Na linda natureza de Deus

“Existe um pequeno besouro, o ‘Rhynchites Betuleti’, menor do que a mosca, — um matemático mais hábil do que a abelha. Esta só trabalha com logaritmos, enquanto que aquele, com cálculos diferenciais e integrais”.

“E por que se dedica a tais horrores?”, perguntou Júlio espantado.

“Ora, porque tem um problema difícil de resolver. Primeiro, ele é capaz de pôr somente alguns ovos, os quais, além disso, são extremamente susceptíveis ao calor e à umidade. Segundo, deve protegê-los contra os salteadores. Enfim, precisa cuidar de que as cegas larvinhas recém-nascidas encontrem imediatamente seu alimento. Imaginem agora: Se esse besourinho refletisse com seu juízo de inseto, que deveria ele pensar?

Saber primeiro o que comem as larvinhas. Mas como chegar a sabê-lo? Depois, contra que inimigos devo resguardá-las?
Ora, o bichinho, não pensa, mas age. Trabalha maravilhosamente, com tino e bom resultado. De uma folha de bétula forma um cartucho. Como o fará? Vamos ver se o Júlio sabe.

“Ora, pega a folha pela ponta e enrola-a até o pecíolo”.

“Errado. Seria esta a melhor solução para você, mas não para o coitado do besourinho! Tanta força ele não tem, para poder enrolar a nervura central da folha”.

“Então começa nos lados e a nervura fica no meio, e não precisa tocá-la”.

“Ainda não acertou. Assim ele deveria enrolar a folha inteira, o que seria tarefa ‘sobre-humana’ para tão pequeno bichinho. E depois, é importante que a folha enrolada murche, porque as larvinhas não podem digerir a folhagem fresca”.

“Corta então a folha pelo meio e faz o cartucho com a metade”.

“Também não vai assim, se cortar a nervura central, o cartucho cai no chão”.

“Então não sei mais!”.

“Você desiste do problema, o besouro não. Ele toma a borda da folha por evolvente e, com o auxílio de cálculo integral e diferencial, corta na folha a evoluta necessária, como se em toda a vida não tivesse feito outra coisa. Corta no lado direito, da borda até a nervura principal, um ‘S’ vertical e no lado esquerdo um ‘S’ deitado, horizontal, (trabalho de um minuto, se tanto); agora enrola o lado direito até a nervura, enrola por cima o lado esquerdo, dobra a ponta da folha e o cartucho está fechado. Somente com o auxílio dos ‘SS’ vertical e horizontal é possível ao besourinho enrolar a folha (o que já é muito), de modo que não se abra de novo, isto é, o cartucho é assim o mais resistente, e é possível fechá-lo.
O mais interessante é que ele não faz em todas as folhas os cortes no mesmo local. Sendo grande a folha, rói perto da ponta, evitando assim utilizar a largura total, a fim de poupar trabalho. Se o tempo for quente, ele recorta a folha de maneira que a nervura principal se rompa logo e o cartucho caia sobre o solo úmido; senão seus pequeninos habitantes haviam de torrar. Quando o tempo é frio e úmido, eles apodreceriam no chão molhado; então o besouro toma cuidado de não lesar a nervura, e o cartucho não cai.

Então, rapazes, não é coisa prodigiosa? Como sabe o coleóptero de 6 milímetros tudo isso? Nunca viu nem aprendeu nada semelhante e, contudo, o faz sem refletir e sem hesitação, com a máxima exatidão, como coisa natural”.

“A mim me surpreende mais seu senso meteorológico. O besouro sabe que deve cortar a nervura central, quando faz calor, para que o cartucho possa cair na ocasião própria?”

“Não sabe. E justamente o interessante é que o faz como se soubesse. A nós nos parece admiravelmente exata, mas ele, coitado, nada disso sabe. É que, se fizer calor, seu sistema nervoso fica irritado, e o bichinho morde e corta como louco, folha a dentro. Não tem idéia de que trabalha tão furiosamente; mas nós o sabemos, observamos e nos assombramos, da bondade com que um poder maravilhoso e sábio guia, protege e vigia o menor besourinho, tendo-o criado de modo tal que o calor irrite seu sistema nervoso e o obrigue a remorder a folha”.

“Isso estava tão interessante que as dores no meu nariz cessaram”, verificou Francisco muito satisfeito.

“É, mas não foi da palestra”, acudiu Jorge a defender sua honra de farmacêutico, “foi o excelente remédio que te apliquei. Quando uma abelha te picar de novo, pode voltar!”

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(TOTH, Monsenhor Tihamer. Na linda natureza de Deus. Editora S. C. J., 1945, p. 60-62)