Meditação para o Sábado da Terceira Semana da Quaresma. O meado da Quaresma

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São João 6, 1-

1Depois disto, Jesus foi para a outra margem do lago da Galileia, ou de Tiberíades. 2Seguia-o uma grande multidão, porque presenciavam os sinais miraculosos que realizava em favor dos doentes. 3Jesus subiu ao monte e sentou-se ali com os seus discípulos.

4Estava a aproximar-se a Páscoa, a festa dos judeus. 5Erguendo o olhar e reparando que uma grande multidão viera ter com Ele, Jesus disse então a Filipe: «Onde havemos de comprar pão para esta gente comer?» 6Dizia isto para o pôr à prova, pois Ele bem sabia o que ia fazer.

Filipe respondeu-lhe: 7«Duzentos denários de pão não chegam para cada um comer um bocadinho.» 8Disse-lhe um dos seus discípulos, André, irmão de Simão Pedro: 9«Há aqui um rapazito que tem cinco pães de cevada e dois peixes. Mas que é isso para tanta gente?» 10Jesus disse: «Fazei sentar as pessoas.»

Ora, havia muita erva no local. Os homens sentaram-se, pois, em número de uns cinco mil. 11Então, Jesus tomou os pães e, tendo dado graças, distribuiu-os pelos que estavam sentados, tal como os peixes, e eles comeram quanto quiseram. 12Quando se saciaram, disse aos seus discípulos: «Recolhei os pedaços que sobraram, para que nada se perca». 13Recolheram-nos, então, e encheram doze cestos de pedaços dos cinco pães de cevada que sobejaram aos que tinham estado a comer.

14Aquela gente, ao ver o sinal milagroso que Jesus tinha feito, dizia: «Este é realmente o Profeta que devia vir ao mundo!» 15Por isso, Jesus, sabendo que viriam arrebatá-lo para o fazerem rei, retirou-se de novo, sozinho, para o monte.

Meditação para o Quarto Domingo da Quaresma

SUMARIO

Meditaremos hoje:

1.° Sobre a bondade de Jesus Cristo na multiplicação do pão material, que alimenta o corpo;

2.° Sobre a Sua bondade muito maior ainda na multiplicação do pão eucarístico, que alimenta as almas.

— Tomaremos depois a resolução:

1.° De fazermos todas as nossas refeições com um grande sentimento de reconhecimento com a Providência, que no-las dá;

2.° De honrarmos a sagrada Eucaristia com comunhões mais fervorosas e frequentes, e com visitas ao Santíssimo Sacramento mais regulares e abstraídas.

O nosso ramalhete espiritual será a palavra do Salmista:

“Que bom ó Deus para os que são de coração reto!” – Quam bonus Israel Deus his qui recio sunt corde! (Sl 72, 1)

Meditação para o Dia

Adoremos a ternura de Jesus Cristo para com o povo que O segue ao deserto: o Seu coração tão bom comove-se das suas necessidades; e a elas provê de um modo milagroso. Adoremos a Sua bondade, que se mostra muito maior ainda na instituição do pão eucarístico, que alimenta as nossas almas! Ó! Quão bem merece tanta bondade os nossos louvores e amor!

PRIMEIRO PONTO

Bondade de Nosso Senhor na multiplicação do pão material que alimenta os corpos

É certamente um grande milagre multiplicar cinco pães e dois peixes até saciar cinco mil homens e encher ainda doze cestos com os sobejos. Todo o povo, testemunha deste prodígio, tinha muita razão para querer aclamar rei o autor de uma tal maravilha, e de unir-se a ele para não mais o deixar. Mas todos os dias Jesus renova e continuará até ao fim dos séculos um milagre muito mais pasmoso: é a multiplicação anual dos grãos e dos frutos até bastarem para alimentar todo o gênero humano, e dar-lhe não somente o necessário, mas também o útil e o agradável – Usque ad delicias; é a ação divina, que faz, cada ano, germinar todas as sementes, as faz crescer e amadurecer de forma que provejam a todas as necessidades, em todos os pontos do globo terrestre. Este milagre é apenas observado pelos homens ingratos. Poucos o apreciam, poucos o agradecem a Deus com uma verdadeira efusão do coração. Muitos até chegam a servir-se dos seus bens para O ofender. E todavia, ó prodígio! Tanta ingratidão não cansa o Seu amor; Ele derrama o Seu orvalho sobre o campo do pecador como sobre o campo do justo. Oh! Que bom é Deus! Que cuidado tem dos Seus escolhidos! E quão justo é que O amemos, e louvemos, e lhe agradeçamos continuamente!

SEGUNDO PONTO

Bondade de Nosso Senhor na multiplicação do pão eucarístico, que alimenta as almas

Há neste só fato um grande número de milagres. Ali, Jesus Cristo multiplica a Sua presença em tantos milagres quantos os altares em que o sacerdote sacrifica, em tantas hóstias quantas contêm todos os cibórios do mundo, em tantas partículas quantas encerra cada hóstia.

Ali Jesus Cristo está presente em todos os tempos como em todos os lugares, permanecendo, depois do sacrifício, em todos os, tabernáculos, ainda que desamparado, solitário, desconhecido, desprezado, cercado de irreverências, de profanações, de ultrajes; e no meio de tudo isto, ora, sacrifica-Se pelos homens, que correspondem tão mal ao Seu amor.

Ali, deixa-Se distribuir como comida a todos os que se apresentam, até aos mais indignos, levar a todos os enfermos que desejam recebê-lO, até à mais humilde cabana.

Ali, acolhe todo aquele que quer falar-Lhe; chama todos os aflitos para os consolar, todos os fracos para os amparar; e nenhum momento há no dia nem na noite em que não se alegre de dar as Suas audiências.

Ali, põe todas as Suas graças à disposição de quem as quer receber, e todo aquele que recorre a Ele, pode dizer-Lhe como Jó:

“Nada temo enquanto estou junto a vós” – Pone me justa te, conjusvus manus pugnet contra me (Jó 17, 3)

Pode o amor ir mais longe? E na presença destes milagres, que devemos nós fazer senão amar e louvar a Deus, que tanto nos amou? E que resolução havemos de tomar senão a de recebê-lO muitas vezes e piamente? O Seu desejo é entregar-Se a nós; seja o nosso sumo desejo entregar-nos a Ele.

Resoluções e ramalhete espiritual como acima

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(HAMON, Monsenhor André Jean Marie. Meditações para todos os dias do ano: Para uso dos Sacerdotes, Religiosos e dos Fiéis. Livraria Chardron, de Lélo & Irmão – Porto, 1904, Tomo II, p. 158-162)