Capítulo 41. O Medo e a Ética - Livro Rumo à Felicidade, de Fulton Sheen
A MAIOR parte das neuroses são baluartes contra o medo. Muitos psicólogos e médicos passaram a adotar esta tese, dado que o medo, na verdade, provoca uma espécie de autodefesa. Não é, decerto, o medo que é temido; o inimigo é a tensão entre a consciência e o que aconteceu. O medo é como o dinamômetro numa caldeira a vapor. Registra simplesmente a pressão.

O modo mais simples, mas o pior, para repelir do espírito o medo é reprimi-lo, isto é, relegá-lo para o inconsciente.

Quando visitas inesperadas chegam, a dona de casa apanha a roupa velha e as camisas sujas, que se encontram espalhadas pela sala de entrada, e tira-as para a cave. O espírito faz a mesma coisa: defende-se das sensações importunas, lançando-as para o inconsciente.

Os efeitos da repressão do medo são múltiplos. Primeiro, sob o aspecto físico, podem originar palpitações, enxaquecas, cãibras, convulsões, etc. Sob o aspecto mental, o medo reprimido manifesta-se em ira, abatimento e mau gênio. Um psicólogo conta a história de um rapaz que chorava copiosamente, todas as vezes que ouvia dobrar os sinos para um funeral. Desejara muitas vezes que os seus pais morressem, mas reprimiu o desejo. Tinha medo como resultado do desejo, e furtava-se a ele, chorando. O seu medo era consequência da culpa de desejar a morte aos pais, e ele sublinhava-o chorando.

Lady Macbeth induziu o marido ambicioso a assassinar o Rei, seu hóspede, enquanto este dormia, e depois a usurpar a coroa. Quando o marido se agita de pavor pelo que fez, ela lembra-lhe:

«Não é assim que devemos pensar destes feitos; isso nos faria endoidecer»

Esta é uma descrição excelente dos efeitos patológicos do esforço do assassino para fugir ao medo. Ele procura afogar a consciência, dizendo que não devemos pensar se o ato é justo ou injusto. Não obstante, ao mesmo tempo que ela a reprime, está a originar a sua própria loucura. Diz ao marido para lavar as mãos e manchar, depois, os criados com sangue. Visto que ele tem receio de o fazer, ela própria mata os criados e tinge, então, os seus corpos com sangue. Depois exclama:

«As minhas mãos são da tua cor, mas envergonho-me de ter um coração tão branco… Um pouco de água limpa-nos deste ato»

Então, novamente se esforça por se convencer a si e ao marido de que não se deve procurar ter um coração limpo; de que não há juiz dentro do peito humano e de que tudo o que se tem a fazer, é pôr-se a salvo das consequências externas.

A consciência, porém, produz os seus efeitos; ela que tentou desconhecê-la, tem agora uma neurose de coação, que se manifesta no constante lavar de mãos.

«Quem teria pensado que o ancião tinha tanto sangue?… Não ficarão, jamais, limpas estas mãos?»

Primeiro, pensava que o crime de assassinato se podia purificar com a lavagem do sangue; agora, tem de se expurgar do medo da culpa, pois confessa com o marido que todas as águas dos sete mares não são suficientes para lavar o sangue das suas mãos.

Há algumas pessoas que lavam as mãos depois de tocar nos puxadores das portas, e que repetem este gesto muitíssimas vezes, antes de saírem de casa. Isto significa uma necessidade de purificação, e pensa-se que as lavagens externas serão um substituto da lavagem moral e interna, cuja obrigação não se quer reconhecer por a culpa ter sido reprimida. Isto não quer dizer que todos os que sofrem por se sentirem culpados tenham violado algum princípio moral; mas significa que aqueles que o fizeram, nunca podem esperar fazer desaparecer o medo pelo simples tratamento dos sintomas externos.

A medicina, ao tratar do remédio que se há de aplicar ao medo, nunca devia menosprezar os princípios morais que podem possivelmente estar por detrás do medo e das suas manifestações no corpo e no espírito. Mesmo Freud admitiu que, do ponto de vista médico, o método falho de escrúpulos de satisfazer todos os instintos pode fazer mal ao doente. A ética está na essência do tratamento médico sadio.

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(SHEEN, Dom Fulton. Rumo à Felicidade – WAY TO HAPPINESS. Tradução de Dr. A. J. Alves das Neves, pároco de São Pedro da Cova. Livraria Figueirinhas, Porto, 1956, p. 163-165)