Meditação para a Quarta-feira da Trindade. Sinal da Cruz e Caridade

Meditação para a Quarta-feira da Trindade

SUMARIO

Continuaremos as nossas meditações sobre o culto da Santíssima Trindade, e refletiremos sobre dois atos deste culto: o primeiro é o sinal da cruz; o segundo é a prática da caridade cristã modelada pela união das três Pessoas Divinas entre Si.

— Tomaremos depois a resolução:

1.° De fazermos de ora em diante o sinal da cruz com grande respeito, de vermos neste sinal a nossa profissão de fé nos mistérios da Trindade, da Encarnação e da Redenção; e com esta consideração, de gostarmos de o fazer de manhã quando acordarmos, à noite quando nos deitarmos, e durante o dia nas nossas refeições e ações principais;

2.° De nos renovarmos na caridade para com o próximo, procurando fazer a felicidade dos que nos cercam e sofrer tudo aos outros sem causar o menor desgosto a pessoa alguma.

O nosso ramalhete espiritual será a palavra de Nosso Senhor:

“Pai, sejam eles um, como também nós somos um” – Ut sint unum, sicut et nos unim, sumus (Jo 17, 22)

Meditação para o Dia

Transportemo-nos pelo pensamento, ao mais alto dos céus. Adoremos ali a Santíssima Trindade; abaixemo-nos diante das trevas que a cercam (1), assim como diante da luz inacessível em que habita (2). Confessemos humildemente que o Seu conhecimento não está ao alcance da nossa inteligência, e que todos os nossos esforços não poderiam alcançá-lo (3). Unamo-nos à inexaurível admiração dos bem-aventurados durante toda a eternidade; e esperando que possamos nela tomar parte, meditemos dois meios de honrar a nossa Santíssima Trindade.

PRIMEIRO PONTO

O Sinal da Cruz, meio de honrar a Santíssima Trindade

O sinal da cruz bem compreendido é um magnífico resumo de todo o Cristianismo. As palavras, que o acompanham, proclamam um só Deus em três Pessoas; e o sinal da cruz em si mesmo, feito com a mão, recorda o sacrifício do Calvário, que foi o obséquio mais sublime que pôde receber o Deus supremo. Por isso a Santíssima Trindade prezou sempre tanto este sinal, que fez dele o instrumento dos maiores milagres. Pela virtude deste sinal, os primeiros cristãos obrigavam a calar-se, a tremer ou a fugir os demônios, livravam os possessos, derribavam os ídolos, obravam diversos prodígios; e a Igreja tem sempre ensinado que, feito com fé e devoção, este sinal pode apagar o pecado venial, afastar a tentação, conseguir a graça. Em consequência desta doutrina, ela não faz uma oração, não lança uma benção sem juntar este sinal às suas santas cerimônias. Se boje este sagrado sinal parece muitas vezes estéril e ineficaz nas nossas mãos, de quem devemos queixar-nos senão de nós que o fazemos por hábito, sem atenção, sem respeito e sem fé; de nós, que pronunciamos o nome das três Pessoas Divinas sem pensar nelas? O espírito e o coração não tomam parte naquele piedoso ato, mas só os lábios e as mãos. Não é evidente que a Santíssima Trindade não se pode julgar honrada com um culto todo material, nem recompensar os seus autores? Como ela é espírito e verdade, precisa de um culto em espírito e em verdade.

Entremos aqui em nós mesmos; humilhemo-nos por tantos sinais da cruz feitos por hábito, sem respeito nem atenção, e compreendamos a necessidade de fazer santamente uma coisa tão santa.

SEGUNDO PONTO

A união das três Pessoas Divinas modelo da Caridade Cristã

Filhos da Trindade, convém-nos imitá-la. Não há meio mais seguro de Lhe agradar senão o de nos assemelharmos a ela, unindo todos os nossos corações pela caridade, como as três Pessoas Divinas são unidas entre Si por natureza. Recebemos este ensino do mesmo Jesus Cristo que, na véspera da Sua morte, dizia estas nelas palavras: Pai, faze que todos sejam um por caridade, como também nós somos um por natureza: que sejam consumados na unidade de um mútuo amor, e que o amor que te une a mim, os una a eles (Jo 17, 21); isto é, que, como as três Pessoas Divinas se entendem sempre perfeitamente, Se amam sempre ternamente, não são senão um só Deus, ainda que em três Pessoas, nós também devemos extinguir nas nossas mútuas relações toda a discórdia, toda a frieza, todo o enfado, toda a ira, e não termos senão um mesmo coração e uma mesma alma. Tal foi o magnífico espetáculo, que deram ao mundo admirado os primeiros cristãos, que obrigavam os pagãos a exclamar: Vede como eles se amam! Tal foi o onipotente encanto, com que o Cristianismo no seu berço cativou os corações.

Oh! Quão bela seria a terra, se hoje como então esta doutrina fosse por ela entendida e praticada. Examinemos a nossa consciência sobre este ponto tão importante da moral cristã.

Resoluções e ramalhete espiritual como acima

Referências:

(1) Et possuit tenebras latibulum suum (Sl 17, 12)

(2) Qui… lucem habitat inaccessibilem (1Tm 6, 12)

(3) Mirabilis facta est scientia tua ex me: confortata est, et non potero ad eam (Sl 138, 6)

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(HAMON, Monsenhor André Jean Marie. Meditações para todos os dias do ano: Para uso dos Sacerdotes, Religiosos e dos Fiéis. Livraria Chardron, de Lélo & Irmão – Porto, 1904, Tomo III, p. 150-153)