Dom Henrique Soares da Costa
Reze o Salmo 119/118,153-160
Agora, leia com piedade, com atenção e um coração que escuta Dt 16,1-8

1«Guarda o mês de Abib e celebra a Páscoa em honra do SENHOR, teu Deus, porque foi no mês de Abib que o SENHOR, teu Deus, te fez sair do Egipto, durante a noite. 2Imolarás ao SENHOR, teu Deus, em sacrifício pascal, gado miúdo e graúdo, no santuário que o SENHOR tiver escolhido para ali estabelecer o seu nome. 3Não comerás pão fermentado com essas vítimas. Durante sete dias, comerás com elas ázimos, o pão da aflição, porque foi à pressa que saíste do Egipto, para assim te recordares durante toda a tua vida do dia da tua partida. 4Que não se veja fermento algum em todo o teu território durante sete dias. Que não fique para o dia seguinte coisa alguma da carne imolada no sacrifício da tarde do primeiro dia.

5Não poderás imolar o cordeiro pascal em nenhuma das cidades que o SENHOR, teu Deus, te há-de dar, 6mas somente no santuário que o SENHOR, teu Deus, tiver escolhido para ali estabelecer o seu nome. Ali imolarás o sacrifício pascal, ao cair da tarde, depois do pôr-do-sol, à hora em que saíste do Egipto. 7Cozê-lo-ás e comê-lo-ás no lugar que o SENHOR, teu Deus, tiver escolhido. No dia seguinte, poderás regressar à tua tenda. 8Durante seis dias, comerás ázimos e no sétimo dia haverá uma liturgia solene em honra do SENHOR, teu Deus; nesse dia não farás trabalho algum.»

1. Israel deverá sempre celebrar “uma Páscoa para o Senhor” (v. 1) porque, se ele existe como povo, é porque o Onipotente o libertou da tremenda noite tenebrosa da escravidão:

“Foi numa noite que o Senhor teu Deus te fez sair do Egito” (v. 1)

Deus bendito, o nosso Deus, que nos salva no meio das nossas tristes noites, fazendo-as luminosas como o dia; como canta a Mãe católica no Exultet da Páscoa:

“Esta é, Senhor, a noite em que do Egito
Retirastes os filhos de Israel,
Transpondo o Mar Vermelho a pé enxuto
Rumo à Terra onde corre leite e mel!

Ó noite em que a coluna luminosa
As trevas do pecado dissipou
E aos que creem no Cristo em toda a terra
Em novo Povo Eleito congregou!

Ó noite em que Jesus venceu o Inferno
Ao ressurgir da morte vencedor:
De que nos valeria ter nascido
Se não nos resgatasse em Seu amor!

Pois esta noite lava todo crime,
Liberta o pecador dos seus grilhões;
Dissipa o ódio e dobra os poderosos,
Enche de luz e paz os corações!

Ó noite de alegria verdadeira,
Que prostra o faraó e ergue os hebreus,
Que une de novo ao Céu a terra inteira
Pondo na treva humana a luz de Deus!

Na graça desta noite o Vosso Povo
Acende um sacrifício de louvor!
Acolhei, ó Pai santo, o fogo novo:
Não perde, ao dividir-se, o seu fulgor!”

2. Reze Sb 18,6-9.14-16; Sl 139/138. Lembre, repita, creia, coloque no coração:

“Mesmo a treva não é treva para Ti; tanto a noite como o dia iluminam!” (Sl 139/138,12)

3. Observe que a Páscoa judaica era uma festa sacrifical:

“Sacrificarás para o Senhor teu Deus uma Páscoa” (v. 2)

Primitivamente, imolava-se o cordeiro pascal, que deveria ser macho, de um ano, sem defeito, originalmente, deveria ser sempre assado, nunca cozido, e nenhum de seus ossos deveria ser quebrado (cf. Ex 12,1-4.43-51; Nm 9,1-5). O rito central da Páscoa era a ceia pascal, na qual se comia em família o cordeiro pascal, de modo que “comer a Páscoa” significava comer o cordeiro pascal. Ora, Cristo é o nosso Cordeiro Pascal, o Cordeiro que foi imolado (cf. Ap 5,6.12), do Qual aquele, do Antigo Povo, era profecia e antecipação salvadora. Por isso mesmo, os ritos judaicos tinham força de salvação: porque se referiam a Cristo e para Ele preparavam; desse modo, recebiam Dele sua eficácia! Assim, podemos compreender a afirmação de São Paulo:

“Cristo, nossa Páscoa, foi imolado!” (1Cor 5,7b-8)

Retomemos: a Páscoa, seja judaica seja cristã, é uma festa sacrifical. No dia da Páscoa, comiam-se pães não fermentados e assim se fazia durante os seis dias seguintes: era a Festa dos Ázimos, isto é, dos pães sem fermento! Então, Páscoa e Ázimos eram duas festas que se celebravam juntas, até se fundirem totalmente!

4. O texto do Deuteronômio chama o pão ázimo de “pão de miséria” (v. 2), o pão da pobreza, do sofrimento, da escravidão, pão que os israelitas não tiveram tempo de fermentar quando, às pressas, saíram do Egito (cf. Ex 12,39).

Agora veja: na Última Ceia, o Senhor nosso, durante a Páscoa dos judeus, instituiu a Sua Páscoa, a Páscoa da Nova e Eterna Aliança e a entregou à Sua Igreja; assim, o Cordeiro Pascal, Ele mesmo, agora estaria presente no pão ázimo, pão de miséria, quebrado para recordar a dor do Calvário, pão que os cristãos chamam de “hóstia”, que significa vítima, a Vítima Pascal, o Cordeiro imolado! Daí o rito tão belo de quebrar-partir a Hóstia consagrada, isto é, a Vítima ofertada, a Vítima sacrifical pascal, para recordar ritualmente a imolação, o sacrifício, a entrega do Cordeiro ao Pai, Deus de Israel, por todos nós e pelo mundo inteiro! Por graça de Deus, nosso Senhor, o pão de miséria tornou-se, para nós, fonte de toda a riqueza e de toda a Vida!

5. Pensando nestes mistérios tão belos e profundos, reze o Sl 116/114-115. Jesus rezou este salmo na Última Ceia: Ele, na angústia e aflição, ofereceu o sacrifício de louvor, erguendo o cálice da nossa salvação e, pela Sua obediência, nos salvou! Bendito seja o Nome do Senhor nosso Deus! Leia e reze Hb 5,7-10.