Meditação para o 1º Domingo do Advento. Tríplice vinda do Salvador

Meditação para o 1º Domingo do Advento

Evangelho segundo São Lucas 21, 25

Naquele tempo, disse Jesus a seus discípulos: Haverá sinais no sol e na lua, e nas estrelas, e na terra consternação dos povos pela confusão em que os porá o bramido do mar e das ondas, mirrando-se os homens de susto e na expectação do que virá sobre todo o mundo; porque as virtudes dos céus se abalarão. Então verão o Filho do Homem, que virá sob uma nuvem com grande poder e majestade. Quando começarem pois a cumprir-se estas coisas, olhai, e levantai as vossas cabeças, porque está próxima a vossa redenção. Propôs-lhes depois este símile: Observai a figueira e as mais arvores; quando elas começam já a produzir de si fruto, conheceis que está perto o estio, assim também quando virdes que vão sucedendo estas coisas sabeis que está perto o reino de Deus. Em verdade vos digo, que não passará esta geração sem que se cumpram todas estas coisas. O céu e a terra passarão; mas as minhas palavras não passarão. Velai pois sobre vós, para que não suceda que os vossos corações se façam pesados com as demasias do comer e do beber e com os cuidados desta vida; para que aquele dia vos não apanhe de repente. Por que ele, assim como um laço, prenderá a todos os que habitam sobre a face de toda a terra. Vigiai pois, orando em todo o tempo, a fim de que vos façais dignos de evitar todos os males que têm de suceder, e de vos apresentardes com confiança diante do Filho do Homem.

Sumário

O santo tempo em que entramos, é consagrado, segundo os desígnios da Igreja, a fazer-nos meditar as três grandes vindas do Salvador à terra:

1.ª na humildade do presépio, para nos salvar;

2.ª no esplendor da glória, no último dia, para nos julgar;

3.ª ao âmago dos nossos corações pela Sua graça, para nos santificar.

Depois destas três considerações tomaremos a resolução:

1.° de entrar em uma nova vida de contemplação e de oração, própria do tempo do Advento;

2.° de ter um especial cuidado na perfeição de cada uma das nossas ações ordinárias; o que será o melhor modo de santificar este santo tempo.

O nosso ramalhete espiritual será a palavra de São Paulo:

“Eis aqui agora o tempo aceitável, eis aqui agora o dia da salvação” – Ecce nunc tempus acceptablle, ecce nunc dies salutis (II Cor 6, 2)

Meditações para o Dia

Adoremos o Espírito de Deus inspirando à Igreja a instituição do Advento para nos preparar para a festa do Natal, de que todo este tempo é como que a vigília, diz São Carlos; vigília, observa este santo cardeal, que não deve parecer muito longa a quem aprecia a excelência da festa para que nos prepara (1). É com este intuito que a Santa Igreja invoca o céu, dizendo: “Enviai, Senhor, a vossa graça a fim de dispor os nossos corações” – Excita potentiam tuam et veni; excita corda nostra et praeparandas Unigeniti tui vias (Collect. Adventus); e que nos diz na epistola deste dia: “É já a hora de vos levantardes do sono porque está perto o nascimento do Salvador” – Hora est jam nos de somno surgere; nune enim propior est nostra salus (Rm 13, 11). É com este mesmo intuito que ela substitui as vestiduras de festa pelas de penitência, as suas orações ordinárias por orações especiais e mais longas; e que, onde pode, chama para os seus púlpitos pregadores extraordinários, que mais facilmente movam os corações. Entremos de todo o nosso coração no espírito da Igreja durante este santo tempo.

PRIMEIRO PONTO

Para que meditar de um modo especial, durante o Advento, o mistério de um Deus Encarnado?

É da parte da Igreja uma profunda sabedoria não nos conduzir de repente ao presépio de Belém, mas no-lo mostrar de alguma sorte com o dedo um mês antes, para nos dizer:

“Preparai-vos a saírdes ao encontro do divino Menino” – Praeparare in occursum Dei tui (Am 4, 12). Parate viam Domini (Is 40, 3).

Reflete seriamente neste grande mistério que, depois de ter estado oculto nove meses no seio de Maria, vai oferecer-Se à devoção do mundo no dia de Natal. Preparai-Lhe no vosso coração, pela meditação, uma fé mais viva nas Suas perfeições, uma profunda devoção para com a Sua majestade abatida, um amor reconhecido para com a Sua caridade de tão alto descida tão baixo, uma verdadeira humildade para louvar as Suas humilhações, uma brandura de caráter e de palavras em relação com a Sua incomparável benignidade, um espírito de penitência e de contemplação, que não contraste com a austeridade do presépio e com as santas ocupações do divino Menino. Se não preparardes assim os vossos corações por uma séria meditação do mistério do Verbo Encarnado, perdereis as graças anexas a esta solenidade. Evitemos semelhante desgraça, começando desde hoje a ocupar-nos deste mistério e entrando em nova vida.

SEGUNDO PONTO

Para que meditar de um modo especial, durante o Advento, a vinda do Senhor para nos julgar?

Sem dúvida, devemos lembrar-nos todos os dias da nossa vida deste grande juízo que há de terminar o mundo, e dizer conosco a cada ação: “Depois disto o juízo” –  Post hoc autem judicium (Hb 9, 27). Todavia a Igreja, julgando este pensamento eminentemente útil para nos incutir os sentimentos de fervor próprios do santo tempo do Advento, convida-nos a meditar nele com a narração do juízo final, que nos faz ler hoje no Evangelho. É dever nosso conformar-nos com a sua intenção, crer com viva fé neste grande dia, tão consolador para os bons, que nele receberão a recompensa das suas virtudes, tão terrível para os pecadores, que nele receberão o castigo dos seus erros; e ouvir, como São Jerônimo, a voz da trombeta que a ele nos chamará. Oxalá que esta voz retumbe no fundo do nosso coração durante todo este santo tempo para nos fazer tremer diante só da aparência do mal, e nos ensinar a praticar tudo o que é bem.

TERCEIRO PONTO

Porque meditar de um modo especial, durante o tempo do Advento, a vinda do Salvador aos nossos corações pela Sua graça?

É porque esta vinda é o meio especial, pelo qual se comunicam à alma as graças do mistério do Natal. Jesus Cristo, nesta grande festa, não nasce corporalmente como em Belém, mas nasce espiritualmente pela Sua graça nas almas bem dispostas. Vive nelas pelo Seu espírito, e pelos sentimentos que nos inspira, pela Sua humildade, Sua mansidão, Sua caridade, e por todas as virtudes que nos comunica. Ó vida de Jesus em nós, quão necessária nos sois! Só Vós, ó meu Deus, podeis restituir à nossa alma desfigurada pelo pecado a Sua primeira beleza (2); só Vós sois a nossa salvação, a nossa força, a nossa consolação; sem Vós, a nossa pobre alma deperece como a erva sem água (3). Nós somos enfermos que não podemos ser curados senão por Vós; homens caídos que não podemos ser levantados senão por Vós. Mostrai-nos os Vossos divinos atrativos, que enlevam as almas; e cativados dos Vossos encantos, recobraremos a flor perdida da nossa inocência (4). Obtemos este nascimento e esta vida da graça em nós:

1.° À força de orações fervorosas, inspiradas pelo sentimento da necessidade que dela temos;

2.° À força de vigilância para ouvir a graça que não pede senão para falar-nos;

3.° À força de generosidade para lhe obedecer, e de abandono simples e cheio de amor ao seu procedimento.

São estas as nossas disposições ?

Resoluções e ramalhete espiritual como acima

Referências:

(1) Quod longius videri non debet, attenta festi illius excellentia – Lit. S. Carl., de Adventus.

(2) Tu, Christe, tu solus tuo delapsus e throno, Deus, imagini potes tuae formam decusque reddere (Hymn, Laudum et Vesper., Brev. Paris).

(3) Tu nostra, tu, Jesu, salus, tu robur et solatiam; arens est herba, te sine, moratle tabescit genus (Ibidem).

(4) AEgris salutarem manum extende, prostratos leva; ostende vultum, jam suus mundo reflrescet decor (Hymn. Laudam et Vesper., Brev. Paris)

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(HAMON, Monsenhor André Jean Marie. Meditações para todos os dias do ano: Para uso dos Sacerdotes, Religiosos e dos Fiéis. Livraria Chardron, de Lélo & Irmão – Porto, 1904, p. 23-27)