Meditação para a Sexta-feira de Pentecostes. Infidelidade à Graça

Meditação para a Sexta-feira de Pentecostes

SUMARIO

Depois de termos meditado a admirável ação do Espírito Santo nas almas, consideraremos agora a desgraça da alma, que não se deixa conduzir por este divino guia; e para o compreender, veremos:

1.º O que sofre a alma infiel à graça;

2.° O que perde.

— Tomaremos depois a resolução:

1.° De obedecermos com amor e prontidão a todas as santas inspirações, sem nunca resistir a alguma;

2.° De pedirmos muitas vezes ao Espírito Santo a Sua assistência, dirigindo-Lhe a invocação da Santa Igreja que nos servirá de ramalhete espiritual:

“Vinde em meu socorro, ó Pai dos pobres, doador das graças, lume dos corações” – Veni Pater pauperum, dator numerum; veni lumen cordium

Meditação para o Dia

Adoremos o Espírito divino oferecendo-Se à alma para a santificar; admiremos a Sua bondade mais que paternal; peçamos-Lhe perdão da nossa infidelidade, perdão de termos tantas vezes fechado o ouvido à Sua voz, resistido às Suas inspirações; e roguemos-Lhe, que nos faça compreender bem a grande desgraça da alma, que Lhe é infiel.

PRIMEIRO PONTO

O que sofre a alma infiel à Graça?

Esta alma não tem paz nem felicidade: não tem paz: porque, diz Jó, quem resistiu a Deus e ficou em paz? (1). Não tem felicidade: porque diz Jesus ressuscitado a Saulo infiel:

“Dura coisa é para ti recalcitra contra o aguilhão da graça” – Durum est… contra stimulo calcitrare (At 9, 5)

1.º Por estar privado das consolações da piedade. Quando ela era fiel, gozava das consolações inefáveis na oração, na comunhão, na visita ao Santíssimo Sacramento e outros exercícios; mas depois que é infiel, sente-se fria, desgostoso. Com efeito, como prodigalizaria o Espírito Santo as Suas finezas o consolações à alma, que Lhe resiste, que não quer ouvi-lO nem obedecer-Lhe, que não sabe sacrificar-Lhe uma afeição, uma vontade, uma inclinação?

2.° Por ver as suas esperanças frustradas; ela esperava achar a felicidade na satisfação dos seus gostos e caprichos; e Deus, para se vingar, derrama a amargura nos seus falsos prazeres. Acha neles desgostos maiores que os que ela fugia; sente dentro de si uma grande tristeza; fora de si contradições, dissabores; volta-se em todos os sentidos para achar descanso e todos os seus movimentos não fazem senão meter-lhe mais fundo a espinha no coração (2).

3.° Pelas exprobrações da sua consciência que, descontente de si mesmo, lhe grita incessantemente que ela é uma ingrata, uma indócil, uma insensata, que se assemelha ao enfermo que, do seu leito de dor, vê o remédio próprio para o curar e recusa tomá-lo.

“Tu vês claramente o que hás de fazer, lhe diz a sua consciência, e não o fazes. Bem conheces, que és desarrazoada, e continuas; a graça está à porta do teu coração, exortando-te, oferecendo-te a sua mão caridosa para te guiar, e tu não fazes caso disso e deixa-la falar. Onde está pois a tua religião? Onde está a tua razão?”

4.º Da parte de Deus, que a persegue com o Seu amor, que a torna desgraçada para seu bem, com receio de que, sentindo-se tranquila e à sua vontade no seu funesto estado, não persevero nele. Eis aqui de onde provém, que tantas vezes, depois de termos recusado a Deus o sacrifício de uma palavra pouco caridosa, nos achamos tristes e descontentes, sem saber a razão disso.

SEGUNDO PONTO

O que perde a alma infiel à Graça?

Perder uma graça, uma inspiração do Espírito Santo, é perder mil vezes mais do que se perdêssemos todos os reinos do mundo. Todos os bens da terra são transitórios e de pouco valor, enquanto que a menor graça tem consequências eternas e é de um valor infinito, pois que vale o sangue de Jesus Cristo, à custa do qual nos foi comprada. Perder uma graça, é perder o elemento essencial da nossa vida sobrenatural; é imitar o insensato, que lançasse na lama o pão necessário à sua subsistência. Perder uma graça, é perder ao mesmo tempo todas as graças, que teriam sido a consequência dessa primeira graça bem aproveitada, pois que a fidelidade a uma primeira graça, atrai uma segunda, esta uma terceira, e assim com as outras; é perder, portanto, tesouros, cujo alcance só Deus conhece; e que desgraça para nós tão pobres e indigentes! Oh! Quantas graças perdemos desta sorte! Deploremos estas perdas, e reparemo-las, não perdendo jamais nenhuma graça.

Resoluções e ramalhete espiritual como acima

Referências:

(1) Quis resistit ei et pacem habuit (Jó 9, 4)

(2) Conversus sum in aerumna mea, dum contigitur spina (Sl 31, 4)

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(HAMON, Monsenhor André Jean Marie. Meditações para todos os dias do ano: Para uso dos Sacerdotes, Religiosos e dos Fiéis. Livraria Chardron, de Lélo & Irmão – Porto, 1904, Tomo III, p. 133-135)