Meditação para a Segunda-feira da 1ª Semana depois da Epifania

SUMARIO

Antes de entrarmos na narração circunstanciada das ações do Verbo Encarnado, meditaremos certos
rasgos generosos da Sua vida, de que cada ato particular não é senão como que aplicação. O primeiro rasgo, que meditaremos  é o Seu título de Redentor. Veremos:

1.° Quanto Jesus mereceu este título;

2.° Que obrigações este título nos impõe.

— Tomaremos depois a resolução:

1.° De beijarmos muitas vezes com amor o crucifixo, de saudarmo-lo com um coração cheio de reconhecimento em toda a parte onde se oferecer aos nossos olhos;

2.° De antepormos sempre a qualquer outro interesse o interesse de nossa própria salvação.

O nosso ramalhete espiritual será a palavra de São Paulo:

“Jesus Cristo morreu por todos a fim de que também os que vivem não vivam mais para si mesmos, mas para Ele” – Pro omnibus mortuus est Christus: ut et qui vivunt jam non sibi vivant, sed ei qui pro ipsis mortuus est (2Cor 5, 15)

Meditação para o Dia

Ajoelhados pelo pensamento diante do presépio, entre Maria e José, adoremos Jesus Cristo debaixo do amável título de nosso Redentor, padecendo como homem em nosso lugar, dando como Deus um preço infinito aos seus padecimentos. Oh! Quão bem merece este título as nossas ações de graças, os nossos louvores e o nosso amor.

PRIMEIRO PONTO

Jesus nosso Redentor

Admiremos aqui quão magnifica é a nossa redenção. Três considerações nos demonstram a sua excelência:

1.° Jesus Cristo tirou-nos do abismo do pecado, alcançando-nos o perdão. O pecado de Adão havia-nos fechado o céu e aberto o inferno. Jesus restitui-nos os nossos direitos ao céu, e não cabem no inferno senão os que não querem salvar-se. Ao pecado de Adão temos juntado as nossas culpas pessoais, abismo muito diversamente grave: porque Adão não pecou senão uma vez; e nós temos pecado muitas vezes. Todos os dias pecamos ainda, e enquanto vivemos, somos capazes de pecar sempre. Ora, coisa admirável, ainda que pequemos, o sangue de Jesus Cristo está sempre pronto a correr sobre nós para nos purificar; de sorte que achamos mais em Jesus Redentor do que tínhamos perdido em Adão culpado; a graça traz-nos mais bens do que males o pecado nos tinha causado (1); e a Igreja tem razão para exclamar, falando do pecado de Adão: Feliz culpa, que nos alcançou um Redentor, que obtêm o perdão para todas as nossas culpas; pecado dalguma sorte necessário, depois do qual nos foi dado o Redentor, que nos convinha por causa das nossas numerosas prevaricações pessoais! (2).

2.º Jesus Cristo, pela Sua redenção, não nos obtém somente o perdão das nossas culpas; obtém-nos também todas as graças que formam os santos, tantos sacramentos, tantos meios de salvação que existem na Igreja, tantos ensinos, tantos bons pensamentos e santos desejos. Ah! Em verdade, a nossa redenção é copiosa (3), e vós sois cheio de misericórdia.

3.º Logo que o nosso Redentor pôde remir-nos e alcançar-nos tantos bens com um só dos Seus suspiros, quis, para nos mostrar mais amor, para tirar todo o pretexto à frouxidão, dar todo o Seu sangue, padecer todas as ignomínias e dores, morrer na cruz e renovar o seu sacrifício todos os dias em todos os altares do mundo. Ó divino Redentor, quão bom sois! Quão melhor nos tratais do que tratastes os profetas, que desejaram ver o que nós vemos e não o viram, melhor do que tantos povos, que ainda não receberam o Evangelho! Ah! De que nos teria servido nascer, se não tivéssemos sido remidos? (4)

SEGUNDO PONTO

Nossas obrigações para com Jesus Redentor

Podem reduzir-se a duas : o amor e o zelo da salvação.

1.º O amor; nós devemos amar-Vos, ó Pai celestial, que primeiro amastes o mundo até lhe dar o Vosso Filho unigênito (5). Ó admirável condescendência do Vosso amor para conosco! Ó inefável caridade! Para resgatar um escravo, entregais o Vosso Filho! Poderia eu depois disto hesitar em sacrificar-Vos todos os meus bens, o meu corpo, a minha alma, o meu coração, todo o meu ser? Nós devemos amar-Vos, ó Filho eterno de Deus, que Vos dignastes entregar-Vos à morte, e a uma tal morte, para nos salvar a nós, os Vossos inimigos, os Vossos ingratos devedores. Se Vos estamos obrigados e devemos pertencer-Vos inteiramente como criaturas Vossas, quanto Vos não estaremos obrigados e deveremos pertencer-Vos como remidos por Vós, e remidos de tal modo? (6) Para criar o universo, não Vos custou senão uma palavra; mas para me remir, quantos trabalhos, quantas fadigas, quantos tormentos e opróbrios! Criando-me, entregastes-me a mim mesmo; remindo-me, entregastes-Vos a mim. Que Vos darei, ó meu Deus, em paga de Vós mesmo? (7) Devo ser todo para Vós, todo só para Vós, sempre para Vós. É justo que eu não viva senão para um Deus sem cuja morte eu não viveria, e é ao mesmo tempo útil que eu sirva um Deus que me promete em retribuição o seu paraíso.

2.° Devemos a Jesus nosso Redentor o termos um grande zelo pela salvação da nossa alma sobretudo; porque seria uma indignidade desprezar uma alma, por quem um Deus tanto fez; uma alma por quem um Deus morreu; e cometer o pecado, cuja reparação lhe custou tão caro. Ao zelo da salvação da nossa alma devemos juntar o zelo da salvação dos nossos irmãos. Jesus Cristo pede-nos que O ajudemos nesta grande obra (8). O Seu sangue clama-nos: Tende zelo, ajudai-me a salvar o mundo, porque seria em vão que eu teria sido derramado por amor de tal alma, sobre que tendes domínio senão me ajudásseis a salvá-la! As Suas chagas clamam-nos: Tende zelo; seria em vão que teríamos sido abertas por amor dela, se me não ajudásseis a tirá-la da sua cegueira. Quem poderia tapar os ouvidos a estas súplicas de um Deus?

Resoluções e ramalhete espiritual como acima

Referências:

(1) Ubi abundavit delictum, superabundavit gratia (Rm 5, 20)

(2) O certe necessarium Adae peccatum, quod Christi morte deletum est (Bened cer. pasch.)

(3) Copiosa apud eum redemptio (Sl 129, 7)

(4) Nihil nobis nasci profuit, nisi redimi profuisset (Bened. cer. pasch.)

(5) O mira circa nos tuae pietatis dignatio! O inestimabilis dilectio caritatis! Ut servum redimeres, Filium tradidisti (Bened. cer. pasch.)

(6) Si toto me debeo pro me facto, quid pro me refecto et refecto hoc modo? (São Bernardo)

(7) Quid Deo retribuem pro se? (São Bernardo)

(8) Dei enim sumus adjuctores (1Cor 3, 9)

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(HAMON, Monsenhor André Jean Marie. Meditações para todos os dias do ano: Para uso dos Sacerdotes, Religiosos e dos Fiéis. Livraria Chardron, de Lélo & Irmão – Porto, 1904, Tomo I, p. 180-184)