Capítulo 40. Amabilidade - Livro Rumo à Felicidade, de Fulton Sheen
MUITAS pessoas, amabilíssimas nos seus lares e escritórios, podem tornar-se grosseiras e egoístas, ao volante de um automóvel. Isto é talvez devido a que nos seus lares elas são conhecidas; no automóvel, à sombra do anonimato, podem ser quase brutais sem receio de serem conhecidas. Sermos amáveis pelo receio de que os outros pensem que somos grosseiros, não é amabilidade real, mas antes uma forma dissimulada de egoísmo.

A palavra inglesa «kindness» (amabilidade) é derivada de «kindred» ou «kin» (parentes), e portanto implica uma afeição que dedicamos naturalmente àqueles que são a nossa carne e o nosso sangue. A amabilidade original e típica é a de um pai para com o filho ou a de um filho para com o pai, ideia que é sugerida na língua alemã em que «Kind» significa criança. Gradualmente a palavra adquire maior amplitude até atingir todos os que desejamos tratar como parentes. A falta de amabilidade é portanto desumanidade.

Porque a amabilidade está relacionada com o amor, segue-se que a pessoa amável ama outra não pelo prazer que a outra pessoa lhe dá, ou porque possa retribuir-lhe a amabilidade, mas porque a outra pessoa é digna de ser amada em si mesma. A razão básica por que todas as pessoas são dignas de amor, é porque Deus as criou. Se tivéssemos evoluído dos brutos, nenhum de nós mereceria por título algum ser amado.

Já que Deus nos acha dignos de amor, porque pôs em nós algo do Seu Amor, assim também nós podemos achar os outros dignos de amor, porque somos neles algo do nosso amor. Mas fazer isto implica uma amabilidade básica, que está sempre disposta a ser agradável às outras pessoas. Se partirmos da hipótese de que a maior parte das pessoas do mundo são vigaristas, é incrível o número de vigaristas com que deparamos. Mas, se vamos para o mundo com o pressuposto de que todas as pessoas são boas, estamos constantemente a encontrar dessas pessoas. Em grande parte, o mundo é o que nós imaginamos dele. Colhemos o que semeamos. Se semearmos ódio, colheremos ódio. Se espalharmos amor e delicadeza, colheremos amor e felicidade. As outras pessoas são como um espelho, que nos deixa ver a espécie de imagem que projetamos. Quem é amável suporta as fraquezas dos outros, nunca exagera meras insignificâncias e evita o espírito de crítica maldosa. Sabe que o mal da maior parte das pessoas do mundo é não serem amadas. Ninguém se importa com elas ou porque são feias, ou sujas, ou importunas, ou maçadoras. Em grande parte, o seu caráter é a consequência do ressentimento que sentem para com outros que não são amáveis. Uma das maiores alegrias da vida advém de se amarem aqueles que ninguém mais ama. Imitamos assim o nosso Pai Celeste que certamente não pode encontrar em nós, criaturas, coisas muito atrativas. É curioso que muitíssima gente é mais amável para os cegos que para os surdos. Aristóteles comentou este fato, dizendo que a vista é o mais espiritual de todos os sentidos e o ouvido o mais material. Por essa razão, somos impelidos por compaixão para aqueles que padecem do modo mais espiritual. Contudo, esta explicação psicológica não justifica, de modo algum, a falta de amabilidade para quem quer que seja.

A amabilidade para com os que sofrem torna-se compaixão, que significa sofrer com outrem, partilhar da mágoa e das dores de outrem, como se fossem nossas. A amabilidade estimula o interesse do coração para além de todo o interesse pessoal, e impele-nos a dar, ou o que temos na forma de esmola, ou o nosso talento, como o médico que trata um doente pobre, ou o nosso tempo, que às vezes é a coisa mais difícil de dar. O homem verdadeiramente compassivo e amável, que dá o seu tempo aos outros, consegue encontrar sempre tempo. Como o pão, milagrosamente multiplicado, ele dá, e ainda colhe para si mesmo mais do que deu.

Muitos psiquiatras sabem hoje muito bem que tudo o que têm a fazer, para ajudar certos espíritos angustiados, é ouvir-lhes as suas histórias. Convençam o coração oprimido de que conhecem a sua dor e ele já está meio curado. E se pudermos convencer o inimigo de que não temos azedume algum no nosso coração contra ele, o seu braço cairá impotente a seu lado. Todas as anomalias mentais têm as suas raízes no egoísmo, toda a felicidade tem as suas raízes na amabilidade. Mas para sermos realmente amáveis, devemos ver em todos uma alma imortal, que há de ser amada pelo amor de Deus. Então, não haverá quem não seja para nós de grande apreço.

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(SHEEN, Dom Fulton. Rumo à Felicidade – WAY TO HAPPINESS. Tradução de Dr. A. J. Alves das Neves, pároco de São Pedro da Cova. Livraria Figueirinhas, Porto, 1956, p. 160-162)