Dom Henrique Soares da Costa
Reze o Salmo 119/118,145-152
Agora, leia com piedade, com atenção e um coração que escuta Dt 15

1«De sete em sete anos, cumprirás a lei do perdão das dívidas. 2Eis a explicação deste perdão: nenhum credor poderá exigir o empréstimo que tiver feito ao seu próximo. Não exercerá contra o seu próximo e contra o seu irmão violência alguma, quando for anunciada a remissão em honra do SENHOR. 3Ao estrangeiro poderás exigir, mas quanto às dívidas do teu irmão farás a remissão.

4Em verdade, não deve haver pobres entre vós, porque o SENHOR te abençoará na terra que Ele próprio te há-de dar em herança para a possuíres; 5mas só se ouvires a voz do SENHOR, teu Deus, para guardares e cumprires todos estes preceitos que eu hoje te ordeno. 6Então o SENHOR, teu Deus, te abençoará como prometeu: poderás emprestar a muitos povos, mas não terás necessidade de pedir emprestado; dominarás muitos povos, mas eles não te dominarão.

7Se houver junto de ti um indigente entre os teus irmãos, numa das tuas cidades, na terra que o SENHOR, teu Deus, te há-de dar, não endurecerás o teu coração e não fecharás a tua mão ao irmão necessitado. 8Abre-lhe a tua mão, empresta-lhe sob penhor, de acordo com a sua necessidade, aquilo que lhe faltar. 9Guarda-te de alimentar no teu coração um pensamento perverso, dizendo: ‘O sétimo ano, o ano do perdão das dívidas, está próximo’, recusando-te sem piedade a socorrer o teu irmão necessitado. Ele clamaria ao SENHOR contra ti, e aquilo tornar-se-ia para ti um pecado.

10Deves dar-lhe, sem que o teu coração fique pesaroso; porque, em recompensa disso, o SENHOR, teu Deus, te abençoará em todas as empresas das tuas mãos. 11Sem dúvida, nunca faltarão pobres na terra; por isso, eu te ordeno: Abre generosamente a mão ao teu irmão, ao pobre e ao necessitado que estiver na tua terra.»

12«Quando um dos teus irmãos hebreus, homem ou mulher, te for vendido, servir-te-á seis anos; mas no sétimo ano terás de o deixar sair da tua casa, restituindo-lhe a liberdade. 13E quando libertares do serviço esse escravo, não o despedirás de mãos vazias, 14mas dar-lhe-ás um presente do teu gado miúdo, do teu celeiro e do teu lagar; dar-lhe-ás uma parte dos bens com que o SENHOR te houver favorecido. 15Recorda-te que foste escravo no país do Egipto e que o SENHOR, teu Deus, te libertou. Por isso, eu hoje te prescrevo este mandamento.

16Pode, porém, acontecer que o escravo te diga: ‘Não te quero deixar’, porque, sentindo-se feliz em tua casa, ele se apegou a ti e à tua família. 17Então, tomarás um furador, furar-lhe-ás a orelha contra a porta, e será teu servo para sempre. E procederás da mesma forma para com a vossa serva. 18Não fiques contrariado ao dar-lhe a liberdade, pois ele ganhou duas vezes o salário de um mercenário, servindo-te durante seis anos. E o SENHOR, teu Deus, te abençoará em todas as tuas empresas.»

19«Consagrarás ao SENHOR, teu Deus, todo o primogénito macho do teu gado graúdo e miúdo, não obrigarás a trabalhar o primogénito do teu gado e não tosquiarás o primogénito das tuas ovelhas. 20É diante do SENHOR, teu Deus, e no santuário que Ele tiver escolhido, que o comerás anualmente com a tua família.

21Se tiver qualquer defeito, se for coxo ou cego, ou se tiver qualquer outra enfermidade, não o oferecerás em sacrifício ao SENHOR, teu Deus. 22Comê-lo-ás nas tuas cidades, quer em estado de pureza legal ou não; todos poderão comer dele como se come a gazela e o veado. 23Só não comerás o seu sangue, que derramarás na terra como se fosse água.»

1. Este capítulo trata, sobretudo, do ano sabático: a cada sete anos deixava-se a terra descansar, sem cultivo. O que aí nascia, espontaneamente, era para os pobres. Também no ano sabático dava-se o perdão das dívidas; tudo isto “em honra do Senhor” (v. 2). Daqui podem ser tiradas algumas lições preciosas. Segundo as Escrituras, o tempo é de Deus e, por isso, é necessário tirar períodos para descansar e usar o tempo para honrar ao Senhor pelo louvor. Daí o descanso a cada sete dias e o descanso a cada sete anos! Lembre que a palavra “sábado” significa “descanso”. Aqui uma pergunta importante:

Como você usa o seu tempo?

Tem tempo para Deus?

Tem tempo para a sua família?

Tem tempo para as pessoas, para cultivar relações?

Você é daqueles que repetem continuamente que tempo é dinheiro? Afinal, você vive como gente ou como formiga, que nunca deixa de trabalhar, sem tempo para nada?

2. Várias das prescrições deste capítulo – e mesmo de todo o Pentateuco, a Lei de Moisés – nos são estranhas… Isto porque elas regulam uma sociedade bem diferente da nossa: agrícola e pastoril, muito distante da economia de mercado que é a nossa, incomparavelmente mais sofisticada… Então, de que nos serve meditar sobre um texto assim? Que Palavra o Senhor Deus nos diz através deste texto? É preciso olhar a dinâmica de fundo dele, a inspiração dessa sociedade tão primitiva, que deve ser também a inspiração nossa ainda hoje…

3. Veja, o que diz respeito à escravidão, que era admitida… Poderia ser escravidão para pagar as dívidas, escravidão de um estrangeiro que fora comprado, escravidão voluntária… Tudo isto nos parece muito estranho… É que todas estas leis foram sendo codificadas pouco a pouco, de acordo com a evolução social e econômica de Israel. Procurava-se interpretar e organizar as situações à luz da “Lei de Moisés”, isto é, dos grandes princípios que Israel havia aprendido do seu Deus já nas suas origens! Veja alguns desses princípios neste capítulo:

=> Não explorar o próximo nem o irmão israelita;

=> Honrar a Deus nos tempos, nos negócios, nos bens materiais, na relação com as pessoas: o Senhor é senhor de tudo e deve ser honrado por nós em todos os aspectos da vida;

=> Ser generoso e caridoso para com o próximo, ultrapassando a simples conta de dar e receber, própria dos negócios: “Não endurecerás o teu coração, nem fecharás a mão para com este teu irmão pobre”;

=> Usa-se muito o “tu”, chamando atenção para a responsabilidade que cada um de nós tem em relação ao próximo necessitado, de modo que a caridade, a compaixão, a solidariedade serão cobradas um dia, pelo Senhor Deus, a cada um de nós!

=> A piedade para com o Senhor deve nos fazer ultrapassar a medida do cálculo frio das coisas! O Senhor fora tão generoso para com Israel: tirou-o da escravidão do Egito, deu-lhe a terra, deu-lhe a chuva para a semeadura: “Dar-lhe-ás conforme a bênção que o Senhor teu Deus te houver concedido. Recorda-te que foste escravo e que o Senhor teu Deus te resgatou…” (vv. 14-15);

4. Compare o v. 4 com o v. 11. Não parecem contraditórios? O v. 4 apresenta um ideal: um povo que vivesse profundamente na vontade do Senhor, no amor e no temor ao Seu Nome, seria um povo feliz, que, espontaneamente cuidava de seus pobres, de seus menos capazes, das necessidades recíprocas… Mas, na realidade, não é assim! Por isso “tu” – veja: o discurso, o apelo é para você, concretamente – “tu” deves abrir o coração e a mão para o teu irmão! Releia os vv. 7-11. Note: abrir o coração (o aspecto interior, seu sentimento, seu afeto, sua vontade) e abrir a mão (o gesto concreto, exterior, efetivo, que torna real e operante o interior).

5. As determinações sobre os primogênitos (cf. vv. 19-23) têm o mesmo sentido: tudo é de Deus; também o gado graúdo ou miúdo. E ao Senhor se dá o melhor, as primícias, não o resto, o que é de segunda qualidade, o que é refugo ou dispensável! O Senhor é o Deus das primícias! Lembre que Ele nos deu tudo ao nos dar o Seu Filho amado! Olhe à sua vida, pense e responda: O que eu tenho dado ao meu Deus: as primícias ou o refugo?

6. Leia, medite, reze Lv 19,1-19; Mt 5 – 7; Sl 146/145.