Meditação para o Sábado depois da Ascensão. Solidão Interior

Meditação para o Sábado depois da Ascensão

SUMARIO

É costume das almas piedosas passarem em retiro o tempo da Ascensão até ao Pentecostes, para se disporem a receber o Espírito Santo, segundo o conselho de Nosso Senhor aos seus Apóstolos:

“Ficai de assento em Jerusalém, até que sejais revestidos da virtude lá do alto” (Lc 24, 49)

Meditaremos por conseguinte:

1.° Em que consiste esse retiro ou solidão preparatória;

2.° Quanto é necessário para receber o Espírito Santo no dia de Pentecostes.

— Tomaremos depois a resolução:

1.º De passarmos todos os nossos dias até ao Pentecostes no espírito de recolhimento o de oração;

2.° De sermos pontuais durante este tempo em fazer os nossos exercícios de piedade;

3.° De evitarmos tudo o que poderia distrair-nos, como certas companhias ou conversações.

O nosso ramalhete espiritual será a palavra vinda do céu:

“Recolha-se a vossa alma consigo até á descida do Espírito Santo”

Meditação para o Dia

Adoremos Jesus Cristo dando aos seus Apóstolos o conselho de passarem na solidão os dez dias da Ascensão ao Pentecostes para se disporem a receber o Espírito Santo. Tomemos para nós tão útil conselho; agradeçamos a Nosso Senhor que no-lo dá, e supliquemos-Lhe que no-lo faça bem compreender nesta oração.

PRIMEIRO PONTO

Em que consiste a Solidão Preparatória para a recepção do Espírito Santo

Esta solidão consiste, não em nos apartarmos da sociedade e do centro, em que a providência nos colocou, mas em nos recolhermos dentro de nós e em erigir no fundo da alma uma espécie de solidão interior, onde vivamos a sós com Deus, desprendidos de tudo o que distrai, perturba ou atrai. No curso ordinário da vida, a nossa alma é acometida de mil pensamentos estranhos, de mil preocupações ou fantasias que inabilitam para a oração e meditação, e impedem, que o Espírito Santo atue em nós. É uma multidão de negócios, de notícias, muitas vezes até de ninharias é um teatro menos ruidoso que a alta sociedade, mas muitas vezes não menos tumultuoso, onde todos os fatos passados, presentes e futuros, todos os desvarios do espírito ou da imaginação se apresentam em cena, ora alternadamente ora confusamente. Daí a dissipação no porte, a distração na oração, o esquecimento de Deus no complexo da vida; daí o desregramento do interior, a alma toda desordenada, perturbada, absorta pelas coisas exteriores, e incapaz de todo o recolhimento. A solidão, de que falamos, consiste em remediar um estado de coisas tão deplorável, em nos separarmos interiormente dessa sociedade, que perturba e agita, em erigir dentro de nós um santuário de Deus, em que se vive tranquilo, só com Deus. Os pensamentos estranhos podem fazer ruído em redor de nós; mas não o deixamos penetrar no interior. O interior é o santuário de Deus; seria profaná-lo deixar que nele se introduzam os pensamentos estranhos. Prestamos uma moderada atenção às coisas exteriores, que entram na classe dos nossos deveres; mas não nos deixamos dominar, ainda menos absorver, por eles, e não ficamos por isso menos sós com Deus no mais íntimo do nosso interior. Aí ocupamo-nos de Deus, que amamos, das suas belezas e perfeições infinitas; falamos-Lhe em simplicidade de amor e de confiança; oferecemos-Lhe todas as nossas ações, palavras e pensamentos; rogamos-Lhe, que nos envie o seu adorável Espírito, que ilumina, move, e abrasa; e para não perturbar as suas divinas operações, preservamo-nos das pressas e precipitações, das pequenas paixões, que desregram o interior, se entretêm conosco e nos fazem perder o tempo, das afeições que perturbam e inquietam, dos desejos que calculam de antemão as probabilidades e o resultado dos meios, do espírito de curiosidade, que corre atrás de todas as novidades, que quer saber tudo o que se passa, ouvir tudo o que se diz, e introduz na alma sem pensamentos vãos e supérfluos, sem projetos quiméricos.

O autor da Imitação resume admiravelmente a noção da solidão interior nestas poucas palavras:

“Esvaziai o vosso espírito e coração de todas as coisas criadas; estai a sós com Deus; abri o vosso peito a Jesus Cristo, e fechai-o a tudo mais” – Omnibus evacuatis et licentiatis, solus cum solo uniaris (2 Imitação 8, 5). Da Christo locum, et caeteris omnibus nega introitum (Ibid, 1, 2)

Oh! Quão longe estamos dessa bem-aventurada solidão! Como o nosso interior está distraído, desordenado, dissipado, cheio, das coisas do mundo!

SEGUNDO PONTO

Quanto necessária nos é a Solidão Interior para nos dispormos a receber o Espírito Santo

1.º O Espírito Santo é um Deus zeloso, que não quer um coração dividido (1); e este divino zelo chega até a resfriar a sua amizade, a afastá-lo de Deus, a retirar-nos a Sua graça, algumas vezes por uma simples franqueza, por uma voluntária vista de olhos para o que não se precisava de ver, por uma afeição deliberada, um pensamento inútil. É verdade, que Deus, em Sua bondade, parece esquecer algumas vezes o Seu severo zelo, até chamar para Si a alma voluntariamente infiel; mas são exceções, com que não devemos contar. No curso ordinário, o Espírito Santo só se comunica plenamente à alma que, em atenção ao Seu delicado amor, entregando-se-Lhe inteiramente, evita expandir-se fora. É verdade ainda, que Ele não nos exproba as fantasias inexplicáveis, que a imaginação tem, e que não depende de nós evitar; mas quer, que não as conservemos cientemente; que não as chamemos, quando se afastam, e que não cremos outras de bom grado; quer, que estejamos como de sentinela à porta do nosso interior para deter na passagem qualquer imagem ou pensamento estranho, que pretenda nele entrar. É isto que fazemos?

2.º O Espírito Santo é um Deus de paz, que não quer um coração perturbado (2); e naquele, em que entram os pensamentos e as fantasias inúteis, há necessariamente perturbação, alvoroço, agitação do espírito que se distrai, desordem do coração que se preocupa, por conseguinte incompatibilidade com o Espírito Santo.

3.° Em vão favoreceria Deus com os Seus dons a alma, que não sabe conservar a solidão interior, perde-los-ia logo. Uma conversação, uma notícia, um negócio, bastaria para submergir o espírito nas trevas, o coração no desfalecimento e dissipação. O hábito de se expandir fora faria esquecer as melhores resoluções, secaria as águas da graça, paralisaria as mais santas disposições; e semelhantes à semente lançada na estrada, as boas inspirações do Espírito Santo seriam bem depressa calcadas aos pés por milhares de pensamentos e de quimeras, que ocorrem à alma dissipada.

Resoluções e ramalhete espiritual como acima

Referências:

(1) Ego sum Dominus Deus tuus… zelotes (Ex 20, 5)

(2) Non in commotione Dominus (1 Sm 19, 2)

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(HAMON, Monsenhor André Jean Marie. Meditações para todos os dias do ano: Para uso dos Sacerdotes, Religiosos e dos Fiéis. Livraria Chardron, de Lélo & Irmão – Porto, 1904, Tomo III, p. 86-90)