Meditação para 16 de Outubro: Primeiro Mistério Gozoso: Anunciação

Mistérios do Rosário

A beleza do Rosário está em ser uma completa oração, unindo à oração vocal, a meditação dos principais mistérios da nossa fé. Após havermos refletido sobre as grandezas, poder e vantagens do Rosário, passemos à consideração, ao estudo de cada um dos seus mistérios, e dos frutos que deles podemos tirar para nossa santificação e salvação eterna. O primeiro mistério é da Anunciação. Como o descreve o Evangelho?

São Lucas no Cap. 1, versículos de 36 à 38:

Foi o Anjo Gabriel enviado por Deus a uma cidade da Galileia chamada Nazaré, a uma Virgem desposada com um homem chamado José, da casa de David. O nome da Virgem era Maria. Entrando, pois, o Anjo onde Ela estava disse:

“Ave cheia de graça o Senhor é contigo, bendita és Tu entre as mulheres”.

Ouvindo estas palavras perturbou- se Ela pelo que lhe dizia o Anjo e perguntava a si mesma que saudação podia ser esta. Mas o Anjo lhe disse:

“Não temas Maria, porque achaste graça diante de Deus. Eis que tu conceberás em teu seio e darás à luz um filho a quem porás o nome de Jesus. Este será grande e será chamado Filho do Altíssimo. O Senhor Deus lhe dará o trono de David, seu pai. Reinará eternamente sobre a casa de Jacó e o seu reino não terá fim”

Porém, Maria disse ao Anjo:

“Como se fará isto, porque resolvi permanecer sempre Virgem?”

E o Anjo lhe respondeu:

“O Espírito Santo descerá sobre ti e a virtude do Altíssimo te cobrirá com a sua sombra. Por isso o Santo que de ti nascer será chamado Filho de Deus. Eis que Izabel, tua parente, também concebeu um filho, na sua velhice, e aquela, a quem chamavam estéril, está hoje no sexto mês porque nada é impossível a Deus”

Então disse Maria:

“Eis aqui a escrava do Senhor, faça-se em mim segundo a tua palavra”

E o Anjo se retirou.

Aí está na singela narração de São Lucas, todo o primeiro mistério do Rosário. Ao recitar o Pai-Nosso e dez Ave-Marias, a nossa alma passando as contas do Terço, vai recordando as palavras do Anjo, o exemplo de Maria e o adorável mistério da Encarnação. Um Deus se fez homem! O Espírito Santo realizou a maior e mais sublime das suas obras. Maria se tornou Mãe de Deus e nossa Mãe! Sim, porque a missão de Jesus Cristo era nos remir e salvar, fazer-nos filhos da graça e herdeiros do Céu. E tudo isto alcançamos no dia em que Nossa Senhora consentiu em ser Mãe de Deus, naquele sim, naquele fiat miraculoso da Anunciação. Fomos também gerados para a vida do Céu naquele dia.
Maria Santíssima não podia ser mais exaltada. Deus, escreve Santo Alberto Magno, conferiu à Santíssima Virgem o que há de mais alto possível para uma criatura: — a Maternidade Divina. Não se poderá dizer de Maria nada mais sublime:

— É Mãe de Deus!

E isto se realizou no mistério anunciado pelo Anjo!

***

Fruto: A Humildade

O Anjo louva à Maria, a proclama bendita entre todas as mulheres, avisa-Lhe que há de ser a Esposa do Espírito Santo, a Mãe do seu Deus. E Ela responde:

“Eis aqui, a serva, a escrava do Senhor!”

Como brilha neste adorável mistério a humildade, a doce humildade de Nossa Senhora! Somos tão orgulhosos! Aprendamos bem esta lição. Sem a humildade nada somos e nada podemos na vida espiritual. O orgulho esteriliza nossas obras, seca a fonte da graça, é o sinal mais certo de uma alma condenada, é o Signum reproborum. Ao invés, a humildade atrai todas as bênçãos e graças do céu. Porque Maria foi tão exaltada?

Quia respexit humilitatem ancilae suae — Porque o Senhor olhou a humildade da sua serva.

Ó nunca chegaremos a gloria do céu se não aprendemos a grande lição do Evangelho:

Discite a me quia milis sum et humilis corde — Aprendei de mim que sou manso e humilde de coração.

Esta é a única lição de que temos necessidade, se quisermos ser grandes, não na terra, mas na vida eterna.

A humildade, diz Santo Tomás, é uma tendência para nos abatermos, é o desprezo de nós mesmos, diz São Bernardo. É a verdade sobre nós.

— Quem sou eu? E quem sois vós? — dizia São Francisco de Assis. E Santo Agostinho:

“Senhor, que eu Vos conheça e que eu me conheça! Que eu Vos conheça para Vos amar, e que me conheça para me desprezar”

Somos orgulhosos, porque não nos conhecemos bem. Quanta miséria neste corpo de morte, quanto pecado e quanta ingratidão e crimes em nossa vida! E levantamos a fronte com tanto orgulho! Orgulho nas palavras e atitudes. Orgulho na vida, orgulho no pensamento. Julgamo-nos muito maiores do que somos. Sejamos humildes de coração, pois sem isto estará por certo em grave perigo a nossa Salvação eterna.

Deus resiste aos soberbos e dá a sua graça aos humildes, diz a Escritura. E os exemplos são por demais eloquentes nos livros Sagrados. Procuremos a pérola da humildade à custa de todo sacrifício.

“Todas as visões, revelações e sentimentos celestes, diz São João da Cruz, não valem o menor ato de humildade. A humildade tem os efeitos da caridade”

A caridade é a rainha de todas as virtudes, e sem ela não ha virtude alguma. Ora, a humildade tem os seus efeitos, porque, diz São Bernardo, ela é o suplemento do que nos falta. Ser humilde é ser paciente, casto, caritativo, obediente. Qual é a virtude que pode subsistir sem a humildade? Peçamos a Deus a graça da humildade com muita perseverança. Ver-se miserável e recorrer à misericórdia Divina! Andar sempre humilhado na presença de Deus! Ser pequenino e pobre e humilde de coração! Que belo programa de santidade! E tudo isto nos ensina Maria no exemplo de humildade deste Primeiro Mistério do Rosário.

Intenção: — Os infiéis e a obra da Propagação da Fé.

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EXEMPLO

São Domingos e o ladrão

Houve na Itália um famoso bandido e salteador que se tornara o terror das estradas e parecia mais fera que criatura humana.

São Domingos, ao ver as calamidades que este homem provocava e os males que fazia à região, teve compaixão do povo e do infeliz pecador, e resolveu ganhar a alma do bandido para Deus. Arriscou-se a entrar na floresta à procura daquela ovelha desgarrada. Encontrou, logo o bandido.

— Meu filho, que fazes? Deixa esta vida, pensa na tua salvação, implora a misericórdia Divina!

O miserável estava obstinado no crime. Não aceitou um só dos conselhos e propostas do Santo.

— Meu filho, diz afinal São Domingos, aceita um Rosário e promete-me rezá-lo todos os dias. Só isto te suplico, por amor de Deus e de tua alma!

— Aceito, padre, o Rosário e isto posso prometer. E é só!

Despediu-se o Santo Patriarca e entregou aquela pobre alma à proteção do Rosário de Maria.
Passaram-se dois anos, e ,um dia, São Domingos com muita gente que o seguia, atravessava a floresta, quando ouviram todos um gemido e uma voz bem clara a bradar:

— Servo de Deus, Frei Domingos, tem compaixão de mim!

E dentre as arvores sai um homem pálido, macilento e desfigurado! Mal podia se ter em pé. Cai de joelhos aos pés do Santo.

— Meu Padre Frei Domingos, eu sou aquele bandido famoso, terror da Itália, lembra-se de mim?

Recebi um Rosário de suas mãos, e apesar de tanta maldade, de tantos crimes, eu o rezava todos os dias. Deus me castigou pelos meus crimes. Sofri um grave acidente e fui considerado morto pelos meus companheiros e atiraram-me no meio da floresta sob um montão de galhos e folhas de arvores. Voltei a mim depois de longas horas, e consegui sair desta sepultura. Desde então a graça de Deus me abriu os olhos. Conheci os meus pecados e os tenho chorado muito com o meu Rosário nas mãos.

Pedi a Nossa Senhora do Santo Rosário que me salvasse e me alcançasse a graça de uma confissão dolorosa de meus pecados. Durante estes longos dias que aqui passei abandonado a sofrer mil privações, fiz penitência. Ofereci tudo a Deus como um Purgatório. Quero me confessar.

São Domingos e os da sua comitiva choravam de comoção. O infeliz se confessou com grande arrependimento e poucos dias depois veio a falecer piedosamente apertando contra o coração o Rosário precioso que o salvara, o rico tesouro que lhe dera São Domingos.

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(BRANDÃO, Monsenhor Ascânio. O Mês do Rosário, Edições do “Mensageiro do Santíssimo Rosário”, 1943, p. 127-134)