Capítulo 45. O Espírito de Servir - Livro Rumo à Felicidade, de Fulton Sheen
O DESEJO de distinção é uma das tendências mais enraizadas na nossa natureza; embora esse desejo tenha sido crucificado e sepultado, num momento inesperado revive e ressuscita de novo, com todo o seu poder. Esta paixão sutil é mais forte no período médio da vida. Manifesta-se entre o amor do prazer que prevalece na mocidade, e o amor do lucro que se faz mais sentir na idade avançada. Em oposição a todo o egoísmo e ambição, está o ideal de utilidade e serviço. Só é grande de coração aquele que abraça o mundo com um grande afeto; só é grande de espírito aquele que agita o mundo com pensamentos puros. Nosso Senhor deu-nos a chave de toda a grandeza, quando disse que veio para servir e não para ser servido. O serviço do próximo tal qual Ele o inspirou, tem de fluir do amor, pois só da fonte do amor podem brotar esses atos contínuos e surpreendentes de auxílio.Amar e servir são inseparáveis. E esse serviço é abnegado e humilde. Continuar a ajudar, dia após dia, apesar das censuras, da oposição e repúdio, significa que se é regido por uma lei mais nobre do que o desejo de aplauso dos homens.

Tal serviço não pode ser comprado, porque não há ouro que o compre, nem precisa de ser comprado, porque é prestado gratuitamente.

Se não se está disposto a ajudar o próximo em espírito de amor, nunca se conseguirá vencer as tendências viciosas da natureza, que constantemente tentam degradar-nos. Há mais de 2.000 anos, Aristóteles observou que todas as nossas tendências degradantes se agrupam à volta de dois chefes: o feitio e o desejo — o mau feitio e o desejo desregrado. Quando um não está presente, está o outro: e ora um, ora outro, aparecem em diferentes períodos da vida do mesmo homem. Tanto quanto o serviço for dar-se voluntariamente ao trabalho em obediência a uma Vontade superior, ele será o corretivo destas tendências.

E corretivo, primeiro que tudo, do temperamento na sua forma ordinária de arrogância e vaidade. Aquele que serve, por impulso interior, não se pode entregar ao egoísmo. Domina-se a si mesmo, a fim de tornar o seu serviço o mais amável possível. Cada cinco minutos de serviço consciencioso tem o efeito de manter o eu disciplinado e de lhe impor submissão a uma Vontade superior e mais justa. Os presunçosos e arrogantes procuram sempre fazer sentir aos inferiores o peso total da sua miserável importância, e assim mais cedo ou mais tarde o orgulho presunçoso degenera em tirania. A vontade de servir, porém, obriga o eu a rebaixar-se, para que o próximo seja exaltado.

O desejo desordenado é também debelado pelo serviço amigo. O desejo é desordenado quando torna a própria pessoa não só o centro de todas as coisas, mas também a lei à qual todos os outros têm de se submeter. Este mal só se pode curar radicalmente, tornando Deus o objeto do desejo. E é então que se sacrificam comodidades e prazeres, para ir em auxílio dos necessitados e menos afortunados. Procedendo desta forma, o caráter, por sua vez, nobilita-se, enquanto nos afastamos da lassidão sensual e efeminada, que leva à perversão.

Até nas obras materiais Deus gravou a lei de serviço compassivo.

Nas nuvens do céu está escrito que hão de morrer ao serviço da chuva. As pequenas correntes deslizam, sumindo-se, mas satisfeitas por se lançarem na vastidão do oceano. Até as montanhas hão de servir. São como mãos gigantescas levantadas para captar e redistribuir a umidade, espalhando-a sobre as planícies em torrentes sadias e vivificantes. Nem uma gota de água leva a vida egoísta, nem tão-pouco uma rajada de vento está sem a sua missão.

O que Deus impôs à natureza pelas Suas leis, quis que nós o impuséssemos a nós próprios por nosso livre arbítrio. As águas, as nuvens, as montanhas e mesmo a própria terra, que se consome para dar vida à semente — todas estas coisas condenam o homem que se recusa a viver para o próximo.

Fazendo o bem, tudo no Universo de Deus recolhe o bem. Um favor que se preste aos outros é o mais útil favor a si mesmo, e a melhor maneira de se crescer em graça é esmerar-se no auxílio dos outros.

A roda do moinho deixará de girar, quando as águas da corrente impetuosa forem estancadas; o comboio em movimento para, quando o calor abrasante arrefecer dentro da fornalha escondida; e a caridade neste mundo degenerará em frios regulamentos profissionais e médias estatísticas sem inspiração, sem eficácia e sem amor, à medida que os homens se esquecerem da palavra inspiradora d’Aquele que disse:

«Não há maior prova de amor do que dar a vida pelo seu amigo»

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(SHEEN, Dom Fulton. Rumo à Felicidade – WAY TO HAPPINESS. Tradução de Dr. A. J. Alves das Neves, pároco de São Pedro da Cova. Livraria Figueirinhas, Porto, 1956, p. 179-182)