Satiavit animam inanem, et animam esurientem satiavit bonis (Sl 106, 9).

Tratando de ver a Jesus para conhecê-Lo, Zaqueu adiantou-se correndo, e subindo a uma árvore, em um lugar por onde haveria de passar o Salvador. Ao chegar àquele lugar, Jesus, levantando os olhos, viu-o e disse-lhe: Zaqueu, desce depressa, porque convém que eu me hospede hoje em tua casa; e Zaqueu, desce rapidamente, e recebe-O com gozo. Posto em sua presença, Zaqueu disse: Senhor, dou a metade de meus bens aos pobres; e se defraudei alguém, vou restituir quatro vezes mais. Jesus respondeu-lhe: Hoje foi um dia de salvação para esta casa (Lc 19, 3-9).

O bom desejo de Zaqueu procurou-lhe:

1.° A dita de ver a Jesus;

2.° A de fazer grandes esmolas;

3.° A de receber a Jesus em sua casa; e

4.° Finalmente, a de ouvir dos lábios do Salvador mesmo aquelas palavras que deviam lhe causar uma indizível alegria: Hoje a salvação entrou nesta casa: Hodie salus domui huic facta est (Lc 19, 9).

Que o meu Deus cumule, segundo as riquezas de Sua bondade, todos os vossos desejos com a glória que Ele vos dá em Jesus Cristo, diz o grande Apóstolo aos Filipenses: Deus meus impleat omne desiderium vestrum, secundum divitias suas, in gloria in Christo Jesu (Fl 4, 19).

Venha aquele que tem sede, diz o Senhor no Apocalipse; e aquele que quer, tome gratuitamente da água da vida: Qui sitit, veniat; et qui vult, accipiat aquam vitae gratis (Ap 22, 17).

Derramarei as águas sobre a terra sedenta, disse o Senhor pela boca de Isaías: Effundam aquas super sitientem (Is 44, 3). Vós que tendes sede, vinde todos às águas, apressai-vos, comprai e comei: vinde, comprai sem dinheiro e sem nenhuma outra permuta vinho e leite: Omnes sitientes, venite ad aquas; properate, emite absque argento et absque nulla commutatione vinum et lac (Is 55, 1).

Desejando a vida eterna, consegue-se chegar a ela, desde que fortifiquemos e conservemos este desejo. Se dizeis com enérgica vontade: “Meu Deus, eu vos desejo, eu vos quero”, Deus será vosso, porque a bondade de Deus não Lhe permite jamais negar-se a um coração que o deseje; e nenhuma força pode arrebatar-Lhe daquele que O possua. Deus não é um amigo variável que se canse com o tempo!

Como poderia esse Deus tão bom, com Sua mão benfeitora, arrancar a seus próprios filhos de Seu seio paternal em que querem viver? Nada está mais distante de Seu pensamento! E, de todas as verdades, a mais certa, a melhor fundada, a mais imutável, é que Deus não pode faltar àquele que O deseje, e que ninguém pode perder a Deus, senão aquele que primeiro se distancie Dele, voluntária e espontaneamente.

Não fez bem São Paulo excitando-nos a desejar as coisas celestiais, posto que, desejando-as com ardor, adquirimo-las? Deleitai-vos, disse o grande Apóstolo, nas coisas do Céu, e não nas da terra: Quaesursum sunt, sapite; non quae super terram (Cl 3, 2).

O desejo dos justos dirige-se ao bem, dizem os Provérbios: Desiderium justorum omne bonum est (Pr 11, 23). O verdadeiro meio de crescer em virtudes é o desejá-las; porque pelo desejo criamos interiormente as virtudes, fortificamo-las, multiplicamo-las e praticamo-las exteriormente, sem nos determos nem por respeito humano, nem pelo temor, nem pelo sofrimento, nem pelas ameaças, nem pelas perseguições, nem pela mesma morte.

E olhai os tesouros encerrados em um bom desejo:

1.° O pobre que deseja ardentemente dar esmolas e não pode, tem, por este simples fato, o mérito da esmola; merece tanto e muitas vezes mais que o rico que tenha costume de socorrer aos pobres;

2.° O enfermo, o desvalido que deseja jejum ou levar cilício, tem o mérito do jejum e o cilício.

3.° O religioso ligado por obediência a uma função vil, obscura, de pouco valor aparente, que arda em desejos de fazer aquilo que os demais fazem, que deseje pregar, instruir, ouvir confissões, visitar aos desvalidos, aos enfermos, partir para converter aos infiéis com risco de vida etc., e oferece a Deus todos esses piedosos e ardentes desejos como se fossem ações.

São Paulo assegura que assim acontece, em sua segunda Carta aos Coríntios. Quando um homem tem grande vontade de doar, Deus o aceita, não lhe exigindo mais do que pode doar, e não aquilo que não o pode: Si enim voluntas prompta est, secundum id quod habet, accepta est, non secundum id quod non habet (2 Cor 8, 12).

Com estas palavras, o Apóstolo indica que Deus atende mais à vontade contida no desejo, que ao mesmo dom. E a razão está em que a perfeição de uma virtude está na vontade firme, no bom desejo, antes que no nome e na grandeza das obras. Por isso, diz Santo Agostinho: Deus coroa a boa vontade, quando vê que lhe falte o poder para operar: Bonam voluntatem coronat, quando non invenit facultatem (De Coelest. Vita).

São Bernardo diz também: Deus paga, sem dúvida nenhuma, aquilo que não pode fazer a boa vontade: Deus indubitanter tribuit bonae voluntati, quod defuit facultati (Epist.).

Santo Tomás dá-nos disso uma razão evidente: o valor formal de uma ação exterior, diz aquele grande Doutor, depende inteiramente da bondade do ato interior, porque a ação vive da vontade: Quia tota formalis bonitas operis exterioris pendet a bonitate actus interioris, quia a voluntate elicitur (S. Th. II Pars, q. 8, art. 5). Estejamos, pois, plenos de boa vontade, de bons desejos; e nós nos enriqueceremos para o Céu.

Podeis merecer tanto quanto o queirais, diz São Bernardo; o mérito cresce em proporção da boa vontade: Tantum mereis, quantum vis; et bona crescente voluntate, crescit pariter et meritum (Serm. LXXXV). Não é andando, acrescenta aquele santo Doutor, como se busca e se encontra a Deus, senão com a ajuda dos desejos: Non pedum passibus, sed desideriis quaeritur Deus (Serm. LXXXIV).

Consome-se o gozo no desejo?, pergunta aquele Padre. Não; o gozo é o azeite, o desejo é a chama. O homem de desejos ver-se-á cumulado de alegria; porém, como o seu desejo não terá fim, por conseguinte, sem cessar, ele será levado a buscar nova alegrias: Numquid consummatio gaudi, desiderii consummatio est? Oleum magis est illi; nam ipsum flamma. Adimplebitur laetitia; sed desiderii non erit finis; ac per hoc nec quaerendi (Serm. LXXXIV).

Daí surgirão, continua São Bernardo:

1.° Uma saciedade sem desgosto;

2.° Uma curiosidade insaciável, ainda que sem arrebato;

3.° Um etemo inexplicável desejo que não vem da indigência; e

4.° Uma embriaguez sóbria, nascida, não de uma taça, senão do descobrimento da verdade, e contendo, não vinho, mas Deus[1].

Quantas riquezas e quantos tesouros estão encerrados nos desejos santos! E quão fácil é adquirir com eles os méritos, a salvação e a coroa que não murchará nunca!

Deus está pleno de bons desejos a nosso favor

Não é o desejo de fazer-nos felizes o que induz a Deus a criar-nos à sua imagem? Não é um desejo explicável de salvar-nos o que o induz a encarnar-se, a nascer em um estábulo, a sofrer e morrer por nós numa cruz?

Tenho sede, exclamava no alto da Cruz: Sitio. Tinha sede de resgatar nossas almas e salvar-nos. Não é o desejo de fazer-nos bem o que Lhe faz dizer: Eis-me aqui chamando à porta de vosso coração; se alguém escutar minha voz, e me abrir a porta, entrarei, e ele ceará comigo e Eu com ele? Ecce sto ad ostium, et pulso; si quis aperuerit mihi janua, intrabo ad illum, et coenabo cum illo, et ipse mecum (Ap 3, 20).

Não é um ardente desejo aquele que Lhe inspira aquelas palavras: Minhas delícias consistem em estar com os filhos dos homens? Deliciae meae esse cum filiis hominum (Pr 8, 31). Não é um desejo infinito de cumular-nos de favores aquele que O levou a instituir o Augusto Sacramento de nossos altares, a dar-Se a nós? Desejei, diz a seus Apóstolos na véspera de sua morte, desejei ardentemente, comer este cordeiro pascal convosco, antes de minha paixão: Desiderio desiderari hoc Pascha manducare vobiscum, ante quam patiar (Lc 22, 15).

Este Deus de amor antecipa-Se àqueles que Lhe desejam, e manifesta-Se a eles, diz a Sabedoria: Praeoccupat qui se concupiscunt, ut illis se prior ostendat (Sb 6, 14).

O homem que se desperte em Sua busca desde a madrugada, Ele, que é a Sabedoria do Pai, não terá nenhum trabalho para fazer, pois a achará sentada à sua porta: Qui de luce vigilaverit ad illam, non laboravit; assidentem enim illam foribus suis inveniet (Sb 6, 15).

Ó Jesus, exclama a Igreja no Hino da Ascensão, qual foi, pois, o desejo de clemência que Vos venceu, que Vos levou a sobrecarregar-Vos com nossos crimes, e a sofrer uma morte cruel para subtrair-nos à morte eterna?

Quae te vincit clementia,
Ut ferres mostra crimina;
Crudelem mortem patiens,
Ut nos a morte tolleres?
(Hymn. inAscens.)

São Gregório Nazianzeno convida a que todos os homens desejem a Deus, fazendo sobressair Sua infinita bondade, que tanto agrada-Lhe exercer. Depois de haver cuidadosamente desenvolvido esta consideração, conclui dizendo: Deus deseja ser amado, Ele tem sede… poderíeis acreditar nisso? Tem sede de nós, em meio a Sua abundância (Orat. in S. Baptisma.).

Por mais infinito e rico que seja Deus por Si mesmo, podemos, contudo, obrigar-Lhe. E como sucederá isso? Desejando que nos faça o bem. Porque será que Ele doa com o desejo mais ardente de ofertar, do que nós quando desejamos receber?

Não reconheceremos, porventura, este Deus de bondade semelhante a um manancial que com a contínua fecundidade de suas águas claras e frescas parece se oferecer aos sedentos passageiros? Sempre rica, sempre abundante, a Natureza

Divina não pode crescer nem diminuir, por causa de sua plenitude; o único que lhe falta, se assim se pode dizer, é que retirem de Seu seio as águas da vida eterna.

Eis aqui porque São Gregório tem razão ao dizer que Deus tem sede de que tenhamos sede Dele; Sitit sitiri; e, ao acrescentar que Ele considera como um benefício que nós, com os nossos desejos, cheguemos a dar-Lhe os meios de fazer o bem. É fazer uma injúria a esta bondade infinita o não desejar ardentemente que ela nos enriqueça.

Afetos dos Santos para com Deus. Imitemo-los.

Assim como o cervo suspira sedento pelos mananciais de água, assim minha alma clama por vós, ó meu Deus, diz o Profeta: Quaemadmodum desiderato cervus ad fontes aquarum, ita desiderato anima mea ad te, Deus (Sl 41, 2). Minha alma está sedenta do Deus forte e vivo: Sitivit anima mea ad Deum, fontem vivium (Sl 41, 3).

Filhas de Jerusalém, diz o Esposo dos Cantares, conjuro-vos que se encontrardes a meu amado, fazei-Lhe saber que estou enferma de amor: Adjuro vos, filiae Jerusalem, si invenieritis dilectum meum, ut nuncietis ei quia amor langueo (Ct 5, 8).

Ó meu querido, porque não posso encontrar-te e abraçar-te?, exclama aquela Esposa desolada por haver perdido a seu Deus, objeto de seus ardentes desejos. Para onde foste tu, muito amado? (Ct 5, 17). Eu abri a minha porta para que o meu Amado entrasse; porém, ele já Se havia ido e passado adiante. Minha alma desmaiava ao eco de Sua voz: busquei-O, mas não O encontrei; chamei-O fortemente, e não me respondeu (Ct 5, 6). Não vistes o Amado de minha alma? Num, quem diligit anima mea, vidistis? (Ct 3, 3). Eu dormia, mas meu coração velava! (Ct 5, 2).

Plena de anelo de ver a Jesus Cristo, Madalena corre, muito cedo, ao sepulcro; e não achando ao objeto de seu amor, pois Jesus Cristo já havia

ressuscitado, derrama uma torrente de lágrimas. Aparece-lhe o Salvador, sem Se dar a conhecer, e diz-lhe: Mulher, por que choras? A quem buscas? Mulier, quid ploras? Quem quaeris? (Jo 20, 15). Supondo que ele fosse o jardineiro, ela disse-Lhe: Senhor, se fostes vós quem o levastes daqui, dizei-me onde O colocastes e eu O irei buscar. (Jo 20, 16). Jesus não pronunciou mais que esta palavra: Maria! (Jo 20, 16). Imediatamente, ela O reconheceu e, prostrando-se, adorou-O.

São Paulo desejava morrer para estar com Jesus Cristo: Desiderium habens dissolvi, et esse cum Christo (Fl 1, 2-3).

Toda a vida de um bom cristão é um santo desejo de ir de virtude em virtude, de perfeição em perfeição, de viver e de morrer por Jesus Cristo, esta é a única verdadeira vida, não há outra!

Motivos que nos excitam a ter bons desejos

Três coisas que excitam os desejos do homem: a formosura, dos benefícios e o amor. Somente uma delas basta, muitas vezes, para inflamar seu coração; porém, Deus possui as três em grau supremo. Como podemos, pois, negar-nos a desejar- Lhe e a amar-Lhe? Desejais ter riquezas, prazeres, honras… E seriam, por acaso, comparáveis com aquilo que Deus possui, com tudo quanto Ele vos reserva, se o desejais?

Não devemos cessar de buscar a Deus, porque não se deve deixar de amá-Lo, diz Santo Agostinho: Deus est sine fine quaerendus, quia sine fine amandus (Civit. Dei).

O que se deve fazer para ter bons desejos

O desejo de conhecer, de amar e de servir a Deus é coisa tão ardente como o fogo: o desejo não se pode conter interiormente, senão que se lança fora por meio de suspiros, palavras e obras.

Quatro qualidades tem o cervo[2]:

1.° É inimigo declarado das cobras, e faz-lhes uma contínua guerra; queremos também que Deus nos cumule de santos desejos? Façamos ao demônio, antiga e venenosa serpente, uma guerra encarniçada;

2.° Quando o cervo vê-se perseguido pelos caçadores, foge com rapidez, e não se detém até alcançar o cume das mais altas montanhas. Perseguidos também nós pelo demônio, o mundo e a concupiscência, subamos prontamente às montanhas eternas, e imploremos o socorro do Céu; então, nossas almas ficarão plenas de piedosos desejos;

3.° Os cervos observam por instinto aquele preceito de São Paulo aos Gálatas: Alter alterius onera portate (Gl 6, 2). Porque, quando os cervos transitam em manada, reclinam sua cabeça carregada com o peso de seus chifres no grupo daqueles que lhe precedem. Assim, pois, se queremos ter desejos santos, sejamos caritativos e condescendentes com o próximo; e

4.° Quando os cervos estão devorados de ardente sede, nenhum obstáculo lhes pode impedir de buscar água. Vençamos, da mesma maneira, todos os obstáculos que se oponham à realização de nossos bons desejos.


Referências:

[1] Hinc illa satietas sine fastidio. Hinc insatiabilis illa sine inquietudine curiositas. Hinc aeternum illud atque inexplicabile desiderium nesciens egestatem. Hinc denique sóbria illa ebrietas, vero, non mero ingurgitans; non madens vino, sed ardens Deo (Serm. LXXXIV).

[2] Mamífero ruminante, da família dos cervídeos (Nota do tradutor).

Demora na conversão

Demora na conversão, Tesouros de Cornélio à Lápide

Necessidade de não adiar nossa conversão

É preciso converter-se, e converter-se logo. É preciso apressar nossa marcha, correr para nossa conversão, diz São João Crisóstomo: Cum opus est, et vehementi cursu (Homil. ad pop.). É preciso dispor-nos prontamente a seguir nossa viagem, porque o caminho é longo e a vida é curta. A vocação[1] de Deus insta-nos; há perigo no adiamento!

Não tardes em converter-te ao Senhor, não adies (a tua conversão) de um dia para o outro, diz o Eclesiástico: Non tardes converti ad Dominum, et ne differas de die in diem (Eclo 5, 8). Quem é aquele que, tendo apanhado uma víbora, não a solta imediatamente? Quem teria em sua casa um inimigo capital, um assassino? Quem aguentaria sustentar o fogo na mão? O pecado mortal é uma víbora, um assassino, um fogo devorador. Por conseguinte, assim que o sintamos em nosso coração, devemos expulsá-lo.

Santo Agostinho declara, com amargas lágrimas, o tempo que tardou em converter-se:

“Ó Formosura, sempre antiga e sempre nova, exclama ele, quanto tardei em vos amar!” (Lib. Confess.).

Por que, pergunta-nos o Senhor no Eclesiástico, por que vós vos atrasais? Vossas almas estão ardendo de sede? Qui adhuc retardatis? Animae vestrae sitiunt vehementer (Eclo 51, 32). Continue reading

Demônios

Demônios, Tesouros de Cornélio à Lápide

Há demônios

Não há dúvida que há espíritos malfeitores que se chamam demônios, pois a Sagrada Escritura no-lo testemunha e todas as nações o reconhecem unanimemente.

As nações pagãs acreditaram na existência de certos entes, uns bons e outros maus, deduzindo disto que era preciso ganhar o afeto dos bons com respeito, oferendas e orações. E apaziguar a cólera e a malignidade dos maus. Daí, nasceram a idolatria, o politeísmo, as práticas supersticiosas, a magia, a adivinhação etc. Esta crença também foi a dos filósofos pagãos.

A Revelação veio a esclarecer-nos sobre a existência dos demônios. Moisés diz-nos que a primeira mulher foi enganada e desobedeceu a Deus por sugestão de um inimigo pérfido oculto sob a forma de serpente (Gn 3, 1). Diz o livro do Deuteronômio que os israelitas imolaram seus filhos aos demônios (Dt 32, 17). O Salmista menciona o mesmo fato: Immolaverunt filios suos et filias suas demoniis (Sl 105, 37).

Jesus Cristo falou da existência dos demônios; os expulsava dos corpos dos possuídos. Também os Apóstolos falam-nos deles. A existência dos demônios é um dogma da Igreja Católica. Continue reading

Deveres dos pais

Deveres dos pais, Tesouros de Cornélio à Lápide

Responsabilidade dos pais

Os pais devem ver seus filhos como se não lhes pertencessem, e devem também se recordar de que Deus, Autor da vida, os depositou em suas mãos, encarregando-lhes do cuidado de formar servidores fieis. Os filhos são de Deus. Pois, o que temos que nos pertença, se nós nem sequer pertencemos a nós mesmos?

O Senhor diz a todos os pais e a todas as mães: Tomai esta criança, alimentai-a; e eu vos recompensarei: Accipe puerum istum, et nutri mihi, ego dabo tibi mercedam tuam (Ex 2, 9). Não cometais esse crime contra o menino, porque sois responsável por seu sangue: nolite peccare in puerum, in sanguis ejus exquiritur (Gn 42, 22).

A alma dos pais responderá pelas almas dos filhos, diz o Senhor: Anima ejus eritpro anima illius (II Reg. X, 24).

Guardai a vosso filho. Se ele vier a perder-se, vossa alma pagará pela sua, acrescenta o Senhor: Custodi virum istum, qui, lapsus fuerit, erit anima tua pro anima illius (I Reg. XX, 39).

Pedir-vos-ei contas do sangue de vossos filhos, ou de sua perdição, diz o Senhor: Sanguinem ejus de manu tua requiram (Ez 3, 18). Continue reading

Deveres dos filhos

Deveres dos filhos, Tesouros de Cornélio à Lápide

Primeiro dever dos filhos a respeito de seus pais: o amor

Honra teu pai e tua mãe, diz o Senhor em seu Quarto Mandamento, para que viva longos anos sobre a terra: Honora patrem tuum et matrem tuam, ut sis longevus super terram (Ex 20, 12).

Este quarto preceito obriga, desde cedo, a que os filhos amem a seus pais.

Todos os deveres do homem com relação a Deus estão contidos nos três primeiros Mandamentos; seus deveres com relação ao próximo acham-se incluídos nos sete restantes. E como, na terra, o pai e a mãe ocupam o primeiro posto, Deus põe o Quarto Mandamento como primeiro dos sete que nos ligam ao próximo.

São Paulo observa que é o primeiro mandamento ao qual Deus fez acompanhar uma promessa: Quod est mandatum primum in promissione (Ef 6, 2). Deus valeu-se do termo honrar melhor do que amar, porque a palavra honrar abarca tudo, diz o Catecismo do Santo Concílio de Trento. Continue reading

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