Dom Henrique Soares da Costa
Reze o Salmo 119/118,49-56
Agora, leia com piedade e coração que escuta na fé Dt 4,9-43

9Toma, pois, cuidado contigo! Guarda-te bem de esquecer os factos que os teus olhos viram; que eles nunca se afastem do teu coração em todos os dias da tua vida. Ensina-os aos teus filhos e aos filhos dos teus filhos. 10No dia em que te apresentaste diante do SENHOR, teu Deus, no Horeb, o SENHOR disse-me: ‘Convoca o povo para junto de mim, a fim de ouvirem as minhas palavras, aprenderem a temer-me durante todo o tempo da sua vida na terra e assim ensinarem aos seus filhos.’ 11Aproximastes-vos, então, e ficastes junto do monte; o monte estava abrasado em fogo, que se erguia até ao mais alto dos céus, coberto de nuvens e de nevoeiro. 12O SENHOR falou-vos do meio do fogo; ouvistes o som das palavras, mas não vistes figura alguma. Era uma voz apenas. 13Ele deu-vos a conhecer a sua aliança, ordenando-vos que cumprísseis os dez mandamentos que Ele escreveu em duas tábuas de pedra. 14O SENHOR ordenou-me, então, que vos ensinasse as leis e os preceitos que deveis cumprir na terra para onde ides, para tomardes posse dela.»

15«Tomai muito cuidado convosco, pois não vistes imagem alguma no dia em que o SENHOR vos falou no Horeb do meio do fogo. 16Portanto, não vos deixeis corromper, fabricando para vós imagem esculpida de qualquer ídolo, masculino ou feminino, 17representação de qualquer animal terrestre, representação de qualquer ave que voe nos céus, 18representação de qualquer réptil que rasteje pelo chão, ou de qualquer peixe que viva nas águas, debaixo da terra. 19Quando ergueres os olhos para o céu e vires o Sol, a Lua, as estrelas, todo o exército celeste, livra-te de te prostrares diante deles e de os adorar, porque foi o SENHOR, teu Deus, que os deu em partilha a todos os povos que estão debaixo dos céus. 20Mas a vós, o SENHOR tomou-vos e vos fez sair da fornalha de ferro, do Egipto, para serdes para Ele o povo da sua herança, como acontece hoje. 21O SENHOR irritou-se comigo por causa das vossas palavras; jurou que eu não passaria o Jordão e que não entraria na terra óptima que o SENHOR, teu Deus, te vai dar em herança. 22Eu morrerei, pois, nesta terra, sem atravessar o Jordão; mas vós passareis e tomareis posse dessa terra óptima. 23Tomai cuidado em não esquecer a aliança que o SENHOR, vosso Deus, contraiu convosco e em não fazerdes para vós qualquer imagem esculpida, porque o SENHOR, teu Deus, assim o ordenou. 24O SENHOR, teu Deus, é um fogo devorador; Ele é um Deus ciumento.»

25«Quando tiverdes gerado filhos e netos e envelhecerdes nessa terra, se vos corromperdes, fabricando qualquer imagem esculpida, fazendo o mal aos olhos do SENHOR, vosso Deus, provocando a sua ira, 26tomo hoje os céus e a terra como testemunhas contra vós de que não tardareis a desaparecer da terra, cuja posse ides tomar agora, ao passar o Jordão; os vossos dias não se prolongarão ali, mas sereis exterminados. 27O SENHOR dispersar-vos-á entre os povos e ficareis reduzidos a poucos entre as nações, para onde o SENHOR vos conduzirá, 28se lá adorardes deuses, obra das mãos dos homens, deuses de madeira e de pedra, que não vêem, não ouvem, não comem, nem têm olfacto. 29Então recorrerás ao SENHOR, teu Deus, e tornarás a encontrá-lo, se o procurares com todo o teu coração e com toda a tua alma. 30No meio da tua angústia, quando passares por todas essas coisas, com o correr do tempo, voltarás para o SENHOR, teu Deus, e escutarás a sua voz. 31O SENHOR, teu Deus, é um Deus misericordioso, não te abandonará, não te destruirá, e não se esquecerá da aliança que jurou aos teus pais.»

32«Na verdade, interroga os tempos antigos que te precederam, desde o dia em que Deus criou o homem sobre a terra. Pergunta se jamais houve, de uma extremidade à outra do céu, coisa tão extraordinária como esta, ou se jamais se ouviu coisa semelhante. 33Sabes, porventura, de algum povo que tenha ouvido a voz de Deus falando do meio do fogo, como tu ouviste, e tenha continuado a viver? 34Algum experimentou Deus a escolher para si um povo de entre outros povos, por meio de milagres, sinais e prodígios, combatendo com mão forte e braço estendido, com terríveis portentos, conforme tudo o que fez por vós o SENHOR, vosso Deus, no Egipto, diante dos teus olhos?

35Tu viste e ficaste a conhecer que Ele, o SENHOR, é Deus e que não há outro além dele. 36Do céu, fez-te ouvir a sua voz para te instruir; sobre a terra, mostrou-te a grandeza do seu fogo, e tu ouviste as palavras vindas do meio do fogo. 37E, porque amou os teus antepassados e escolheu a sua descendência depois deles, te fez sair do Egipto com a força do seu grande poder: 38desalojou, à tua frente, povos mais numerosos e mais fortes do que tu para te introduzir nas suas terras e dar-tas em herança, como acontece hoje. 39Reconhece, agora, e medita no teu coração, que só o SENHOR é Deus, tanto no alto do céu como em baixo, sobre a terra, e que não há outro. 40Cumprirás, pois, as suas leis e os seus mandamentos, que eu hoje te prescrevo, para seres feliz, tu e os teus filhos depois de ti, e para que se prolongue a tua existência sobre a terra que o SENHOR, teu Deus, te dará para sempre».

Cidades de refúgio (19,1-13; Nm 35,9-34) – 41Foi então que Moisés designou três cidades além do Jordão, a oriente, 42para servirem de refúgio ao homicida que tiver morto o seu próximo, sem premeditação e sem o ter odiado antes. Refugiando-se numa dessas cidades, poderia salvar a vida: 43Bécer, no deserto, que, por direito, pertencia à tribo de Rúben; Ramot, em Guilead, que pertencia à tribo de Gad, e Golan, em Basan, que pertencia à tribo de Manassés.

1. No Deuteronômio, muitas vezes, Moisés exorta o povo inteiro e cada israelita a vigiar sobre si mesmo:

“Fica atento a ti mesmo… para não esqueceres!” (cf. vv. 9. 15. 23.39)

Estar atento a si mesmo é constantemente viver e avaliar a própria vida à luz do Senhor, não se esquecendo Dele, de Sua Aliança e de Seus preceitos. A desatenção e o esquecimento são princípio de todo pecado: terminamos por esquecer tudo quanto o Senhor realizou por nós, esquecemos que Ele é um Deus presente, próximo de nós, reduzimo-Lo, então, a uma teoria, a uma ideia desbotada e distante e, não mais atentos a nós mesmos, com o coração fora de nós, começamos a viver do nosso modo e não mais do modo do Senhor. E, assim, matamos a nossa amizade com Deus! O resultado: a morte da alma, pior de todas as mortes!

É isto que a Escritura deseja inculcar em nós quando fala em perder a terra, em ser dela expulso como consequência de esquecer o Senhor: a nossa verdadeira terra, a nossa verdadeira pátria é o próprio Senhor! Está longe Dele é morrer. Leia e medite, rezando, os vv. 25-43.

2. Um tema que também aparece muito forte nestes versículos é a a questão das imagens de Deus e dos ídolos.

Releia os vv. 10-24. Moisés começa recordando a teofania do Sinai: Israel ouviu o Senhor: ouvia, mas não via nada; não distinguia forma alguma de Deus:

“Nada, além de uma voz!”

Sendo assim, já que o Senhor Deus não mostrou Sua forma, Sua Imagem bendita, Israel não pode inventar uma forma para Deus, pois não seria a forma do Deus vivo e santo, mas de um ídolo. Foi o que aconteceu com o bezerro de ouro: Israel, ali, fez imagem do Senhor; mas, o Senhor não pode ser representado; Ele não mostrou a Sua forma! Aquele bezerro, portanto, não passava de um mísero ídolo, uma mentira, uma ilusão! Leia com atenção Ex 32,1-8.

Diante disto, como se explica que os cristãos, desde logo cedo, já nos primeiros séculos, começaram a usar pinturas de imagens nos seus lugares de culto? Eis: enquanto na Antiga Aliança o Senhor Deus manifestou-Se ao Seu povo pela Sua Palavra, de modo que o mandamento por excelência é “Ouve, ó Israel!” (Dt, 6,4), na Nova e Eterna Aliança, “a Palavra-Verbo fez-Se carne” (Jo 1,14), a Palavra santa do Pai fez-Se visível, palpável (cf. 1Jo 5,1ss)! O próprio Senhor Jesus dirá a Filipe: “Quem Me vê o Pai!” (Jo 14,9); e di-lo-á precisamente como resposta ao pedido do apóstolo:

“Mostra-nos o Pai e isso nos basta!” (Jo 14,8)

O Pai de Jesus, Deus santo de Israel, agora tem uma Imagem verdadeira: o Seu próprio Filho, que é Seu Verbo, Sua Palavra santa e eterna:

“Ele é a Imagem do Deus invisível, o Primogênito de toda criatura” (Cl 1,15)!

É realmente profundo e impressionante: a Palavra que, na Antiga Aliança, somente podia ser ouvida, agora, além de ouvida, é para ser vista, contemplada; tanto que, nos escritos joaninos, ver o Senhor, contemplá-Lo significa crer; crer na Palavra!

Leia o encantador capítulo 9 de São João: o cego que é curado para ver, isto é, crer em Jesus: “‘Crês no Filho do Homem?’… ‘Quem é, Senhor, para que eu creia?’ ‘Tu O vês: é Quem fala contigo!’ ‘Creio, Senhor!’” (Jo 9,35-38). Mas, para ver o Senhor, o que fora cego teve que deixar a sinagoga, a Antiga Aliança (cf. vv. 34s). Isto mostra bem o quanto é profundo o sentido do costume cristão de fazer imagens e venerá-las: são aptas para o culto do Deus vivo e verdadeiro, porque Ele mesmo nos deu Sua Imagem bendita: Jesus nosso Senhor, imolado e ressuscitado! Somente podem usar imagens no culto sem cair na idolatria aqueles que verdadeiramente acreditam que o Cristo Jesus “é a Imagem do Deus invisível” (Cl 1,15)! Então, o uso cristão das imagens está ligado à fé na Encarnação do Filho de Deus, que é Deus, da mesma substância do Pai, Deus de Israel, Deus do Sinai, Deus de Moisés!

Talvez, alguém se pergunte: mas, e a imagem dos santos de Cristo? Seria lícito fazê-las? A resposta decidida é sim! Leia com atenção 1Cor 15,47-49! Aí, o Apóstolo explica de modo profundo que, enquanto o homem sem Cristo traz em si apenas a imagem do velho Adão, marcado pelo pecado, o homem novo, o cristão, nova criatura em Cristo (cf. 2Cor 5,17), traz em si a imagem do Cristo imolado e ressuscitado, Homem Celeste, que é Imagem do Deus invisível (cf. Cl 1,15; 2Cor 3,18; 4,4). Assim, os santos de Cristo, sendo imagens de Cristo, que é Imagem do Pai, podem ser representados também no culto cristão! Para os cristãos, o que está em jogo no culto às imagens é se a Encarnação do Filho de Deu é efetiva ou não, se Ele é divino, verdadeira e substancial imagem do Pai ou não e também se a imagem de Cristo que trazemos, na potência do Espírito, é algo real, efetivo, transformante, que nos faz participantes da natureza divina (cf. 2Pd 1,4), ou não! Portanto, na questão das imagens, nada a ver com as arengazinhas mesquinhas dos fundamentalistas sectários que, com a Bíblia debaixo do braço, escravos da letra, estão longe, muito longe, de compreender o que o Espírito diz à Igreja nas Escrituras santas!

Quanto à idolatria, o cristão, como o judeu, deve rejeitá-la sempre, decididamente: nem acordo com orixás, nem com deuses de outras religiões, nem a idolatria de coisas, pessoas, situações… Só o Senhor é Deus e nada pode ocupar em nossos corações o lugar que somente a Ele pertence.

A idolatria, destruindo a relação com o Deus verdadeiro, leva-nos a perder os dons de amor que Ele nos concede. Por isso mesmo, Deus previne Israel de que ele poderá perder tudo e ser disperso! E ainda mais: a idolatria reduz-nos à escravidão! Enquanto a relação com o único Deus verdadeiro nos liberta, a servidão aos ídolos nos escraviza e vazia o nosso coração. Leia os vv. 25-31. Comovente também é a disponibilidade incansável do Santo Deus de Israel em nos perdoar, em nos acolher quando voltamos de nossa infidelidades:

“Irás procurar o Senhor teu Deus, e O encontrarás, se O procurares com todo coração e com toda a tua alma!” (v. 29)

Reze o Sl 115/113B.

3. Releia também os vv. 32-40. São uma verdadeira declaração de amor e de eleição do Deus único, Senhor de tudo, pelo Seu povo de Israel! Lembre: nós, pelo Batismo, incorporados em Cristo, somos herdeiros dessa eleição! Mas, tal graça é também uma responsabilidade: ser fiel ao Senhor, vivendo na Sua Palavra!