Dom Henrique Soares da Costa

Meditação XXVIII – segunda-feira da V semana da Quaresma

Por Dom Henrique Soares da Costa

Reze o Salmo 118/119, 49-56:

49Lembra-te da palavra que deste ao teu servo,
pois nela me fizeste colocar a minha esperança.
50É esta a consolação na minha angústia:
que a tua palavra me dê vida!
51Os soberbos zombaram de mim,
mas não me afastei da tua lei.
52Recordo-me dos teus decretos de outrora;
neles encontro consolação, ó SENHOR.
53Fico indignado à vista dos ímpios,
que rejeitam a tua lei.
54Os teus preceitos são o motivo dos meus cânticos
na terra do meu peregrinar.
55Durante a noite lembro-me do teu nome, SENHOR,
e penso muito na tua lei.
56Só isto conta para mim:
obedecer às tuas instruções!

Leitura da Epístola de São Paulo aos Gálatas 5, 1-12:

1Foi para a liberdade que Cristo nos libertou. Permanecei, pois, firmes, e não vos sujeiteis outra vez ao jugo da escravidão.

2Reparai, sou eu, Paulo, que vo-lo digo: se vos circuncidardes, Cristo de nada vos servirá. 3Uma vez mais o atesto a todo o homem que se circuncida: fica obrigado a cumprir toda a Lei. 4Tornastes-vos uns estranhos para Cristo, vós os que pretendeis ser justificados pela Lei; abandonastes a graça. 5Porque nós, é em virtude da fé, pelo Espírito, que aguardamos a justiça que esperamos. 6Pois, em Cristo, nem a circuncisão vale alguma coisa, nem a incircuncisão, mas sim a fé que actua pelo amor.

7Corríeis bem. Quem foi que vos deteve, impedindo-vos de obedecer à verdade? 8Uma persuasão assim não vem daquele que vos chama. 9Um pouco de fermento faz fermentar toda a massa. 10Eu, a respeito de vós, tenho confiança no Senhor, de que de maneira nenhuma ireis pensar de outro modo. Mas quem vos perturba sofrerá a condenação, seja ele quem for. 11Quanto a mim, irmãos, se eu ainda prego a circuncisão, porque sou ainda perseguido? 12Acabou-se, portanto, o escândalo da cruz. Aqueles que vos inquietam, o que eles deviam era castrar-se.


1. Vamos, agora, ao v. 2:

“Atenção! Eu, Paulo, vos digo: se vos fizerdes circuncidar, Cristo de nada vos servirá!”

Grave, esta exortação do Apóstolo. E não é exagero. O centro da fé dos cristãos, o âmago da sua esperança é o fato de Cristo nos ter salvo do afastamento de Deus, da escravidão e do desequilíbrio nos quais a lei do pecado colocou a todos nós. Toda a humanidade encontra-se debaixo desta triste situação. Nem mesmo os judeus estão livres dela, pois a Lei de Moisés, que é santa, dá consciência do pecado, mostra como viver para evita-lo, mas não dá força para tanto. Sobre isto já falamos nas meditações anteriores. Leia Rm 7,14-25. Pois bem, é Cristo que nos liberta! Ora, se os gálatas se deixassem se circuncidar, entravam no judaísmo, colocando sua esperança não em Cristo, que nos libertou (cf. Gl 5,1), mas no cumprimento dos preceitos da Lei de Moisés tal como os rabinos judeus a interpretavam. Deste modo, colocando-se sob a Lei de Moisés, estariam obrigados a cumprir todos os preceitos da Lei, tornando-se judeus.

Leia o v. 3. Eles estariam debaixo da “maldição da Lei” (cf. Gl 3,10s). Assim, para que Cristo? É necessário recordar sempre que o homem sozinho não pode se salvar nem mesmo pode cumprir da Lei de Moisés de modo satisfatório. O próprio Senhor Jesus já dizia isto aos judeus (cf. Jo 7,19)! Somente Cristo nos salva com a Sua Cruz e Ressurreição e o dom do Seu Espírito (cf. Rm 3,23ss). Por isso doutrinas que proclamem outro princípio salvífico são incompatíveis com a esperança cristã. Por exemplo:

– o judaísmo, que coloca na prática de Lei o princípio de salvação. Para que Cristo, se já se tem a Lei de Moisés?

– o islamismo, que coloca a entrada no paraíso na prática do Corão. Para que a morte e ressurreição de Cristo? Bastaria seguir o Corão à risca!

– o espiritismo e todas as doutrinas reencarnacionistas, que colocam a plenitude humana na reencarnação: reencarnando-se, a pessoa se purifica das suas faltas e imperfeições, limpando o seu “carma”… Para que a morte de Cristo e o Seu perdão? Basta se reencarnar continuamente e praticar obras de filantropia, limpando o carma continuamente…

Ora, o Cristo Jesus é o único meio de acesso ao Pai (cf. Jo 14,6; 8,36), porque por nós Se fez homem, morreu e e ressuscitou; ressuscitando, deu-nos o Seu Espírito, que nos cura do pecado e nos faz participantes da própria Vida divina!

Leia At 4,12; 2Pd 1,4; Ap 4,9s.

O grande serviço que o Cristo Jesus nos prestou foi nos salvar: se nós não aceitarmos o Seu serviço de morrer e ressuscitar por nós em amor, não poderemos ter parte com Ele. Leia Mc 10,45; Jo 13,2-8.

2. São Paulo previne aos gálatas de modo dramático:

“Rompestes com Cristo, vós que buscais a justiça na Lei; caístes fora da graça!” (v. 4)

Esta é uma ideia central na nossa fé: a salvação é graça de Deus, é dom gratuito, abundante, misericordioso, imerecido! Leia atentamente Tt 2,11-14.

As obras do cristão não têm nada a ver com as obras da Lei de Moisés. Certamente, a fé exige que o cristão dê frutos (cf. Jo 18,1-8) de boas obras (cf. Tg 2,14-26). Mas, essas obras nascem da fé em Cristo e exprimem nossa adesão concreta a Ele. Sem as obras nascidas da fé, essa mesma fé seria uma ilusão, uma ficção, uma mentira (cf. Lc 6,46-49; Mt 7,21-27; 25,31-46)! A fé age pela caridade, manifesta-se pelo amor fecundo em obras em Cristo! As obras do cristão são obras em Cristo, fruto da correspondência à graça, da docilidade fecunda ao Espírito de Cristo (cf. Tt 3,4-7; Gl 5,6). Tudo isto é bem diferente das obras da Lei de Moisés: aí trata-se de preceitos do rabinismo, isto é, da interpretação da Lei de Moisés dada pelos rabinos de Israel como meios suficientes de alguém ser justo, santo, diante de Deus! Isto um cristão não aceita! Nossa justiça, isto é, nossa santidade diante de Deus, nossa amizade com Ele, em uma palavra, nossa salvação, somente pode ser alcançada em Cristo Jesus nosso Senhor que, gratuitamente, com Sua Encarnação, Paixão, Morte e Ressurreição, nos salvou do pecado e da morte! Leia Rm 5,1-11.

“Nós, com efeito, aguardamos, no Espírito, a esperança da justiça que vem da fé” (v. 5)

3. Importantíssima, esta afirmação de São Paulo, esta referência ao Espírito Santo. Vamos lá: Cristo morreu e ressuscitou por obra do Pai, que sobre Ele derramou a plenitude do Santo Espírito. Este Espírito é a própria Vida divina, que nos queima os pecados e nos recria como novas criaturas em Cristo, já que é Espírito de Cristo, Espírito dado pelo próprio Cristo! Ressuscitado, o Cristo Senhor derramou sobre nós esse Espírito, que é dado nos sacramentos, sobretudo no Batismo e na Eucaristia: no Batismo, Ele é dado como remissão dos pecados, como justificação, pois nos faz filhos de Deus no Filho Jesus Cristo; é-nos dado como nova Vida em Cristo; na Eucaristia, Ele impregna o pão e o vinho, transformando-os em Corpo e Sangue do Senhor imolado e ressuscitado, fazendo crescer e a amadurecer mais e mais a Vida divina em nós, dando-nos a graça de participar, na nossa vida, da Morte e Ressurreição do Senhor, até sermos configurados com Ele na Glória eterna! Daí a necessidade absoluta do Batismo: quem crê, deve, necessariamente, ser batizado, recebendo o Espírito Santo, que nos dá a justificação na remissão dos pecados! Nunca esqueçamos: fé e Batismo são inseparáveis (cf. Mc 16,15s).

4. No v. 6, o Apóstolo insiste no que já havia acenado antes: em Cristo, não é mais decisivo ser judeu ou gentio (cf. Rm 10,12s)! Esta diferença fazia sentido no tempo da pedagogia do Antigo Testamento, quando Deus, através da Lei de Moisés, preparava Israel para o cumprimento da Promessa com a vinda do Messias. Mas, agora, seja Israel sejam os gentios, são chamados à fé em Jesus Cristo (cf. At 20,20s; Ef 2,12-18). Nele crendo e no Seu Nome sendo batizados, recebem o Santo Espírito de amor, de modo a serem todos no Senhor Jesus Cristo novas criaturas, membros de uma nova humanidade (cf. Rm 5,5).

Pense um pouco: você tem consciência de que o Sacramento do Batismo marcou radicalmente a sua vida: você é de Cristo, vive em Cristo, inundado na Vida do Cristo, que é o Seu Santo Espírito? Você tem o pensamento de Cristo ou o pensamento do mundo? Qual o seu fundamental critério de vida?

5. Releia os vv. 7-12:

a) Nos vv. 7-10, o Apóstolo chama atenção dos gálatas que elementos estranhos à comunidade chegaram para envenenar a paz em Cristo na qual eles viviam. Compara-os ao fermento que penetra a massa, levedando-a toda. Aqui, como um fermento ruim, esses judaizantes, impregnaram toda a comunidade cristã dos gálatas perturbando a fé serena no Evangelho que lhes tinha sido anunciado. Esses serão condenados pelo Senhor, pois maculam a verdadeira doutrina, afasta os fieis da verdade e geram divisão! Ainda hoje, infelizmente, esse tipo de comportamento está presente em todos os níveis da vida eclesial…

b) O v. 11 é um pouco obscuro. Releia-o. Talvez os judaizantes que perturbaram os gálatas tenham dito que São Paulo também praticava a circuncisão, como fez com Timóteo (cf. At 16,3; 1Cor 9,20). Se utilizavam mesmo tal argumento, esses judaizantes eram muito maldosos! Paulo responde com um argumento bem prático: se ele pregasse a circuncisão, os judeus e os judaizantes não seriam contra ele! Mas, aí o escândalo da Cruz, isto é, a novidade de Cristo que ultrapassa e supera a prática de Lei de Moisés, estaria eliminado!

c) O v. 12 é ironia pura: que esses que pregam a circuncisão se mutilem – a circuncisão comporta uma pequena mutilação… Aliás, os gálatas pagãos conheciam bem a castração dos sacerdotes da deusa Cibele. Se esses judaizantes sentem prazer nisto, então que se castrem logo de vez! A dureza na ironia do Apóstolo é decorrência da importância do que está em jogo: a pureza do Evangelho e a liberdade em Cristo. Isto nunca será de pouca importância… Também hoje, mesmo com toda a onda de relativismo, de irenismo e bom-mocismo, presentes na Igreja, ameaçando a novidade cristã, a vitalidade do Evangelho, e especificidade e originalidade da experiência cristã e a radicalidade da vida em Cristo!

6. Reze o Sl 139/140.