Meditação para 19 de Outubro: Quarto Mistério Gozoso: Apresentação
A Apresentação no Templo e a Purificação de Maria

Evangelho de São Mateus 2, 13; São Lucas 2, 22-39

Depois que se retiraram os Magos, e chegado o tempo prescrito para a cerimônia da purificação de Maria, segundo a Lei de Moisés, levaram o Menino a Jerusalém afim de apresentá-lo a Deus, em obediência ao que está escrito na Lei do Senhor: “Todo filho primogênito será consagrado ao Senhor”, e também para oferecer a hóstia, conforme ordenara a Lei do Senhor, isto é, duas rolas ou dois pombinhos. Ora, havia em Jerusalém um homem justo e temente a Deus, chamado Simeão, que esperava a consolação de Israel e o Espírito Santo estava nele. Tinha sido avisado pelo Espírito Santo que não havia de morrer sem que primeiro visse o Cristo do Senhor.

Conduzido pelo Espirito Santo, veio ao Templo, exatamente quando os pais de Jesus o traziam para cumprirem o que a seu respeito ordenava a Lei. E tomando-o nos braços louvou a Deus dizendo:

“Agora, Senhor, deixai morrer em paz o Vosso servo, segundo a Vossa palavra, porque os meus olhos viram o Salvador que nos destes, aquele que preparastes à face de todos os povos, como a luz que há de iluminar a todas as nações e a glória de Israel, vosso povo”

O pai e a mãe de Jesus estavam admirados do que a seu respeito se dizia. Simeão os abençoou e disse a Maria sua Mãe:

“Este foi posto por Deus para ruína e ressurreição de muitos em Israel, e, como um sinal de contradição. Uma espada transpassará a Vossa alma, para que se manifestem os pensamentos de muitos corações”.

Havia também uma profetisa chamada Ana, filha de Fanuel, da Tribo de Aser, a qual já estava muito adiantada em anos, e vivera sete anos, com seu marido, desde a sua virgindade. Tendo ficado viúva até a idade de oitenta e quatro anos, não se afastava do templo, onde servia a Deus, de dia e de noite, com jejuns e orações. Chegando também ela na mesma ocasião, louvava ao Senhor, e falava do Menino a todos os que esperavam a redenção de Israel.

Depois que José e Maria fizeram tudo o que prescrevia a Lei do Senhor, voltaram à Galileia, e foram para a sua cidade de Nazaré.

Eis o que contemplamos no quarto mistério gozoso do Rosário. Que lições! A obediência de Maria e José a tudo. quanto prescrevia a Lei. A resignação de Maria ao ouvir a profecia: — uma espada de dor te há de traspassar a alma. Nossa Senhora via todo o martírio do seu Divino Filho!

Simeão, cheio de fé e de reconhecimento, agradece ao Senhor ter conhecido e visto com seus olhos o Salvador do mundo! E nós quanto mais venturosos somos que ele! Recebemos os frutos preciosos do sangue do Salvador e da copiosa Redenção! Ana mal conheceu a Jesus e foi logo anunciando a todos. Que modelo de uma alma apostólica e cheia de zelo!

***

Fruto: A Castidade

Obedecendo à lei de Moisés, a Virgem Santíssima, concebida sem pecado, Imaculada, se sujeita à cerimônia da Purificação.

Maria, escreve o padre Monsabré, nos ensina, como devemos vigiar com cuidado e zelo a perfeita integridade de nosso corpo e de nossa alma, e nos propõe assim como fruto deste mistério — a Santa virtude da pureza.

“Esta virtude angélica, virtude vivificante, virtude generosa, virtude privilegiada de Deus” – Monsabré, Saint Rosaire

Virtude Angélica: ela nos faz viver numa carne sujeita à corrupção, uma vida de espíritos celestes: O vício impuro nos reduz à condição do animal. A pureza nos angeliza. E diz São Bernardo, temos ainda mais mérito que os anjos, pois estes não possuem a carne e estão livres da tentação.

Virtude Vivificante: — A pureza conserva a vida do corpo e a vida da alma. É saúde, e é força.

Virtude Luminosa: — Porque esclarece a inteligência, espiritualiza-nos e diz Santo Tomás de Aquino, nos torna bem dispostos para as operações intelectuais; como as almas puras compreendem bem as coisas de Deus! Elas veem a Deus na expressão do Evangelho!

Beati mundo corde quoniam ipsi Deum videbunt — “Bem-aventurados os puros de coração porque eles verão a Deus”

Verão, sim, na eternidade e já o veem neste mundo através das criaturas e pelo espírito sobrenatural e a união íntima com o Senhor e Rei e Esposo das Virgens.

A castidade é generosa. Quanto sacrifício exige! E com isto dilata o coração e o prepara para qualquer sacrifício e dedicação. O que não fazem as almas puras para a Glória de Deus! Enfim, é uma virtude privilegiada. As almas puras são mais queridas de Deus Nosso Senhor Jesus Cristo que quis nascer de Mãe Virgem, foi anunciado por um Precursor virgem e amou de premência o discípulo virgem, como não olhará cheio de amor as almas castas, os que lutam para conservar o tesouro da santa pureza! Peçamos a bela virtude a Maria, ao rezar e meditar este quarto mistério!

***

A Intenção deste Mistério:
Orar pelos Sacerdotes

A grande honra do velho Simeão foi receber nos braços Aquele que os Sacerdotes da Antiga Lei não tiveram a felicidade de conhecer senão em figuras. Simeão foi o primeiro homem do templo que tocou Jesus. Este mistério do Rosário nos lembra uma intenção: — Orar pelos sacerdotes.

“Não é o padre o sal da terra e a luz do mundo? A nós compete, dizia Santa Teresinha, conservar o sal da terra pelas nossas orações e sacrifícios”

Como é necessário orar pelos sacerdotes e pelas vocações sacerdotais! É a mais fecunda das preces porque um só padre, bem santo, representa legiões de almas salvas e conquistadas para o reino de Cristo. Orar pela multiplicação e santificação dos sacerdotes é fazer apostolado em alta escala. Dizia Santa Teresa:

“É pela cabeça atingir todos os membros”

É a melhor tática de guerra no combate ao inferno. Com o Rosário nas mãos e pela mais eficaz das orações à Maria, peçamos à Rainha do Clero numerosos e santos sacerdotes para o Brasil.

***
EXEMPLO

Miguel Ângelo e o Rosário

Miguel Ângelo (Buonarotti), pintor, escultor, arquiteto e poeta, uma das mais poderosas organizações de artista que jamais existiram, cujas obras são uma espantosa, uma extraordinária manifestação do grandioso e do sublime, não achava que o Rosário fosse coisa mínima para o seu gênio portentoso.

Ainda hoje existem na casa da Via Ghibellina, ao lado dos seus manuscritos, dos seus bosquejos, dos seus quadros, dos seus maços de tintas e das suas muletas, dois grandes Rosários, de grossas contas de madeira e com aspecto de muito uso. De fato, o glorioso artista rezava-os muitas vezes e nos últimos anos de sua vida, já cegos os olhos onde se espelhara a sua grande alma, era àquelas contas pruídas que ia pedir conforto.

O seu quadro grandioso e terrível do Juízo final, que levou sete anos a concluir, de 1434 a 1441, mostra bem o conceito em que tinha o Rosário. A pintura representa o momento em que a terra se abre e todos os que vivem aguardam numa ansiedade tremenda a sentença do Juiz, que vai ser pronunciada. A Palavra definitiva não foi ainda proferida, todavia os homens debatem-se por subir para o alto. Em meio da estupenda composição há duas almas que se socorrem dum Rosário, que uma outra lhes estende. O pensamento do artista é evidente: aquelas duas almas, se escaparam às penas eternas, devem-no unicamente ao Rosário, que em vida rezariam, ou que uma pessoa amiga teria rezado por elas enquanto viviam afastadas de Deus.

Voltar para o Índice do livro Mês do Rosário, de Mons. Ascânio Brandão

(BRANDÃO, Monsenhor Ascânio. O Mês do Rosário, Edições do “Mensageiro do Santíssimo Rosário”, 1943, p. 151-158)