Meditação para 22 de Outubro: Segundo Mistério Doloroso: A Flagelação
A Flagelação de Jesus

Diz simplesmente o Evangelho:

“Pilatos, pois, tomou então a Jesus e O mandou flagelar” (São João 19,1 — São Mateus 27 — São Marcos 15).

A flagelação era um horrível tormento e, de todos, o mais humilhante, depois da crucifixão, suplício de escravos. Embora o Evangelho seja lacônico em tratar da flagelação de Jesus, podemos afirmar com certeza ter sido um suplício dos mais horrorosos da Paixão. A lei dos judeus ordenava não passasse de quarenta golpes. Para Nosso Senhor, entretanto, não havia mais lei, nem medida, nem número. Fora entregue à ira dos carrascos. Batem furiosamente sobre o corpo santíssimo do Redentor e O ferem da cabeça aos pés. Rasgam-Lhe as carnes e o sangue corre até o chão. Golpes sobre golpes e sobre as feridas já abertas. Jesus é uma chaga viva. Ninguém o reconhece. É a figura de um leproso de chagas abertas: Vidimus eum quasi leprosum, dizia o profeta.

A crueldade dos judeus temia que Pilatos ainda libertasse Jesus e então empregam todos os recursos para que a vítima morra após a flagelação. Cansam-se de açoitar e se revezam os carrascos. A paciência infinita de Jesus não se cansa. As carnes do Redentor voam aos pedaços na ponta dos chicotes e o sangue corre das suas veias abertas. Horrível espetáculo! Amarrado à coluna como se fosse vil escravo, lá estava Jesus em lastimoso estado. Humilhado, insultado, uma só chaga da cabeça aos pés. Afinal o desamarram e a Vítima Divina cai por terra. Atiram-na ainda a pontapés. Ninguém dele se compadece. É esmagado como um verme, atirado ao chão, ferido, despedaçado, em suas carnes, todo sangue e chagas em todo o corpo. Bastava este suplício para o fazer expirar de dor, não fosse Ele o Homem Deus.

Os verdugos eram muitos e cada qual mais endurecido. Açoitavam Jesus nos ombros, no peito, em todo o corpo, a tal ponto, segundo foi revelado à Santa Madalena de Pazzi e à Santa Brígida, que os golpes descarnaram os ombros de Jesus e o peito. Era tudo aquilo tão horroroso que Pilatos ao ver o estado lastimável de Jesus, julgou que só a vista daquele homem ferido bastasse para excitar à compaixão do povo. Apresenta-O à plebe:

Ecce Homo! Eis o homem!

E nem assim movera o coração empedernido dos Judeus. Neste mistério doloroso do Rosário, enquanto rezamos, contemplemos Nosso Senhor na coluna da flagelação e peçamos perdão dos pecados da carne, de nossa sensualidade, nossos crimes e escândalos que tanto sangue custaram ao Divino Redentor!

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Fruto: A Mortificação dos Sentidos

Nossos sentidos são portas abertas para o pecado. Se não os mortificarmos nos levarão fatalmente a ruína espiritual.

Sem mortificação não há virtude sólida e garantia de perseverança. Mortifiquemos nossa carne pecadora. Mortificate membro vestra, mortificai vossos membros, diz a Apóstolo. Não podemos viver segundo a carne, na sensualidade, na satisfação dos prazeres. Os que pertencem a Jesus Cristo, diz São Paulo, crucificaram sua carne com seus vícios e concupiscências. O mundo de hoje tem horror à mortificação, quer gozar. Atira-se loucamente ao prazer. Quanta sensualidade grosseira! Bem poucos compreendem a palavra de Jesus Cristo:

“Se alguém quiser me seguir, tome sua cruz de cada dia e me acompanhe”

Daí tanto pecado e tanto escândalo! Modas indecentes, nudismos de praias e piscinas, glorificação da carne humana, sobre pretexto de arte ou de eugenia. Como resistir ao mundo e à carne sem a mortificação dos sentidos? Vigiemos nossos olhos, nossos ouvidos, nosso tato. Um pouco de mortificação pelo menos, aquele mínimo necessário para evitar o pecado grave. Sem a mortificação ninguém se santifica. A oração nos introduz no coração o amor Divino, mas quem prepara o coração é a mortificação dos sentidos. Tenhamos coragem. A vida do cristão é luta. Somos discípulos de um Deus crucificado. Somos membros de um corpo flagelado. Se não podemos fazer grandes penitências como os santos, aproveitemos com diligência as pequeninas cruzes do dever de cada dia, dos sofrimentos em família, das enfermidades e de mil ocasiões de sofrer alguma coisa por amor de Deus. Aproveitemos as mortificações que a providência nos envia. Pelo menos estas, não as desperdicemos. Pensemos em Jesus flagelado. Mortifiquemos nosso corpo. Fujamos da sensualidade.

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A Intenção: Os Pecadores Endurecidos

O hábito do pecado endurece o coração e o reduz a pedra. E o pecador zomba de Deus e da fé e morre no pecado e se precipita no inferno. Que desgraça! O mau hábito do pecado vai sufocando o remorso. Os maiores pecadores riem-se da eternidade, caminham para a morte como se fossem pobres animais, sem responsabilidades eternas, após esta vida. Não é a desgraça de tantos homens? Que tamanha desgraça não nos aconteça, apesar de nossos pecados e grandes misérias! Que Nossa Senhora do Rosário nos livre do abismo do endurecimento do coração. E tenhamos compaixão dos infelizes pecadores chegados a tão lastimável estado! O pecador endurecido está arriscado a morrer no seu pecado — In pecato vestro moriemini — morrereis no vosso pecado, diz a Escritura. Só vós, ó Virgem Santíssima, Refúgio dos pecadores, podereis valer estes desgraçados. A vós recorremos por vosso Rosário Bendito! Talvez haja entre os nossos entes queridos algum pecador assim! Confiança! Rezai este mistério com fervor. A oração tudo pode!

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EXEMPLO

A pecadora e o Rosário

Conta o Padre Bovio que uma mulher perdida, chamada Helena, foi um dia à Igreja e aí ouviu casualmente um sermão sobre o Rosário. Saindo para fora trocou um Rosário, mas trazia-o escondido paro que não tosse visto. Começou logo a rezá-lo. E ainda que o recitasse sem devoção, a Santíssima Virgem lhe infundiu tantas consolações e doçuras em rezar, que depois não podia deixar de o fazer. Ao mesmo tempo nela inspirou o Senhor um profundo nojo da má vida que levava. Helena não podia encontrar mais repouso e viu-se como impelida a ir confessar-se. Realmente, confessou-se com tanta contrição, que fez pasmo ao confessor. Feita a confissão prostrou-se aos pés de um altar da Mãe de Deus para dar graças à sua advogada. Enquanto aí recitava o Rosário, falou-lhe a imagem da divina Mãe:

“Helena, basta quanto tens ofendido a Deus e a mim; de hoje em diante muda de vida, que eu te farei participante das minhas graças”

Confusa, respondeu-lhe a pobre pecadora:

“Ah! Virgem Santíssima, é verdade que eu tenho levado uma vida de vícios; mas vós, que tudo podeis, ajudai-me; consagro-me inteiramente a vós e quero passar o resto de minha vida fazendo penitência por meus pecados”

Helena distribuiu todos os seus bens pelos pobres e principiou a fazer rigorosa penitência. Atormentavam-na terríveis tentações; mas bastava encomendar-se à Mãe de Deus para ficar vitoriosa. Chegou a receber muitas graças sobrenaturais, visões, revelações e profecias. Finalmente, quando foi hora de sua morte, da qual tinha sido avisada, veio a Santíssima Virgem com seu Filho visitá-la. E morrendo, foi vista a alma desta pecadora em forma de belíssima pombinha voar para o céu.

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(BRANDÃO, Monsenhor Ascânio. O Mês do Rosário, Edições do “Mensageiro do Santíssimo Rosário”, 1943, p. 178-184)