Meditação para a Quarta-feira antes do Pentecostes. Dom de Sabedoria

Meditação para a Quarta-feira antes do Pentecostes

SUMARIO

Continuando a estudar os dons do Espírito Santo, meditaremos o Dom de Sabedoria, e veremos:

1.º O que é o Dom de Sabedoria;

2.º Qual é a sua excelência.

— Tomaremos depois a resolução:

1.º De invocarmos muitas vezes no dia o Espírito de sabedoria, para que dirija os nossos atos, os nossos pensamentos e as nossas palavras;

2.° De vigiarmos o nosso coração, para que não se deixe seduzir pelas falsas máximas do mundo a respeito do gozo, da riqueza, das honras, do desejo de aparecer.

O nosso ramalhete espiritual será a máxima do Espírito Santo:

“Melhor é a sabedoria que todas as riquezas de mais subido valor: e tudo o que é apetecível, com ela se não pode comparar” – Melior est sapientia cunctis pretiosissimis, et omne desiderabile ei non potest comparari (Pr 8, 11)

Meditação para o Dia

Voltemos ao Cenáculo; afiguremo-nos Maria e os Apóstolos em oração, e nós no meio deles. Que admirável oração era a sua! E a nossa, que vai ela ser? Recolhamo-nos dentro em nós, concebamos um grande desejo de fazer hoje a melhor oração da nossa vida, e de atrair a nós o Dom de Sabedoria, sobre que vamos meditar.

PRIMEIRO PONTO

O que é o Dom de Sabedoria?

A sabedoria, segundo São Bernardo, é o desgosto das coisas do mundo, e o gosto das coisas de Deus. (1). A alma, que recebeu este gosto divino, acha um inexprimível prazer em pensar em Deus, em gostar as coisas de Deus, as Suas grandezas, as Suas belezas, as Suas perfeições, os Seus mistérios: tanto ela os acha infinitamente adoráveis, infinitamente amáveis. Todos os bens da terra, os louvores e as honras, as riquezas e os prazeres, lhe são extremamente insípidos. Gostou Deus, não pode já gostar outra coisa. Graças a este Dom de Sabedoria, não conhece outro prazer neste mundo senão o da oração, das santas leituras, das boas obras, dos exercícios de piedade, outro atrativo senão o da vontade divina, a ponto que sente mais complacência em fazer as coisas mais desprezíveis por amor de Deus do que em trazer cetros e corôas, como a própria Santa Tereza o refere.

A pobreza parece-lhe um tesouro, as austeridades um gozo, os desprezos um bem inestimável, os sofrimentos uma felicidade, as afrontas uma glória, a prisão, os azorragues, as varas, um bom encontro (2). Toda a terra nenhum valor tem para ela, só aprecia o céu. O tempo parece-lhe uma sombra; só a eternidade lhe parece digna de ocupar o seu pensamento. Oh! Que grande necessidade temos deste dom! Porque sem ele não se gosta das coisas de Deus; não se desejam nem se buscam; acaba-se por desprezá-las, porque tudo nelas nos parece árido e insípido, e até as orações mais patéticas, os exercícios mais pios não nos falam ao coração. Sem este dom, deixamo-nos seduzir pela estultícia do mundo, que põe o seu último fim na criatura e não em Deus, a sua felicidade nas coisas transitórias e não nas coisas eternas, no que lisonjeia a vaidade ou causa prazer, e não na humilhação, na pobreza, nas tribulações, tão amadas de Jesus Cristo e dos Santos.

Entremos aqui em nós mesmos. Temos em nós o Dom de Sabedoria, ou não caímos nós na estultícia do mundo? Reconhecê-lo-emos examinando quais são os nossos gostos, quer a respeito de Deus e das coisas divinas, quer a respeito das criaturas e das coisas terrenas, do que nos agrada ou desagrada, do que contenta ou descontenta o coração, finalmente se só gostamos o que Jesus Cristo e os Santos gostaram, a saber, a pobreza, a abjeção, as provações.

SEGUNDO PONTO

Qual é a excelência do Dom de Sabedoria?

1.º É o remédio específico para esse cimento de corrupção que deixou em nós o pecado original.

Com efeito é tal a nossa má natureza, que só gostamos de tudo o que diverte e causa prazer, do que lisonjeia o amor-próprio e a vaidade, do que nos grangeia estima e louvor, do mundo finalmente e de todos os seus falsos bens; enquanto que, ao contrário, gostamos pouco das coisas espirituais, dos exercícios de piedade, da prática das virtudes, muitas vezes até nos repugna tudo o que é dever, a ponto que basta algumas vezes, que uma coisa seja mandada para que ela desagrade, que seja proibida para que agrade. Ora o Dom de Sabedoria corrige precisamente estes gostos depravados. Mostra-nos claramente a falsidade de tudo o que o mundo preza, e nos induz a aborrecê-lo; o verdadeiro mérito de tudo o que santifica, e induz-nos a amá-lo.

2.° O Dom de Sabedoria torna-nos todas as virtudes fáceis e nos faz progredir com delícias no caminho da perfeição.

Faz-nos gostar de Deus e das coisas espirituais, da cruz e das privações, do recolhimento em Deus, da caridade e do sacrifício para com o próximo, da humildade e da abnegação; e com estes gostos sobrenaturais nada custa quanto à salvação. Fazemos bem todas as coisas, porque as fazemos com gosto; e fazemo-las animosamente e sem nos enfastiarmos, porque nos agradam; fazemo-las com amor, porque nisso achamos a felicidade desde a vida presente. Desejemos e peçamos de todo o nosso coração tão precioso dom.

Resoluções e ramalhete espiritual como acima

Referências:

(1) Sapientia est sapor boni

(2) Ibant gaudentes… quoniam digni habiti sunt pro nomine Jesu contumeliam pati (At 5, 41)

Voltar para o Índice das Meditações Diárias de Mons. Hamon

(HAMON, Monsenhor André Jean Marie. Meditações para todos os dias do ano: Para uso dos Sacerdotes, Religiosos e dos Fiéis. Livraria Chardron, de Lélo & Irmão – Porto, 1904, Tomo III, p. 101-104)