Meditação para a Undécima Quinta-feira depois de Pentecostes. Décima razão de sermos Humildes: Todos os Santos amaram a Humildade

Meditação para a Undécima Quinta-feira depois de Pentecostes

Décima razão de sermos Humildes

SUMARIO

Meditaremos sobre uma décima razão de sermos humildes: é a particular afeição que os santos têm tido à humildade.

1.° Provaremos esta afeição;

2.° Veremos quanto devemos esforçar-nos por assemelhar-nos aos santos.

— Tomaremos depois a resolução:

1.° De nos lembrarmos nas tentações de amor-próprio, quão humildes têm sido os santos, e de nos humilharmos com esta comparação;

2.º De pedirmos muitas vezes a Deus a graça de os imitar com este generoso desprezo de toda a vaidade e amor-próprio.

O nosso ramalhete espiritual será a palavra de Santo Agostinho:

“Porque não poderás tu fazer o que fazem estes e estas?” – Quod isti et istae, quare tu non poteris?  (Santo Agostinho)

Meditação para o Dia

Adoremos Nosso Senhor procurando desde o primeiro momento da sua encarnação até ao seu último suspiro ensinar-nos a humildade com o seu exemplo, e continuando depois da sua morte a ensinar-no-la ainda com os grandes exemplos dos seus santos, que Ele fez participantes da sua vida humilde sobre a terra, antes de os fazer participantes da sua glória no céu. Agradeçamos-Lhe a diligência que faz por nos instruir, e o desejo que tem de nos tornar humildes.

PRIMEIRO PONTO

Da particular afeição dos Santos à Humildade

Antes de Jesus Cristo, Davi tinha dito:

“Eu escolhi ser antes o último” – Elegi abiectus esse (Sl 83, 11). Villior fiam plus quam factus sum (2Rs 6, 22)

São João Batista havia dito:

“Quero tornar-me todos os dias mais pequeno na opinião dos homens, para que o Messias seja por eles mais honrado; quero diminuir, para que ele cresça” – Ilium oportet crescere, me autem minui (Jo 3, 30)

É ele o Senhor; e eu não sou mais do que um som que se perde no ar e de que nada resta logo depois (1); nem sequer sou digno de desatar a correia dos seus sapatos (Lc 13, 16). Maria tinha-se colocado na última classe das criaturas: tinha-se denominado uma pobre escrava (2); e longe de se atribuir a honra de sua maternidade, dizia que as grandes coisas cumpridas nela eram o efeito da divina misericórdia (3), e havia-se sujeitado de boa vontade a viver em uma pobre cabana. Jesus Cristo aparece, passa a vida na humilhação; e os seus Apóstolos, cheios do seu espírito, alegram-se de terem sido achados dignos de ser humilhados (4). São Paulo faz consistir a sua felicidade no opróbrio (5), e a si próprio se chama o primeiro dos pecadores (6). Depois dos Apóstolos vem doze milhões de mártires que perdem gostosamente a sua reputação na terra, crendo que só começam a ser discípulos de Jesus Cristo quando começam a ser humilhados (7). Aos mártires, sucedem os solitários, que vão esconder os seus méritos e virtudes nos ermos. Depois vem os santos de todas as condições e sexo, que buscam ocultar o bem que fazem, se pejam de ser, surpreendidos em alguma boa obra, temem o louvor como um flagelo (8), sofrem com resignação a calúnia e perseguição, e só se julgam dignos de desprezo. Santo Inácio olha-se como uma úlcera, de onde escorre, a todo o instante a podridão; São Vicente Ferrer, como um cadáver hediondo, que causava horror e tédio a quem o via ou dele se aproximava. São Francisco Xavier não é a seus olhos senão um abominável pecador, que tem suma necessidade de que o encomendem a Deus em razão de seus numerosos pecados. São Francisco Regis julga-se digno de ser calcado aos pés de toda a gente: e quando uns malvados o espancam e ultrajam, exclama que lhe fazem muito favor e que merece ser tratado ainda pior. E quem não ouviu São Vicente de Paulo proferir no fundo do seu coração humilhado esta tocante súplica:

“Ó meu Deus! Eu não sou um homem, mas um pobre bichinho que roja pelo chão, sem saber aonde vai, que só busca esconder-se em vós, ó Jesus, que sois tudo o que eu desejo. Sou um pobre cego, que não poderia dar um só passo na virtude, se não estendêsseis a vossa misericordiosa mão para me guiar?”

Ó humildade dos santos, como tu confundes o meu amor-próprio e vaidade!

SEGUNDO PONTO

Quanto devemos esforçar-nos por assemelhar-nos aos Santos na prática da Humildade

Se os santos, esses varões tão eminentes em méritos e virtudes, não alcançaram o céu senão humilhando-se e procurando ser humilhados, como é crível que eu o obtenha seguindo um caminho inteiramente oposto? Jesus Cristo só colocou no firmamento de sua Igreja esses admiráveis exemplos de humildade para nos mostrar como se é salvo. Quando os santos, com tantos méritos, têm feito do desprezo as suas delícias, quão indesculpáveis seríamos, com tantos defeitos, de nos louvarmos e querermos ser louvados? Os santos, considerando as abundantes graças que haviam recebido, e que, se as aproveitassem bem, teriam podido ser adornados de maior santidade, diziam interiormente:

«Se certo pecador houvesse recebido as mesmas graças que eu, persuado-me que as teria melhor aproveitado; o se eu tivesse tão violentas paixões, estado em ocasiões tão perigosas, e sido tão ignorante como ele, presumo que teria feito pior do que ele fez»

De onde concluíam, com profunda convicção:

«Sou, pois, o maior de todos os pecadores; mereço todo o desprezo e opróbrio» – Si in eadem occasione fuissem, forsan gravius cecidissem (São Pedro Damião)

Porque não tirarei a mesma conclusão? Tenho razão para me louvar e querer ser louvado? Ó! Quão humilde devo ser!

Resoluções e ramalhete espiritual como acima

Referências:

(1) Ego vox clamantis (Jo 1, 24)

(2) Ecce ancilla Domini (Lc 1, 38)

(3) Recordatus misericordiae suae (Lc 1, 54)

(4) Ibant gaudentes… quoniam digni habiti sunt… contumeliam pati (At 5, 41)

(5) Placeo mihi… in contumeliis (2Cor 12, 10). Si hominibus placerem, Christi servus non essem (Gl 1, 10)

(6) Peccatores…, quorum primus ego sum (1Tm 1, 15)

(7) Nunc incipio esse Christi discipulos (Santo Inácio, mártir)

(8) Qui me laudant, me flagellant

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(HAMON, Monsenhor André Jean Marie. Meditações para todos os dias do ano: Para uso dos Sacerdotes, Religiosos e dos Fiéis. Livraria Chardron, de Lélo & Irmão – Porto, 1904, Tomo VI, p. 96-100)