Meditação para a Sexta Terça-feira depois de Pentecostes. Importância das Pequenas Coisas

Meditação para a Sexta Terça-feira depois de Pentecostes

SUMARIO

Meditaremos o quarto princípio da vida cristã, que é, que no que respeita ao serviço de Deus devemos fazer muito caso até das mínimas coisas; e veremos que devemos:

1.° Estimar muito até os menores atos de virtude;

2.° Evitar com grande cuidado ainda as menores culpas.

— Tomaremos depois a resolução:

1.º De nos inclinarmos para toda a boa obra, para todo o ato do virtude, até pouco considerável; e de nos resguardarmos das menores culpas;

2.º De detestarmos a falsa máxima, que um espírito elevado não se detêm com as pequenas coisas, e se contenta de servir a Deus com as grandes.

O nosso ramalhete espiritual será a palavra de São Bernardo:

“Começam pelas pequenas culpas os que acabam nas grandes” – A minimis incipiunt qui in maxima proruunt (São Bernardo, De ord. vit. et mor. inform.)

Meditação para o Dia

Adoremos Nosso Senhor ensinando-nos a estima das pequenas coisas na sua bela resposta aos fariseus, que, ainda que transgredindo a justiça e a caridade, eram pontuais em pagar o dízimo das menores hortaliças.

«Devíeis praticar as coisas mais importantes, lhes diz Ele, sem que entretanto omitísseis as mais somenos» – Hoc oportuit facere, et illa non omittere (Mt 23, 23)

Agradeçamos-Lhe este ensino, e roguemos-Lhe que no-lo faça bem compreender.

PRIMEIRO PONTO

Devemos estimar muito até os menores atos de Virtude

1.º A fé mostra-nos como um grande bem os menores atos de virtude, porque o que conduz ao céu é sempre de grande preço; porque é sempre grande coisa agradar a Deus, até em pequenas coisas; porque no serviço deste supremo Senhor, como no dos potentados da terra, as pequenas atenções são a prova de um grande amor; porque se, quando se teme de Deus, nada se despreza, diz o Espírito Santo (1) com maior razão nada se despreza, quando se ama; porque finalmente nunca é pequena coisa o que se faz com muito amor, assim como nunca é grande coisa o que se faz com pouco amor; pois que Deus não aprecia as coisas segundo a sua maior ou menor grandeza intrínseca, mas segundo o maior ou menor amor, com que se fazem. Um homem colhe uma flor num jardim e cheira-a inocentemente; outro abstém-se disso e sacrifica a Deus o pequeno prazer, que sentiria em a cheirar: há tanta distância entre a ação de um e a do outro como entre o céu e a terra, entre uma ação natural e uma ação sobrenatural.

2.º As ocasiões de fazer grandes coisas são raras. Se só quisermos ser fiéis a Deus nas grandes coisas, sê-lo-emos raras vezes, porque a vida do homem compõe-se de um agregado de pequenas coisas. Até se poderia dizer, que nunca o seremos, porque uma criatura tão pequena como o homem não pode chamar grande nada que faz por tão augusta majestade. Ora, nós somos obrigados a servir a Deus sempre e a todos os momentos, porque é sempre Nosso Senhor.

3.° Quanto mais pequenas são as coisas, mais fáceis são; e quanto mais fáceis, menos desculpa temos de as recusar a Deus, a quem devemos tudo, a Jesus Cristo seu Filho que tanto fez e padeceu por nós.

«Se o profeta, diziam os servos de Naamã a seu amo, vos tivessem pedido alguma coisa difícil, tê-la-íeis feito: porque pois, pedindo-vos uma coisa tão fácil como é lavar-vos sete vezes no Jordão, não haveis de fazê-la?»

Apliquemos a nós mesmos esta palavra. A salvação é coisa tão grave, que seria necessário para a alcançar fazer até as coisas mais difíceis; logo, com maior razão, devemos fazer as coisas mais fáceis. Deus fez e padeceu tanto por nós, que seria preciso para Lhe agradar abraçar com amor os maiores sacrifícios; logo, recusar-Lhe um pequeno sacrifício, um pequeno ato de virtude, é uma covardia, uma ingratidão, uma indignidade. Ah! Senhor, se quando se trata de Vos agradar, acho difíceis coisas tão fáceis, é uma triste prova de que Vos não amo.

Entremos aqui dentro em nós; humilhemo-nos e propunhamo-nos fazer grande caso dos menores atos de virtude, que tivermos ocasião de praticai.

SEGUNDO PONTO

Devemos evitar com grande cuidado até as menores culpas

É injustamente que se diz de certas culpas: Não é mais do que um pequeno pecado. Há pecados veniais, mas não há pequenos pecados. Não se pode chamar pequeno um mal, que ofende uma infinita majestade, que é uma falta de respeito para com a Sua grandeza, uma ingratidão para com os Seus benefícios, uma desobediência aos Seus mandados, uma resistência à Sua vontade, uma diminuição da Sua glória exterior, uma indiferença para com o Seu amor.

Não se pode chamar pequeno um mal, que Deus não pode deixar de abominar, assim como não pode deixar de ser Deus; um mal tão grande, que excede todos os males imagináveis, até a morte de todos os homens, até a ruína do universo; um mal tão grande, que o mesmo inferno, seria um menor mal, pois não seria permitido livrar todos os condenados, ainda quando se pudesse, por um só pecado venial.

Não se pode chamar pequeno um mal, a que Deus inflige na outra vida as penas do purgatório, e a que tem infligi do muitas vezes nesta os mais terríveis castigos. Que diremos finalmente? Não se pode chamar pequeno um mal, que arrisca a nossa salvação. Ora eis aqui o que fazem as pequenas culpas: resfriam a amizade de Deus para conosco, diminuem as Suas graças, entibiam a nossa fé, tiram-nos esses gozos espirituais, que amparam a nossa fraqueza, enervam a nossa vontade, inclinam-a pouco a pouco para o mal, abafam os remorsos, dissipam a vigilância e conduzem com isto aos grandes pecados, que são quase sempre a consequência de uma série de relaxações. Ninguém se torna de repente grande pecador nem grande santo (2); não se cabe no fundo do abismo senão gradualmente, de sorte que todo aquele, que persiste firme no primeiro degrau, sem descer os seguintes degraus, não cairá: de onde se segue, que a fuga das pequenas culpas é a mais forte garantia de perseverança; começa-se pelas pequenas culpas antes de cair nas grandes (3). Quantas ilusões criamos n esta matéria!

Resoluções e ramalhete espiritual como acima

Referências:

(1) Qui timet Deum, nihil negligit (Ecl 7, 19)

(2) Nemo repente tit summus (São Bernardo, De vit. ord. et mor. inform.)

(3) A minimis incipiunt qui in majora proruunt

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(HAMON, Monsenhor André Jean Marie. Meditações para todos os dias do ano: Para uso dos Sacerdotes, Religiosos e dos Fiéis. Livraria Chardron, de Lélo & Irmão – Porto, 1904, Tomo III, p. 261-265)